Crítica: “Pantera Negra” é o filme de super-herói que o mundo precisa ver

18. Fevereiro 2018 Cinema 0
Crítica: “Pantera Negra” é o filme de super-herói que o mundo precisa ver

Na última quinta-feira (15), chegou aos cinemas “Pantera Negra”, nova produção da Marvel, e o primeiro protagonizado por um super-herói negro. Os filmes do gênero tornaram-se imensamente populares na última década, mas falharam em apresentar personagens que não fossem apenas homens brancos. Depois de uma mulher ter seu próprio longa (“Mulher-Maravilha”), é finalmente a hora de um homem negro ter um filme para chamar de seu.

E “Pantera Negra” vai ainda mais longe, apresentando um elenco majoritariamente negro e uma narrativa inteligente, que ao mesmo tempo em que entretém, também faz comentários inteligentes acerca da cultura africana. Raramente, vemos filmes com personagens centrais negros fora do contexto de escravidão ou biografias, tampouco vemos histórias sobre a África contadas sem um olhar colonizador. Com a obra, o diretor Ryan Coogler confronta antigas e ultrapassadas concepções sobre ambos os tópicos, além de fazer um filme que conversa com o momento atual em que vivemos.

“Pantera Negra” segue o retorno de T’Challa (Chadwick Boseman) a Wakanda, país escondido no meio do continente africano, para assumir o trono depois da morte de seu pai, o rei T’Chaka (John Kani). Essa é uma missão difícil para ele, que se pega questionando se deveria abrir com o mundo todo o conhecimento e tecnologia de sua terra natal com o mundo, ao mesmo tempo em que estrangeiros tentam roubar o Vibranium, metal raro e que só pode ser encontrado no território.

Há muito o que se dizer sobre “Pantera Negra”. A começar pela construção da fictícia Wakanda, cuja nação corre o perigo de ser atacada e saqueada por homens que querem levar de lá o metal, o qual permitiu que ela se desenvolvesse tecnologicamente, estando à frente do restante do mundo. Dá para perceber a força disso? No meio da África, um continente frequentemente associado à pobreza e doenças, um país é referência em para os demais países.

E indo além, no filme, finalmente temos um novo cenário, diferente das grandes cidades americanas e europeias, que sempre servem de pano de fundo para as produções cinematográficas. 

E é justamente por sua riqueza e poder, que vem a maior preocupação de T’Challa: é melhor manter esse conhecimento para si, a fim de preservar Wakanda e sua população, ou abrir-se para o mundo e romper com um estilo de vida tão característico e sofrer possíveis ataques externos?

Se T’Challa hesita, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) não quer apenas que o planeta conheça Wakanda, mas que se todos se curvem a ela. Ele é um vilão com motivações reais, que não se encaixou em mundo dominado por homens brancos, mas que também se sente traído pelo próprio povo. O personagem foi muito bem escrito, talvez sendo o melhor de todo o Universo Cinematográfico da Marvel. E o ator que dá vida a ele impressiona com seu trabalho (nota interessante: Michael B. Jordan revelou recentemente que se inspirou no brasileiro “Cidade de Deus” para compor seu personagem).

As mulheres do filme também chamam – e muito – a atenção. É importante falar sobre as Dora Milaje, a guarda que serve a família real, a qual é toda composta por um time feminino. Inspiradas nas guerreiras Ahosi, um exército somente de mulheres africanas, as Dora Milaje trazem mulheres negras de diferentes cores e poderosas, lideradas por Okoye (Danai Gurira). Nakia (Lupita Nyong’o) é ex-namorada de T’Challa, mas nem por isso é mais uma donzela em perigo. Pelo contrário, ela não espera para ser salva e também luta e tem suas motivações pessoais. E como esquecer de Shuri (Letitia Wright)? Princesa de Wakanda, ela é cientista e é também a mulher mais inteligente da Marvel, responsável pela tecnologia de seu país.

Em termos de estética e narrativa, “Pantera Negra” oferece muito mais do que qualquer outro filme de super-herói. E isso se deve muito à direção de Ryan Coogler, que soube aproveitar as nuances da história e do personagem que tinha em mãos, para criar um material novo, com personagens negros múltiplos e sem recair em estereótipos.

Sinto que estamos finalmente adentrando em uma nova era de produções de heróis. Uma em que mulheres, negros (e com esperança, LGBTs e pessoas com deficiência) têm, enfim, espaço.

“Pantera Negra” é atual e um que merece ser visto e aplaudido. Quem sabe o veremos na corrida pelo Oscar no ano que vem? Vamos torcer para isso. Até lá, corra para o cinema e vá assistir ao Rei T’Challa!