O Desafio dos 5 filmes (Segunda Parte)

03. março 2015 Cinema 1
O Desafio dos 5 filmes (Segunda Parte)

*Por Fernando Américo

Escolher os 5 filmes preferidos é uma tarefa muito injusta. Artur me desafiou, e ainda “roubou” dois filmes que certamente estariam na minha lista! Então, antes de tudo, uma menção honrosa a (500) Dias Com Ela, que o Artur colocou na lista dele mas que certamente estaria nessa também.

Nem precisaria de muito. Só uma frase do Belle & Sebastian (“Colour my life with the chaos of trouble”) sendo citada, e a cena da Expectativa X Realidade, tão cruelmente verdadeira, e todos os outros motivos que o próprio Artur já listou também.

Também não me apeguei muito às questões técnicas, porque no fim o que conta mesmo na hora de gostar de um filme é como ele te afeta, te move, te diz alguma coisa (ou muitas coisas). Então, aí vão os meus.

5. DONNIE DARKO

Esse clássico do cinema cult é do tipo de filme que não é feito para ser entendido (acredite, muitos já tentaram). Mas é exatamente essa a graça! Teorias sobre viagens no tempo e universos paralelos, sequências e personagens obscuras, referências e simbologias para todos os lados, tudo transforma o que seria um filme convencional de terror ou ficção científica em uma das obras mais complexas e “mind-blowing” do cinema.

"Eu não quero ficar sozinho"
“Eu não quero ficar sozinho”

Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) é um adolescente problemático que certa noite é acordado por um “coelho gigante” chamado Frank, e sai de casa sonâmbulo pouco antes de a turbina de um avião cair sobre seu quarto. Além de ter salvo sua vida, Frank também diz a Donnie que o mundo vai acabar em 28 dias, e fala em viagem no tempo, o que leva Donnie a se aprofundar no assunto. O que se segue é uma trama bastante complexa e as vezes perturbadora (só pensar no garoto da cena final do filme).

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“Por que você  está usando essa fantasia estúpida de humano?”

Resumir a narrativa do filme é quase tão difícil quanto foi encontrar uma cópia dele, 10 anos atrás. Ah, os tempos em que os filmes desconhecidos eram difíceis de se encontrar… E como eu assisti ao filme inúmeras vezes desde então, com a preocupação em entender cada mensagem, decifrar cada código, aos poucos dando lugar ao simples prazer de ser levado por uma viagem ao som de Echo & The Bunnymen e Tears For Fears.

4. MARIA ANTONIETA

Essa cinebiografia não-convencional da última rainha da França coloca a História como pano de fundo, e traz o foco para a personagem: na relação da jovem princesa austríaca (Kirsten Dunst) com o ambiente hostil da corte francesa que ela encontra ao chegar em Versalhes, aos 14 anos de idade; no casamento por muito tempo não consumado com o futuro rei Luís XVI (Jason Schwartzman); no seu escapismo das obrigações da realeza; nas festas e nas excentricidades; nas suas relações amorosas.

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“Maria Antonieta” constrói a personagem como uma estrela pop, vítima de fofocas e boatos, e essa relação fica evidente quando o filme brinca com elementos contemporâneos, como o tênis All Star que aparece no meio dos seus sapatos. A trilha sonora do filme (uma das melhores trilhas de todos os tempos) é quase toda composta por bandas do rock alternativo, como New Order e The Radio Dept., e também do “new romantic”, vertente do pós-punk dos anos 80 que também influenciou o filme visualmente.

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Como acontece em todos os trabalhos de Sofia Coppola, “Maria Antonieta” foi rodado em locações reais, o que traz uma atmosfera mais real ao filme, e aumenta o contraste entre o retrato da época e as referências modernas inseridas nele. E a despreocupação em ser uma biografia certinha e convencional é o que faz do filme a biografia mais legal do cinema.

3. SEGUNDAS INTENÇÕES

Um clássico adolescente do cinema dos anos 90, adaptado do romance francês “Ligações Perigosas” (livro que tem uma adaptação anterior com Michelle Pfeiffer e Glenn Close). Nessa versão, a história é transposta da França do século XVIII para a Nova York contemporânea, e os personagens são todos jovens da alta sociedade nova-iorquina.

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– “Estou impressionada”.  – “Bem, eu estou apaixonado”

Depois de ser trocada pelo namorado pela infantil Cecile (Selma Blair), a falsa moralista Kathryn (Sarah Michelle Gellar) decide se vingar pedindo para que seu meio-irmão Sebastian (Ryan Phillippe) corrompa a inocência da garota. Uma vez que o desafio parece fácil demais para o extenso currículo de conquistas de Sebastian, ele consegue com que Kathryn o envolva em uma aposta maior: seduzir a filha do novo diretor do colégio, Annette (Reese Witherspoon), famosa por ter decidido se manter virgem até o casamento e por conservar outros tantos valores éticos –  coisa com a qual nenhum dos dois irmãos se preocupa.

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“Todo mundo faz, mas ninguém fala sobre isso”

 

O filme tem todos os elementos do bom cinema da geração MTV: romance, uma trama muito bem construída, humor, beijo lésbico (!), e a que talvez seja a trilha sonora mais bacana dos anos 90, com Blur, Fatboy Slim, The Verve, Placebo etc. Olha só a trilha sonora sendo relevante outra vez nas minhas escolhas de filme… Isso sem contar no elenco cheio de estrelas teenagers da época. Desde a adolescência está entre meus favoritos (e entre as “coisas que moldaram meu caráter”, mas não me orgulho disso). Acho difícil sair da lista.

2. FRANCES HA

E minha queda pelo cinema indie e por boas trilhas sonoras me traz até esse filme do Noah Baumbach. Daqueles que eu poderia dizer que é “o filme da minha vida”. E como é bom descobrir que depois de todos os filmes que assistiu na vida, você ainda pode entrar numa sessão de cinema num sábado à tarde com 24 anos de idade e sair apaixonado.

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Frances (Greta Gerwig) divide um apartamento em Nova York com sua melhor amiga. Mas quando Sophie (Mickey Summer) decide se mudar com o namorado, Frances começa uma busca por um lugar para morar que se adapte às suas condições financeiras, já que ela é bailarina e o máximo que consegue é um trabalho como assistente de uma companhia de dança. Todas as situações do filme vêm dessa busca da personagem não só por um apartamento, mas também por uma direção para a vida adulta.

No meio de tantas comédias contemporâneas que falam sobre o amor, “Frances Ha” é um filme sobre amizade, e isso é o mais legal nele. Suas personagens não acham sexo a coisa mais importante do mundo, como todas as personagens de 20 e poucos anos em quase todo filme e seriado de TV hoje. Ela mora em Nova York mas não tem dinheiro, diferente de todo mundo que mora em Manhattan em todos os filmes do mundo ambientados lá.

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“Estou envergonhada. Não uma pessoa de verdade ainda”

 

E existe um toque de adolescência tardia que faz com que eu me identifique com a personagem, com como ela se comporta nas situações embaraçosas pelas quais todo mundo passa ou vai passar durante o inevitável começo da vida adulta – “Eu não sou uma pessoa de verdade ainda”, ela diz em uma cena, uma entre tantas citações geniais que dão graça ao filme. E tem também a referência estética aos filmes da nouvelle vague francesa, e talvez também por isso o filme ser em preto e branco. E como não se apaixonar pela Greta Gerwig, a atriz mais interessante do cinema atual?

1. ENCONTROS E DESENCONTROS

Filmado no Japão em um esquema de cinema independente, com todas as sequências rodadas em locações, como restaurantes, o hotel e nas ruas (algumas até sem permissão), com um roteiro relativamente simples, que diz muita coisa sem necessariamente explorar ação e arcos dramáticos complexos. Sim, Sofia Coppola duas vezes na lista. Não deu para evitar.

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Dois estranhos se conhecem no bar de um hotel em Tóquio. Bob (Bill Murray) é um ator de meia idade que está no Japão para gravar uma propaganda de uísque. Charlotte (Scarlett Johansson) é recém-casada e viajou para acompanhar o marido, que é fotógrafo de bandas de rock. Os dois se sentem perdidos no país por não entender o idioma e por estarem sozinhos, e encontram um no outro algum conforto. O título original do filme, “Lost in Translation”, é bem mais adequado para definir o que o filme está querendo dizer.

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“Eu queria conseguir dormir”

Explicar o motivo de um filme ser seu favorito é quase impossível. Nesse caso, talvez seja a identificação com as personagens, ou com o sentimento de estar perdido, que é materializado por elas estarem em um país diferente, mas que no fundo sempre vem de questões interiores. Talvez seja o estranhamento com que as personagens veem aquela cultura, e vice-versa, e como é verdadeiro que esse estranhamento venha mesmo dos dois lados. Talvez seja pela comprovação de que no cinema é possível dizer muito com muito pouco, e como Sofia Coppola faz isso sempre tão bem. Ou talvez seja “Just Like Honey” do The Jesus and Mary Chain tocando depois da sequência final mais linda de todos os tempos…

Espero que a lista sirva de recomendação. Já pode incluir agora mais cinco filmes na sua lista de coisas para ver. Não vou garantir que vá gostar, mas garanto que você já viu coisa bem pior também…