Jornalistas esportivas lançam iniciativa para combater o assédio e o machismo na profissão

Jornalistas esportivas lançam iniciativa para combater o assédio e o machismo na profissão

Jornalistas esportivas brasileiras decidiram se unir para colocar um fim ao assédio que enfrentam no trabalho, levando ao ar uma campanha cujo nome é direto e claro: #DeixaElaTrabalhar. Ao todo, 52 mulheres que trabalham na mídia esportiva, como apresentadoras, assessoras e produtoras, encabeçam esse movimento, que teve início no final de semana.

Para demonstrar o quanto o futebol e os estádios ainda não são seguros para as mulheres, um vídeo foi compartilhado nas redes sociais, reunindo diversos casos de assédio, inclusive o da repórter Bruna Dealtry. Ela, que trabalha para o canal Esporte Interativo, foi interrompida no meio de uma transmissão ao vivo, por um torcedor que tentou beijá-la à força.

O caso aconteceu apenas dias depois que outra repórter, Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, ter sido chamada de ‘puta’ por mais um torcedor. Infelizmente, como as profissionais do vídeo abaixo dizem, “já aconteceu com todas nós”.

#deixaelatrabalhar

Posted by Deixa Ela Trabalhar on Sunday, 25 March 2018

“A ideia é dar uma resposta aos assédios e às situações recentes da Bruna e da Renata, que é também um pouco a história de todas nós, que já fomos assediadas nas redações, nos estádios e sofremos violência nas redes sociais”, disse Bibiana Bolson, jornalista da ESPN W ao jornal El País, acrescentando que a campanha é para as mulheres que atuam em todos os esportes, não apenas no futebol. “É feita por jornalistas esportivas, mas queremos dar voz para mulheres de todas as esferas. É uma maneira de incentivar as mulheres a relatarem os abusos que sofrem, a buscarem seus espaços”.

A campanha #DeixaElaTrabalhar movimentou a internet, desde que foi lançada no último final de semana, recebendo apoio de diversas pessoas, inclusive de figuras do esporte e do jornalismo esportivo, como o ex-jogador Alex, que já jogou pelo Palmeiras e Cruzeiro, por exemplo.

De certa maneira, a iniciativa lembra uma campanha de 2016, realizada nos Estados Unidos, chamada #MoreThanMean (“mais do que malvado”, em português). Feita pelo canal Not Just Sports, duas jornalistas esportivas, Sarah Spain e Julie DiCaro, sentavam-se de frente com homens que liam para elas os comentários que elas recebiam nas redes sociais, apenas por serem mulheres e trabalharem com esporte. O que começa com ofensas infantis, logo se torna ameaça de morte e estupro. Os homens mal conseguem ler o que é escrito, e um deles diz que não consegue olhar nos olhos de uma delas e ler uma das ofensas que ela recebeu.

E se apenas o ato de ler em voz alta os xingamentos feitos online contra as mulheres foi difícil para eles, imagine o que essas mulheres não leem e escutam diariamente, seja nas redes sociais, seja nos estádios? E tudo isso porque ‘ousaram’ falar de esporte em um ambiente predominantemente masculino.

Quem mais fez coro para a campanha das profissionais da mídia esportiva foram os grandes times de futebol e até a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Pelo Twitter, os clubes compartilharam o vídeo da iniciativa e a hashtag #DeixaElaTrabalhar. E embora seja um bonito gesto de apoio, é preciso que ações sejam tomadas para proteger as mulheres que estão nos estádios para fazer seus trabalhos, assim como as torcedoras, que também enfrentam o assédio nas arquibancadas.

No Dia das Mulheres, os times fazem ações que destacam a força da mulher, reforçando também a mensagem de que os estádios também são lugares para elas. Contudo, no resto do ano, há pouca ou nenhuma mobilização para que os casos de assédio não aconteçam. Caso se comprometessem de verdade, não seria preciso uma campanha pedindo para que as mulheres trabalhem em paz, tampouco cenas de homens fazendo gestos obscenos seriam uma realidade tão frequente.

É preciso fazer mais, mas é ótimo que as próprias mulheres estejam dispostas a brigar por mais respeito e segurança. E, tomara, que elas consigam reverter esse placar logo.