Crítica: “Sierra Burgess É Uma Loser” é melhor quando deixa de lado o romance

11. setembro 2018 Cinema 0
Crítica: “Sierra Burgess É Uma Loser” é melhor quando deixa de lado o romance

A Netflix está investindo em comédias românticas adolescentes e a sua mais nova empreitada no gênero é “Sierra Burgess É Uma Loser”. O filme chega à plataforma de streaming pouco tempo depois do sucesso “Para Todos Os Garotos Que Já Amei” e é protagonizado por Shannon Purser, a Barb de “Stranger Things”, que virou um hit na internet, mesmo com pouco tempo de tela na atração.

Sierra Burgess (Purser) é uma menina muito inteligente, com uma ótima habilidade para escrever poemas e muito dona de si. Apesar de ser ridicularizada na escola onde estuda por não se adequar aos padrões de beleza, ela é autoconfiante e sabe do seu potencial. Quem não a suporta é Veronica (Kristine Froseth), a típica garota popular da escola, que prega uma peça em Sierra, dando o número dela a um garoto de outro colégio, Jamey (Noah Centineo), o qual começa a enviar mensagens sem desconfiar que a remetente não é Veronica. 

Ao descobrir que Jamey pensa que está conversando com a rival, Sierra decide manter a farsa e, para isso, faz um acordo com Veronica: ela dá aulas para que a menina pareça mais inteligente, enquanto a segunda ‘empresta sua aparência’ nos encontros e mensagens com o menino pelo qual Sierra está apaixonada. É um plano que pode dar muito errado, como é de se prever. E dá. Mas o plano não é a única coisa que não funciona no filme: o roteiro também não ajuda.

O trailer de “Sierra Burgess Is a Loser” saiu pouco tempo depois da prévia do seriado “Insatiable” ser divulgada pela Netflix. Pelas poucas imagens, as esperanças eram de que o primeiro seria uma representação positiva de pessoas gordas, diferente do segundo, que traz uma menina sendo considerada bonita depois de perder peso e querer se vingar de todos que um dia fizeram maldades contra ela. Acontece é que ambas as produções falham com pessoas gordas.

No que diz respeito a “Sierra Burgess”, a obra dirigida por Ian Samuels e roteirizada por Lindsey Beer acerta ao criar uma amizade entre a protagonista e Veronica, as quais vão se ajudando mutuamente ao longo do filme. Sierra dá todo o apoio para a ex-inimiga quando o namorado a abandona, enquanto Veronica reafirma os talentos da nova amiga. Por um minuto, é possível imaginar que o romance com Jamey pode nem vir a acontecer, tamanha é a beleza da amizade entre as duas meninas, que percebem que têm mais comum do que imaginavam. Esse é o maior trunfo do filme. Porém, esse talvez também seja o único.

Sierra engana Jamey o tempo todo com essa tática de ser outra pessoa, também conhecida como catfishing. E se isso não fosse o suficiente, ela ainda o beija, em um movimento que só funcionaria mesmo em um filme, sem o consentimento do rapaz. Em tempos em que muito se discute o que consentimento, o longa-metragem dá passos para trás, naturalizando uma atitude que pode parecer até inocente para muitos, mas que esconde uma problemática muito grande por trás. Afinal de contas, ninguém gostaria de beijar alguém que não quisesse. Jamey foi impedido de consentir com aquele beijo. E porque ele é homem ou porque Sierra queria muito aquilo, não tornam o comportamento dela e de Veronica aceitável.

Não só isso, Sierra não é lá uma grande amiga de Dan (RJ Cycler), pois nunca conversa com o menino sobre ele, o que ele quer e seus sonhos ou qualquer coisa que não seja sobre ela. O garoto está sempre ali para ela, mas o contrário nunca acontece. E vale dizer que o roteiro também não dá muita profundidade a Dan, que só aparece mesmo para ouvir e aconselhar sua melhor amiga.

Indo adiante, Sierra se torna exatamente aquilo que mais odiava: uma menina malvada. Ela apronta com Veronica depois de vê-la beijar Jamey (é o risco que se corre ao tentar ser outra pessoa), sendo que foi ele quem beijou a garota. Sierra nem pergunta o que pode ter acontecido, só decide se vingar. E se vinga da pior maneira possível, sem nem ao menos pedir desculpa pelo que aconteceu depois de descobrir a verdade. Ela faz uma música e o filme espera que nós entendamos isso como um pedido de desculpas.

E se tudo isso não fosse problemático, a obra possui ‘piadas’ transfóbicas e lesbofóbicas, além de fazer a personagem central fingir que tem uma deficiência apenas para chamar a atenção de Jamey. Tudo isso é empacotado em um filme que, a princípio, deveria transmitir uma boa mensagem.

Quando assisti a “Sierra Burgess É Uma Loser” pela primeira vez, fiquei até emocionado. Ao rever, fui percebendo os problemas, e quando li mais a respeito deles, fiquei impressionado como não percebi essas coisas logo de cara. Essas atitudes e imagens são tão naturalizadas, que não nos damos conta do quão perturbadoras elas são na vida real.

O filme tinha tudo para ser bom, afinal, o trio principal de atores conquista o público, e a história de amizade criada entre as duas meninas chega a ser inspiradora. Contudo, nem isso é capaz de salvar a produção das diversas falhas que ela possui. Essa foi mais uma oportunidade perdida da Netflix em fazer uma boa comédia romântica para adolescentes.