Discursos no Oscar roubam a cena da premiação

23. fevereiro 2015 Cinema 4
Discursos no Oscar roubam a cena da premiação

O Oscar, premiação mais importante do cinema, aconteceu na noite de ontem (22). A Academia tentou disfarçar a falta de diversidade dos indicados aos prêmios principais colocando negros e mulheres para entregarem as estatuetas douradas. A ação pode ter sido esperta, mas não deixou de ser notada.

A apresentação ficou a cargo de Neil Patrick Harris, o Barney do extinto seriado “How I Met Your Mother”. Não deu certo. As piadas não funcionaram, o que refletiu na própria plateia, que pouco interagiu com ele. No entanto, não deixa de ser representativo: Harris é gay assumido e casado. É a segunda vez que um homossexual apresenta o Oscar. Ellen DeGeneres, apresentadora de televisão e lésbica, fez um excelente trabalho como mestre de cerimônia no ano passado. E fica aqui minha torcida para que ela volte em 2016.

Mas se Neil Patrick Harris pouco encantou, os ganhadores dos prêmios da noite receberam aplausos. Não só pelo prêmio recebido, mas pelos discursos fortes e inspiradores. Artistas que representam as minorias usaram o espaço e os holofotes para chamar atenção para direitos iguais a todos. Lindo e emocionante.

Antes do Oscar começar, contudo, Reese Witherspoon chamou a atenção, não pelo vestido, mas por reforçar o apelo para que os entrevistadores perguntassem às mulheres mais do que “o que você está vestindo?”. Pelo Instagram, a atriz compartilhou uma imagem com #AskHerMore, campanha que pede questões maiores do que a marca da roupa.

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“[…] Há tantas indicadas incríveis neste ano! Vamos ouvir suas histórias! Compartilhe! #AskHerMore”

No tapete vermelho, Reese disse à jornalista Robin Roberts que esse é “um movimento para dizer que somos mais do que nossos vestidos. Há 44 indicadas neste ano e estamos felizes de estarmos aqui e falarmos sobre o trabalho que realizamos. É difícil ser uma mulher em Hollywood ou em qualquer indústria”.

Reese Witherspoon não foi a única com discurso feminista na noite de ontem. A atriz Patricia Arquette, que ganhou o Oscar por sua atuação no filme “Boyhood”, subiu ao palco para pedir salários iguais para mulheres e homens.

“Para todas as mulheres que deram à luz a cada pessoa que paga impostos e a cada cidadão desse país, nós lutamos pelos direitos iguais de todos. É nossa hora de termos salários e direitos iguais para todas as mulheres nos Estados Unidos, de uma vez por todas!”

Mais bonito que seu discurso foi ver as mulheres presentes no local aplaudindo e apoiando umas às outras. Meryl Streep e Jennifer Lopez ficaram empolgadíssimas com o discurso de Patricia Arquette.

A cerimônia seguiu morna depois desse momento incrível protagonizado por Patricia Arquette e Meryl Streep. Foi então que John Legend e o rapper Common subiram ao palco para cantar “Glory”, música do filme “Selma”, que concorria somente em duas categorias – “Melhor Canção Original” e “Filme do Ano”. Ao receberem a estatueta pela música, a dupla de cantores deu um discurso que emocionou e levou às lágrimas muitos dos presentes (e até quem estava em casa assistindo).

Common relacionou os diversos protestos por direitos civis às manifestações ocorridas na França e Hong Kong, dizendo:

“O espírito da ponte [onde ocorreu as passeatas a favor dos direitos civis dos negros na cidade de Selma] transcende raça, gênero, religião, orientação sexual e status social. O espírito dessa ponte se conecta à criança do sul de Chicago, que sonha por uma vida melhor, às pessoas que pedem por sua liberdade de expressão na França e às pessoas que protestam pela democracia em Hong Kong”.

John Legend foi mais específico em criticar a situação dos negros nos Estados Unidos, encorajando a população a “continuar marchando”.

“Nina Simone disse uma vez que era obrigação de um artista refletir sobre os tempos em que vivemos. Escrevemos essa música para um filme baseado em eventos que aconteceram há 50 anos, mas dizemos que Selma é agora, porque a luta por justiça é agora.

Sabemos que o direito pelo voto, algo que eles lutaram há 50 anos, está comprometido hoje. Sabemos que, agora, a luta por liberdade e justiça é real. Vivemos no país que mais prende no mundo. Há mais negros sob controle correcional hoje do que havia escravos em 1850. Quando as pessoas marcham com nossa música, queremos dizer que estamos com vocês. Nós vemos vocês, amamos vocês, e continuem marchando”.

Discursos para mulheres e negros já haviam feito o Oscar valer a pena. Mas ainda havia tempo para mais. O prêmio de Melhor Roteiro Adaptado foi para Graham Moore, do filme “O Jogo da Imitação”, que fez um comovente discurso para todos que se sentem desajustados e que já pensaram em tirar a própria vida.

“Eu tentei suicídio quando tinha 16 anos e agora estou aqui. Gostaria que esse fosse o momento daquela criança que sente que não cabe em lugar algum. Você cabe. Continue esquisita. Continue diferente. E quando for a sua vez aqui em cima deste palco, por favor, passe a mensagem adiante”.

Ainda tivemos Juliane Moore, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, pelo filme “Para Sempre Alice”, que em seu discurso ajudou a conscientizar sobre o Alzheimer e a necessidade de acharmos uma cura para a doença.

“[…] Estou tão feliz. Estou animada, na verdade, que nós pudemos jogar alguma luz sobre o mal de Alzheimer. Tantas pessoas com essa doença sentem-se isoladas e marginalizadas, e uma das coisas maravilhosas sobre o cinema, é que ele nos faz sentir vistos e que não estamos sozinhos. E as pessoas com mal de Alzheimer merecem ser vistas para que possamos achar a cura”.

Poderia terminar aí, mas Sean Penn preferiu fazer uma piada de mal gosto no fim da premiação, e levou uma resposta à altura. Ao anunciar o vencedor de Filme do Ano, o ator disse antes de abrir o envelope do vencedor “Quem deu Green card para esse cara?”, referindo-se a Alejandro Gonzáles Iñarritú, que levou o Oscar por “Birdman”. Mas, quem fala o que quer, ouve o que não quer. Ao final de seu discurso, o diretor disse:

“Aos que vivem no México, rezo para que encontremos e construamos um governo que merecemos. Aos que vivem nesse país [EUA], que fazem parte da última geração de imigrantes aqui, rezo para que sejamos tratados com a mesma dignidade e respeito como aqueles que vieram antes e construíram essa incrível nação imigrante”.

Teve ainda um discurso bem político durante a entrega do Oscar de Melhor Documentário. A diretora Laura Poitras, de “CitizenFour”, filme que conta sobre as mensagens secretas recebidas por ela vindas de Edward Snowden, disse:

“Os documentos confidenciais que Edward Snowden revelou não só expõe uma ameaça à nossa privacidade, mas para a nossa própria democracia. Quando as decisões mais importantes, e que afetam todos nós, são feitas em segredo, perdemos nossa habilidade de questionar os poderes em controle. Obrigada a Edward Snowden por sua coragem, e a todos os outros informantes, eu divido isso com Glenn Greenwald e com todos os jornalistas que mostraram a verdade. Obrigada”.

Pois bem, a noite do Oscar valeu a pena ser conferida por tantos discursos lindos, vindos de artistas que tanto admiramos. A falta de diversidade nas indicações pode ter sido compensada com as falas fortes e emocionantes que assistimos.

Para o Oscar do ano que vem, espera-se muito mais, não somente discursos, claro. E, por favor, tragam a Ellen DeGeneres de novo!

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