Crítica: “Trama Fantasma”

27. Fevereiro 2018 Cinema 0
Crítica: “Trama Fantasma”

Em época de premiação, é comum lembrarmos das grandes injustiças do Oscar (e são muitas!). Mas, ao longo da história recente da premiação, algumas pequenas injustiças também aconteceram, como quando Paul Thomas Anderson e sua obra prima “Sangue Negro” não levaram os prêmios de direção e filme em 2007. O vencedor do ano foi o bem realizado “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen. Prêmio merecido? Talvez. Mas Paul Thomas Anderson, diretor de “Trama Fantasma”, filme indicado a 6 estatuetas esse ano, merecia sua chance já naquela época.

2018 certamente também não será o ano de Paul Thomas Anderson no Oscar. Embora “Trama Fantasma” seja um grande filme, sua indicação em si já é um grande feito, e até que surpreendente – uma vez que o filme ficou de fora de algumas das premiações da temporada.

Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps em cena de “Trama Fantasma”

Em seu novo trabalho, o diretor retoma a parceria de “Sangue Negro” com Daniel Day-Lewis, que mais uma vez entrega uma performance memorável. No filme, Day-Lewis interpreta o estilista Reynolds Woodcock, dono de uma das confecções mais badaladas da alta sociedade da Londres dos anos 1950. Rodeado por mulheres no trabalho e na vida pessoal, inclusive a irmã, Cyril (Lesley Manville, ótima e fazendo jus a sua indicação à Atriz Coadjuvante), Woodcock sofre um estranho complexo de Édipo, ao mesmo tempo em que parece distante e frio em suas relações pessoais.

É quando começa a se relacionar com a jovem Alma (Vicky Krieps) que sua vida se transforma, mergulhando em um jogo curioso de afeto e poder. Se num primeiro momento Alma é sua protegida, uma jovem submissa que Woodcock coloca em seu mundo, por outro lado Alma acredita que seu amor pelo estilista pode ser o suficiente para controlar a situação, na medida em que luta para ter Woodcock ao seu lado.

A trama se desenrola para caminhos não convencionais, o que é uma marca da cinematografia de Paul Thomas Anderson. Outros traços do estilo do diretor também estão presentes no filme, como o extremo cuidado narrativo, roteiro e personagens cheios de camadas, uma escolha precisa de recursos narrativos, arte e fotografia impecáveis. Destaque ainda para a trilha sonora de Jonny Greenwood, que foi indicado ao Oscar na categoria. “Trama Fantasma” é o filme mais bem cuidado entre os indicados ao Oscar desse ano, no que diz respeito ao rigor na direção. Empatando apenas com “Dunkirk”, de Christopher Nolan, nesse sentido.

Daniel Day-Lewis e o diretor Paul Thomas Anderson no set de “Trama Fantasma”

As chances de vitória são poucas, os concorrentes desse ano são fortes e muitos deles criaram mais buzz na temporada. O próprio Daniel Day-Lewis, querido pela Academia, tem menos chances de levar a estatueta para casa dessa vez. O ator é o único na História do Oscar que já ganhou três prêmios de Melhor Ator – por “Meu Pé Esquerdo”, “Sangue Negro” e “Lincoln” – e foi indicado outras duas vezes. Já Paul Thomas Anderson, além da indicação a melhor diretor por “Sangue Negro”, já figurou a lista de indicados a Melhor Roteiro em quatro ocasiões: além do próprio “Sangue Negro”, também por “Boogie Nights”, “Magnólia” e “Vício Inerente”.

As indicações desse ano são uma forma de a Academia continuar com os olhos no trabalho de Paul Thomas Anderson. Para um cineasta tão completo e emblemático, o prêmio será somente uma consequência. No entanto, quase certo de que não esse ano. Mas, independente de prêmios e indicações, “Trama Fantasma” é um belíssimo filme com uma história muito bem contada, e merece ser visto.