Curta-metragem explora a masculinidade e seu efeito tóxico sobre os próprios homens

28. setembro 2016 Cinema 0
Curta-metragem explora a masculinidade e seu efeito tóxico sobre os próprios homens

Um curta-metragem que se propõe a discutir e a desconstruir a masculinidade vem chamando atenção na internet. Feito pelo cineasta Michael Rohrbaugh, a obra venceu uma competição da MTV americana, cujo tema era privilégio.

Na produção, batizada de “American Male” (“Homem Americano”, em inglês), acompanhamos um estudante universitário em sua luta para se encaixar nas expectativas sociais de como um homem deve ser e se portar, muitas delas narradas por ele durante os seis minutos do curta.

Em determinado ponto, o rapaz em questão troca olhares com outro rapaz, o que dá a entender que ele se sente atraído por homens, mas é obrigado a reprimir seu desejo. Essa repressão alimenta sua agressividade e ansiedade, que é descontada na sua relação com os amigos, as mulheres e até na forma como ele lida com os calouros que passam por uma espécie de “ritual” para entrar na mesma fraternidade.

O objetivo de Rohrbaugh, que escreveu e dirigiu a obra, é fazer com que as pessoas, especialmente os homens, possam repensar os papéis de gênero.

“Eu gostaria que os espectadores tivessem um novo entendimento do que é estar no ‘armário'”, ele contou ao Huffington Post. “Eu também espero que eles reflitam sobre suas próprias vidas e pensem sobre as mentiras que talvez estejam travando-os. Muitas das normas sociais que nos foram ensinadas estão enraizadas na discriminação, e muitos jovens são ensinados a sentirem vergonha de quem são, aprendem a acreditar que há ‘algo errado com eles’, que eles ‘não são normais’, ou que ‘não são quem deveriam ser’. Essas mentiras são muito destrutivas. É por isso que elas devem ser expostas e desmistificadas”.

A masculinidade, como é construída, é nociva, tanto para as mulheres quanto para os próprios homens. Desde muito pequenos, os homens aprendem a seguir um rígido sistema de regras, que exige deles a agressividade, a repressão de sentimentos, a necessidade de se “provar homem” o tempo todo, e outras atitudes. Qualquer “descuido” faz com que sua masculinidade seja colocada em dúvida, diminuída, e fará com que ele seja visto como gay. Como se ser homossexual tornasse alguém menos homem.

Para se ter uma ideia, o suicídio é a principal causa de morte de homens entre 20 e 34 anos, na Inglaterra e no País de Gales. Isso porque desde homens têm uma resistência maior a aceitar ajuda ou a externar o que estão sentindo, o que faz com que adotem comportamentos autodestrutivos e de risco, como o abuso do álcool, por exemplo.

É muito importante que todos nós possamos repensar a masculinidade, como propõe “American Male”, para que possamos criar adultos e homens mais saudáveis e plenos.

Confira a tradução:

“Beba cerveja, não vinho. Coma bife, mas não frango. Mas não beba cerveja light. E nem coma tofu. Não dá para ser mais gay do que tofu. Fique longe das artes, a menos que você viva no litoral. Isso significa nada de teatro, dança, pintura, poesia ou prosa. Ler bastante também é arriscado, já que faz com que você pareça mole e nerd. O que posso dizer? É melhor prevenir do que remediar.

As mulheres gesticulam mais quando falam, eles chamam isso de ‘jeito de menina’. Quando eu era pequeno, eu costumava gesticular bastante, então aprendi a manter minhas mãos nos bolsos. As mulheres cruzam as pernas quando sentam, os homens as mantêm abertas. As mulheres seguram os livros contra o peito, os homens os carregam de lado. As mulheres ouvem música pop, os homens ouvem rock. As mulheres cantam as músicas do rádio, os homens só acenam com a cabeça. 

As mulheres usam cores chamativas, como rosa, amarelo e roxo. Homens usam cores mais escuras, tipo azul, marrom, verde, cinza e preto. As mulheres tocam instrumentos de sopro e corda, como violino e flauta. Os homens tocam instrumentos de metal ou percussão. As mulheres entendem de moda, cores e design. Homens são melhores em matemática, mecânica e reparos domésticos.

As mulheres mexem seus quadris quando andam, os homens mexem os ombros. As mulheres usam pontos de exclamação, homens usam pontos finais. As mulheres cantam, dançam e se apresentam em palcos. Homens fazem esportes, assistem esportes e falam sobre isso. As mulheres fazem diários, homens escrevem artigos. As mulheres cozinham, homens fazem churrasco.

As mulheres pensam duas vezes, homens seguem seus instintos. Tenha coragem ou vá para casa. Para sobreviver, um camaleão muda sua cor para se misturar ao que está à sua volta. Quando eu era bem novo, eu comecei a observar atenciosamente as pessoas à minha volta: a forma como elas falavam, como andavam, o que elas diziam, onde chegaram assim.

Hoje, eu não sou mais uma pessoa, mas uma apanhado de normas sociais. Viado! Não sou uma pessoa, mas um caminho de menor resistência”.