Crítica: “Três Anúncios Para Um Crime”, um filme sobre a raiva

18. Fevereiro 2018 Cinema 1
Crítica: “Três Anúncios Para Um Crime”, um filme sobre a raiva

[A SEGUIR, SPOILERS PARA “TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME”]

Mais do que ser apenas um filme sobre a busca de uma mulher por justiça, “Três Anúncios Para Um Crime” é sobre a raiva e seus efeitos quando ela é acumulada.

No longa escrito e dirigido por Martin McDonagh (“Sete Psicopatas e um Shih Tzu”), somos levados ao interior do Missouri, para a pequena Ebbing, que dá nome à produção. É lá onde vive Mildred Hayes (Francesca McDormand), uma mulher que está cansada de esperar para que as autoridades locais façam algo a respeito da morte de sua filha Angela (Kathryn Newton), a qual foi estuprada e assassinada por um homem, e ainda teve seu corpo carbonizado.

Os policiais da cidade falham ao tentar descobrir quem é o responsável pelo crime, deixando a situação de lado. Isso enfurece Mildred, que decide trazer mais visibilidade ao caso. Para tal, ela aluga três outdoors em uma rodovia onde só se anda “quem estiver perdido ou for muito idiota”. No local, os três anúncios são erguidos em um tom de vermelho bem forte e letras pretas: “Estuprada enquanto morria. E ainda nenhuma prisão? Por que, xerife Willoughby?”. 

São fortes provocações, direcionadas ao xerife da cidade, Bill Willoughby (Woody Harrelson), que logo ao tomar conhecimento do trio de outdoors, vai ao encontro de Mildred, exigindo que ela retire os anúncios. A mulher, contudo, não teme a ninguém, e se mantém firme no propósito de mobilizar a polícia, até que alguém seja preso.

A raiva de Mildred é justificada e palpável, mas acima de tudo, faz criar empatia. Ferida como qualquer mãe (ou ser humano) ficaria com a morte de sua filha, ela quer apenas justiça. Mas quando próprio sistema falha, é impossível esquecer e seguir em frente. Em um caso como esse, qualquer um poderia adoecer, enfraquecer e até tirar sua própria vida. Mas isso não é o que acontece com a protagonista. Pelo contrário, é a raiva que a faz levantar todas as manhãs e brigar com quem quer que seja.

E essa briga é travada com toda a cidade de Ebbing, que fica do lado de Willoughby, uma vez que ele está com um câncer em estado terminal, e não ‘deveria’ ser cobrado de nada. No entanto, o fato não amolece Mildred, a qual quer ver o xerife prendendo alguém pela morte de Angela. Mas por conta da dificuldade de achar provas e testemunhas, é difícil para que o delegado consiga encontrar suspeitos, e isso faz com que, de certa maneira, ele se sinta culpado por não conseguir colocar um fim à dor daquela mulher.

Também está contra ela o policial Dixon (Sam Rockwell), que vê Willoughby com uma adoração enorme, quase como um pai. De alguma maneira, ele funciona mesmo como uma figura paterna ao personagem, uma vez que além dele, a única pessoa a quem Dixon dá ouvidos é sua mãe, a qual não é uma das melhores pessoas do mundo.

É possível assumir que, de certa parte, é a partir do comportamento e discursos erráticos da mãe que o personagem adquiriu uma postura violenta. Não é uma forma de desculpar suas atitudes, afinal ele é abertamente racista, mas é possível perceber que ele é fruto do seu meio. E o arco do personagem é complicado, também por isso: agressivo, o homem poderia ser tachado como vilão, mas encontra uma forma de redenção ao final.

É como se o diretor quisesse que o público, por maior que seja a aversão a Dixon no começo da fita, o perdoe no fim, graças à decisão de perseguir um suspeito de ter matado a filha de Mildred, após ler uma carta deixada pelo xerife Willoughby, o qual tirou sua própria vida. Mas será que deveríamos mesmo nos conectar com o personagem? E essa era mesmo a intenção do filme, temos um problema aí, especialmente pela história se passar no Missouri, Estado da cidade de Ferguson, onde Michael Brown, um homem negro, foi morto por um policial branco

Nesse sentido, isso pode decepcionar parte da pessoas que assistirem “Três Anúncios Para Um Crime”: ao final, Mildred e Dixon, embora não sejam amigos, partem juntos para matar um homem juntos, pois a raiva que sentem é o que une os dois. 

Francesca McDormand está incrível como a mãe furiosa e ferida pela morte da filha. A personagem nem sempre é uma mulher adorável, mas essa nunca foi quem ela é: em um flashback, podemos perceber que a sua dureza vem de tempos, talvez resultado dos constantes abusos do ex-marido. Sam Rockwell e Woody Harrelson também estão ótimos como a dupla de policiais, mas o primeiro consegue brilhar ainda mais com sua interpretação de um psicótico e violento.

“Três Anúncios Para Um Crime” concorre em sete categorias no Oscar, incluindo Melhor Atriz, Ator Coadjuvante e Melhor Filme.