Crítica: “Sequestro Relâmpago” usa a cidade de São Paulo como um personagem para contar história de suspense

25. outubro 2018 Cinema 0
Crítica: “Sequestro Relâmpago” usa a cidade de São Paulo como um personagem para contar história de suspense

Logo no começo da exibição de “Sequestro Relâmpago”, letreiros nos informam que a história é baseada em fatos. E não é difícil acreditar nisso, pois o terror pelo qual passa a protagonista Isabel pode realmente acontecer com qualquer pessoa em São Paulo ou em outra grande metrópole. No filme dirigido por Tata Amaral (diretora do filme e série “Antônia”), Marina Ruy Barbosa vive essa garota que sai para uma noite de drinks com os amigos, mas acaba sendo abordada por dois assaltantes após sair do bar. A princípio, os bandidos Japonês e Matheus (vividos por Daniel Rocha e Sidney Santiago) só querem levar Isabel até um caixa eletrônico para sacar todo seu dinheiro, mas como já passa das dez da noite, eles não conseguem fazer isso. É aí que eles decidem ficar rodando de carro com a garota até pela manhã quando o banco abrir.

A partir do momento em que os dois personagens decidem ficar dirigindo pela cidade, pontos conhecidos dos moradores de São Paulo aparecem na telona: Vila Madalena, Largo da Batata, Marginal Pinheiros, Ponte Estaiada, Cracolândia, etc. A cidade é um personagem e uma característica importante na trama de Tata Amaral desde a primeira cena, quando vemos Isabel em um congestionamento, trocando de roupa dentro do carro, enquanto combina sair do trabalho e ir direto para o rolê com as amigas. Não é à toa que a diretora decide usar várias tomadas aéreas da cidade, seja nesse início, mostrando a cidade congestionada, ou no decorrer da noite, durante o sequestro. A cidade é parte importante de “Sequestro Relâmpago” e até a diversidade sexual tão presente em São Paulo é mostrada pela diretora em diversos momentos – seja pela ênfase que a câmera dá em um grupo de drags queens saindo do trem logo no início do filme, através do amigo gay de Isabel, ou pela personagem travesti da periferia interpretada por Linn da Quebrada.

Outro ponto de grande representatividade é a protagonista forte interpretada por Marina Ruy Barbosa. Isabel em momento algum mostra fraqueza perante a situação que está passando, o que seria o mais condizente com ‘mocinhas’ de filmes de suspense clássico. Nenhum homem, em momento algum da história, vem para salvar a garota. Sem ter como se como defender fisicamente na maior parte do tempo, e por estar com uma arma apontada para si, Isabel usa da sua inteligência e manipulação para tentar escapar de Japonês e Matheus. Aliás, os dois bandidos tem uma boa construção de personagens: de um lado temos o garoto que aparentemente é um bandido de nascença e do outro um cara, pai de família e evangélico, que apenas está fazendo isso pelo desespero do momento. Mas, ao decorrer da história, vemos que os dois são cheio de camadas e as aparências podem enganar.

Apesar da boa representatividade feminina e LGBT e da acertada construção de personagens, “Sequestro Relâmpago” peca ao tentar fazer algumas críticas sociais e de desigualdade. Ver a personagem principal tentar convencer os dois bandidos que “somos todos iguais” e que ela é tão pobre quanto eles é uma das coisas mais patéticas. A tentativa de igualá-la a eles apenas por conhecer rap, que fala de desigualdade social, ou saber jogar sinuca é bem fraca.

Filmes de suspense brasileiro são raros e sempre bem-vindos, fazer um filme de gênero com características tão nacionais e usando uma das principais cidades do país como grande cenário é maravilhoso. Apesar de todo o esforço, “Sequestro Relâmpago”, não consegue manter a tensão o filme inteiro, algumas situações são inverossímeis, e isso é até entendível, já que o roteiro precisava criar algumas situações para que o trio ficasse junto da noite até a manhã.

De qualquer forma, Tata Amaral nos entrega uma história que é interessante de ser assistida, tem seus pontos altos e baixos, mas usa bem seus protagonistas a cidade de São Paulo e sua diversidade a favor de uma narrativa que pode amedrontar a todo o público. Que venham mais iniciativas de filmes assim!

O Prosa Livre assistiu “Sequestro Relâmpago” a convite da Tangerina Entretenimento e da Manjericão Filmes. O filme está sendo exibido na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estreará nos cinemas nacionais em 22 de novembro.