Crítica: “WiFi Ralph” é uma evolução para “Detona Ralph”

03. janeiro 2019 Cinema 0
Crítica: “WiFi Ralph” é uma evolução para “Detona Ralph”

*Texto escrito por Ana Fernanda

“WiFi Ralph” estreou e não podíamos deixar de matar a saudade daquela dupla que a gente tanto ama: Vanellope (Sarah Silverman) e Ralph (John C. Reilly). Nessa nova aventura, o volante da Corrida Doce, o jogo de Vanellope, é quebrado e só existe um único exemplar à venda no site do E-Bay. Como o dono do Fliperama Litwak havia instalado a internet no local há pouco tempo, os dois conseguem migrar para lá, onde recorrem ao BuzzTube para para ganhar o dinheiro necessário para o volante.

O feminismo no filme — Em meio à aventura, Vanellope descobre um outro jogo, chamado Corrida do Caos, muito mais ligado ao estereótipo masculino, se comparado ao Corrida Doce. Ralph não se dá bem no jogo, enquanto a pequena arrasa no volante, e acaba não aceitando a migração de Vanellope, claramente demonstrando, muito mais do que um instinto de proteção pela amiga, que é um machista e que não aceita perder para uma mulher.

Muitas mulheres, principalmente aquelas que se aventuram em áreas que são historicamente do estereótipo masculino (por exemplo tecnologia, carros, futebol e até mesmo cultura pop, principalmente os heróis DC e Marvel, e os jogos de RPG) vão se identificar em vários pontos com a Vanellope, a qual descobre que sempre gostou dessa área, mas que não pode exercer com liberdade seu gosto. Ela tem várias dúvidas em relação a isso, já que aprendeu durante a vida inteira que “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”, sendo esse um preconceitos não dela, mas da sociedade. Vanellope até tenta outras áreas, ligadas ao estereótipo feminino, mas não gosta. O fato de encontrar outras mulheres que estão na área (no caso, representadas pela Shank, dublada originalmente pela Gal Gadot) é muito significativo e acolhedor.

Aliás, o filme conserta vários aspectos de “Detona Ralph”. E dois deles, com certeza, são a sororidade (união entre as mulheres) e a personalidade da Vanellope. Esta, que antes parecia só uma menina birrenta, que brigava bastante com as outras meninas da Corrida Doce, mostra-se mais madura, desenvolvida e até cria um laço (mesmo que forçado) bem íntimo com Shank.

Outras minorias também devem ser ouvidas — “WiFi Ralph” é bom para as mulheres brancas, já que as negras são colocadas em segundo plano. Para não dizer que elas não existem, até temos a Tiana (“A Princesa e o Sapo”) e Taraji P. Hanson (que interpreta a Yess), ambas negras. Fora isso, as negras aparecem, na maioria das vezes, como simples usuárias da internet.

Além disso, o filme falha na representação de mulheres com deficiência, o que é outro ponto negativo. Não seria forçado dizer que a Vanellope tem deficiência, já que ela tem tilt, que traduzido para o mundo humano, seria como se fosse um tique. Esse aspecto, contudo é  muito mal explorado, resultando em momentos muito rasos e até confusos.

Além disso, a maioria das piadas se referem ao fato do Ralph ser gordo e grande, fora dos padrões de beleza tradicionais. Na verdade, uma das pautas das pessoas que são ativistas anti-gordofobia é a questão da acessibilidade. É muito raro, por exemplo, encontrar uma roupa que sirva em uma pessoa gorda; uma cadeira que esteja preparada para receber pessoas gordas; etc. E o filme fala dessas questões, mas de uma maneira muito cômica.

O lado bom e ruim da internet — É legal que o filme mostre o lado bom e o ruim da internet, realizando tudo isso de uma maneira bem complexa e dinâmica, de modo que pessoas olhem e pensem:  “Essa é a sociedade em que a gente vive”.

O filme parece desmistificar vários pensamentos que já estavam fixados nos fãs, não só de “Detona Ralph”, mas da própria Disney. São coisas que nenhum fã percebeu antes, clichês já colocados na cabeça dos fãs, em uma espécie de “pronto e acabou”, e a animação desmistifica esses clichês, dando uma resposta e mostrando que as coisas não são bem assim, e que muitas concepções dos fãs estavam equivocadas.

É raro que uma sequência da Disney seja melhor do que a primeira versão. Mas, como já dito antes, “WiFi Ralph” conserta os erros de “Detona Ralph”, que tinha um roteiro muito mais simples e confuso. O primeiro era uma carta de amor aos vídeo-games, o que não é de todo o ruim, mas a mensagem se perdeu no roteiro, o que dificultou mostrar e encantar o público que gosta de vídeo-games. Já a continuação não é submissa a nada, trazendo críticas e elogios ao universo em que se ambienta.

A amizade entre Vanellope e Ralph e entre Shank e Vanellope (que é muito forçada, apressada e até abusiva), além da dublagem, são dois pontos negativos. Eu recomendaria assistir com legenda se fosse fácil assistir a uma animação legendada no Brasil. Tirando esses pequenos defeitos, há poucas são as coisas ruins em “WiFi Ralph”.