Discursos politizados, diversidade e surpresas: como o Globo de Ouro 2017 será lembrado

Discursos politizados, diversidade e surpresas: como o Globo de Ouro 2017 será lembrado

Aconteceu na noite de ontem e madrugada de hoje (9), a entrega do Globo de Ouro, prêmio dado pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood aos artistas do cinema e da televisão americana.

Foi uma noite que contou com algumas surpresas, como o prêmio de ‘Melhor Ator Coadjuvante em Filme para TV ou Minissérie’ para o Hugh Laurie, mais conhecido por seu papel como o Doutor House, além de ter sido um evento que reconheceu e premiou o trabalho de artistas negros e apresentou discursos politizados, como o de Meryl Streep, que ficará eternizado na história do Globo de Ouro.

Agora vamos ao que interessa:

Primeiramente, já no tapete vermelho da premiação, a atriz Evan Rachel Wood, que concorria na categoria de ‘Melhor Atriz em Série de Drama’ por sua atuação em “Westworld”, fez uma declaração sutil, mas importante, a todas as as mulheres. Comparecendo à premiação de terno, a artista disse que a escolha pela vestimenta foi feita deliberadamente.

“Esta é minha terceira indicação, e já estive no Globo de Ouro seis vezes, sempre com vestidos”, ela explicou a Ryan Seacrest. “E eu amo vestidos, não estou fazendo um protesto contra vestidos. Mas eu queria me certificar de que meninas e mulheres soubessem que isso não é obrigatório.Você não precisa usar vestido se não quiser — seja só você mesma, porque seu valor vai além disso”.

Em seguida, começou a premiação. O apresentador Jimmy Fallon foi o mestre de cerimônias e, como de costume, fez um monólogo na abertura, no qual, não só falou sobre os indicados à estatueta dourada, também aproveitou para fazer algumas críticas ao presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que não economizou em discursos misóginos, racistas e xenofóbicos durante sua campanha no ano passado.

“‘Game of Thrones’ foi indicado nessa noite. O seriado possui várias reviravoltas e momentos chocantes. Muitas pessoas perguntaram-se como seria se o rei Joffrey tivesse sobrevivido [à morte por envenenamento na atração]. Bem, em 12 dias nós descobriremos”, disse Fallon, acrescentando que o Globo de Ouro é um dos poucos locais nos Estados Unidos onde o voto popular é respeitado, uma referência à vitória de Hillary Clinton sobre Trump no voto popular nas eleições americanas. Contudo, por conta do número de delegados, o Republicano acabou sendo eleito.

Após as palavras do apresentador, deu-se início à entrega dos prêmios. Um dos primeiros foi dado à atriz Tracee Ellis Ross, que disputava ‘Melhor Atriz em Série de Comédia’, por seu trabalho em “Black-ish”. Era a primeira vez da artista no evento e a primeira vez em quase 35 anos que o Globo de Ouro é dado a uma mulher negra nessa categoria.

“Isso é para todas as mulheres, as mulheres e pessoas de cor, cujas histórias, ideias e pensamentos não são sempre considerados válidos e importantes. Mas eu quero que vocês saibam: eu vejo vocês. Nós vemos vocês”, disse Tracee. “É uma honra estar nesse programa, ‘Black-ish’, para continuar a expandir a forma como nós [negros] somos vistos e percebidos e mostrar a mágica, a beleza e a igualdade de uma história e de histórias que estão de fora do que a indústria se parece”.

E ela não foi a única artista negra premiada. Além dela, Donald Glover levou dois prêmios: ‘Melhor Série de Comédia’, por “Atlanta”, e ‘Melhor Ator em Série de Comédia’.

“Eu cresci em uma casa onde a mágica não era permitida. Então, todos que estão aqui são mágicos para mim. Toda vez que eu via um um filme ou filmes da Disney, eu pensava: ‘oh, a mágica é das pessoas’. Nós somos as pessoas que, de uma forma esquisita, contam as histórias ou mentiras para as crianças, para que elas possam fazer coisas que nós nunca pensamos ser possíveis. Meu pai costumava dizer todos os dias que eu podia fazer o que eu quisesse. E eu me lembro pensar, quando pequeno, ‘você está mentindo para mim’. Mas eu fiz coisas que ele não achava ser possíveis. Por isso, eu queria dizer ‘obrigado’ ao meu filho e à mãe do meu filho, por me fazerem acreditar nas pessoas de novo e de que as coisas são possíveis. Obrigado”.

Hugh Laurie ganhou o prêmio de ‘Ator Coadjuvante em Filme para TV ou Minissérie’ e usou seu discurso para também falar de Donald Trump.

“Eu ganhei o último Globo de Ouro da história. Eu não quero parecer sombrio, mas há as palavras ‘Hollywood’, ‘imprensa’ e ‘estrangeira’ no título”, ele disse em referência ao presidente eleito e sua administração. “[…] Eu aceito essa honraria em respeito a todos os bilionários psicopatas”.

Também foi uma noite linda para Viola Davis, que venceu sem surpresa alguma na categoria ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ com seu trabalho no filme “Fences”. Ela dedicou o prêmio ao seu falecido pai, cuja “história merecia ser contada”. Desde 2012 uma artista negra não ganhava na categoria.

“Não é todo dia que Hollywood transforma uma peça de teatro em filme. [Porque] Isso não grita ‘gerador de dinheiro’, mas grita ‘arte’, grita ‘coração’. […] Obrigado ao Troy de verdade [nome do personagem de Denzel Washington em “Fences”, com quem contracena], meu pai, Dan Davis, nascido em 1936. Ele cuidava de cavalos, estudou até a quinta série, não sabia ler até fazer 15 anos. Mas sabem de uma coisa? Ele tinha uma história e ela merecia ser contada. E August Wilson [autor da peça “Fences”] a contou.

E Viola Davis subiu ao palco mais uma vez. Na segunda, foi para introduzir o prêmio de reconhecimento à carreira da brilhante Meryl Streep.

“Ela transforma os mais heroicos personagens em vulneráveis, os mais mais conhecidos em família, os mais repulsivos de forma com que nós possamos nos identificar com eles. Caramba, Streep. Sua arte nos faz relembrar o impacto que é ser artista, que é nos fazer sentir menos solitários. […] Você me faz ter orgulho de ser artista. Você me faz sentir que o que eu tenho em mim, meu corpo, meu rosto, minha idade são o bastante. Se você me perguntasse o que eu vim fazer neste mundo enquanto artista, eu diria que vim para viver bem alto”.

Eu iria editar o discurso de Meryl Streep, mas ele merece ser lido na íntegra:

“Muito obrigada. Muito obrigada. Por favor, sentem-se. Eu amo todos vocês. Vocês precisam me perdoar. Eu perdi minha voz gritando e lamentando nesse final de semana. E eu perdi minha cabeça em algum momento neste ano. Então, eu vou ter de ler.

Obrigada, Imprensa Estrangeira de Hollywood. Continuando o que Hugh Laurie disse, vocês e todos nós neste salão pertencemos aos segmentos mais vilificados da sociedade hoje. Pensem nisso. Hollywood, estrangeiros e a imprensa. Mas quem somos nós? E sabe, quem é Hollywood de qualquer maneira? Apenas um bando de gente de outros lugares.

Eu nasci e fui criada nas escolas públicas de Nova Jérsei. Viola [Davis] nasceu numa cabine de um meeiro na Carolina do Sul, cresceu em Central Falls, em Rhode Island. Sarah Paulson foi criada por uma mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker era uma de oito crianças em Ohio. Amy Adams nasceu na Itália. Natalie Portman nasceu em Jerusalém. Aonde estão suas certidões de nascimento? E a linda Ruth Negga nasceu na Etiópia, criada em… Não, na Irlanda, eu acredito. E ela está aqui, indicada por interpretar uma menina de uma cidade pequena em Virgínia. Ryan Gosling, como todas as pessoas mais gentis, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, cresceu em Londres, está aqui por dar vida a um indiano na Tasmânia.

Hollywood está rastejando com pessoas que não se encaixam e estrangeiros. Se você expulsar todos eles, você não verá nada além de futebol e artes marciais, que não são artes. Eles me deram segundos para dizer isso. O trabalho de um ator é entrar nas vidas das pessoas que são diferentes de nós e deixar-nos fazer com que você sinta aquilo. E há muitas performances poderosas nesse ano que fizeram exatamente isso, um trabalho apaixonado e de tirar o fôlego.

Houve uma performance nesse ano que me impressionou. Seu anzol afundou no meu coração. Não porque foi boa. Não houve nada de boa naquilo. Mas foi efetiva e fez seu trabalho. Fez com que sua audiência sorrisse e mostrasse seus dentes. Foi aquele momento quando a pessoa que conseguiu o assento mais respeitado do nosso país imitou um repórter com deficiência [uma referência ao que o presidente eleito Donald Trump fez em 2015, quando fez ‘piada’ de um repórter com deficiência], alguém que ele superava em privilégio, poder e capacidade de revidar. Isso partiu meu coração quando vi. Eu ainda não consegui esquecer isso porque não foi um filme. Foi vida real.

E esse instinto de humilhar, quando é modelado por alguém com uma plataforma pública, por alguém poderoso, é filtrado para a vida de todos, porque dá permissão para que outras pessoas façam a mesma coisa. O desrespeito convida o desrespeito. A violência incita violência. Quando os poderosos usam suas posições para agredir os outros, todos nós perdemos.

Isso me traz à imprensa. Precisamos da imprensa com princípios para responsabilizar o poder, para chamar a atenção deles nas entrevistas por cada ultraje. É por isso que nossos fundadores enalteceram a imprensa e sua liberdade na nossa constituição. Por isso, eu peço apenas para a famosa Imprensa Estrangeira de Hollywood e a todos nós na nossa comunidade para se juntar a mim ao apoiar o comitê que protege jornalistas. Porque nós vamos precisar deles para seguir em frente. E eles vão precisar de nós para salvar a verdade.

Mais uma coisa: uma vez, quando eu estava em um set de filmagem, reclamando de algo, nós estávamos todos indo trabalhar na hora da ceia, ou até mais tarde. Tommy Lee Jones me disse: ‘não é um privilégio, Meryl, ser ator?’ É, é sim. E nós precisamos nos lembrar dos privilégios e responsabilidades do ato de empatia de cada um.Todos nós deveríamos ter orgulho do trabalho que Hollywood homenageia esta noite.

Como minha amiga, a querida falecida Princesa Leia, me disse uma vez: pegue seu coração partido e o transforme em arte. Muito obrigada”.

Quem também fez um discurso apaixonado foi Ryan Gosling, o ‘Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical’. Visivelmente emocionado, ele agradeceu à sua esposa, a também atriz Eva Mendes, e suas filhas Amada e Esmeralda.

“Essa não é a primeira vez que eu sou confundido com o Ryan Reynolds”, brincou o artista. “Damien [Chazelle] e Emma [Stone], esse prêmio pertence a nós três. Eu o divido em três partes, se vocês quiserem. […] Eu gostaria de agradecer devidamente uma pessoa. Enquanto eu estava lá, cantando e dançando, tocando piano e tendo uma das melhores experiências da minha vida em um filme, minha esposa estava criando nossa filha, grávida da nossa segunda filha, e tentando ajudar seu irmão que lutava contra um câncer. Se ela não tivesse aguentado tudo isso, eu não teria tido essa experiência, teria sido outra pessoa aqui em cima. Por isso, meu amor, obrigado. Às minhas filhas, Amada e Esmeralda, eu amo vocês. E se vocês me permitem, eu queria dedicar isso à memória do irmão dela, Juan Carlos Mendes”.

Emma Stone, a ‘Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musical’, subiu ao palco para agradecer seus familiares e amigos, e aproveitou para mandar uma mensagem para quem está lutando para conquistar seus sonhos, assim como sua personagem em “La La Land”.

“Esse é um filme para sonhadores. Acho que a esperança e criatividade são duas coisas importantes no mundo, e é disso o que esse filme se trata. Então, a toda pessoa sonhadora, que já teve uma porta fechada na sua cara, metaforicamente ou fisicamente, ou atores que tiveram suas audições cortadas ou que esperaram aquela ligação que nunca veio, ou a qualquer pessoa, em qualquer lugar, que está pensando em desistir. Levante-se e siga em frente. Eu divido esse prêmio com vocês”.

Quem também saiu premiada foi Claire Foy, estrela da série “The Crown”, da Netflix. Em seu discurso, ela elogiou a rainha Elizabeth II, e disse acreditar na força das mulheres.

“Eu não estaria aqui se não fosse por algumas mulheres extraordinárias. Vou agradecê-las. Uma delas é a rainha Elizabeth II. Ela tem sido o centro do mundo pelos últimos 63 anos. Se me perguntarem, eu acho que o mundo se sairia bem com mais mulheres no centro”.

Foi uma cerimônia que demonstrou a força que histórias bem contadas possuem, além de homenagear histórias diversas, como “Moonlight”, que saiu como vencedor em ‘Melhor Filme de Drama’.

O Globo de Ouro serve como uma espécie de termômetro para o Oscar, então, já faça suas apostas, pois os indicados saem no dia 24 de janeiro!

A lista completa de vencedores do Globo de Ouro está no site da premiação.