Crítica: “Os Crimes de Grindelwald” é confuso, cansativo e, por vezes, sem magia

25. novembro 2018 Cinema 0
Crítica: “Os Crimes de Grindelwald” é confuso, cansativo e, por vezes, sem magia

Não há dúvidas de que a saga do bruxo “Harry Potter” se tornou uma das franquias cinematográficas mais lucrativas de todos os tempos. Logo, revivê-la em uma época em que reboots, remakes e spin-offs têm acontecido a rodo, era uma ideia acertada por parte da Warner Bros. E, desde 2016, o mundo mágico da bruxaria voltou aos cinemas com “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, cujo roteiro é da própria J.K. Rowling, autora dos livros que originaram os filmes, e que já mandou avisar que serão 5 longa-metragens, os quais contam uma história de décadas antes de Harry, Rony e Hermione estudarem na famosa escola de Hogwarts. 

E em novembro deste ano, “Os Crimes de Grindelwald”, segundo capítulo da nova franquia, chegou aos cinemas grandioso e cheio de efeitos visuais – mas que pouco faz para acrescentar elementos realmente novos ao público. Em pouco mais de duas horas de fita, o filme se perde em cenas desnecessárias e apresenta o maior número possível de informações, sem se importar se quem está sentado assistindo dará conta de assimilar e guardar todas elas.

A sequência começa bem, com uma tentativa de transferir Grindelwald (Johnny Depp) da prisão em Nova York para outra mais segura. O plano dá errado e o bruxo consegue fugir, em uma cena de prender o fôlego e com efeitos muito bem trabalhados. Porém, o vilão é muito pouco utilizado e mostra a que veio perto do fim, ao fazer um discurso sedutor em que incita uma guerra entre bruxos e trouxas (pessoas que não nasceram bruxos).

De certa maneira, é possível ver similaridades entre a figura de Grindelwald e os tempos atuais, com o crescimento do fascismo em países como o Brasil, Estados Unidos e em nações europeias. O personagem diz e aparece pouco, mas surge em determinado momento com um discurso supremacista em que não trata trouxas como uma raça inferior, mas como os ‘outros’ – uma retórica perigosa, ainda que muitos não a reconheçam como tal. Aqui, Rowling mostra o quão ameaçada a democracia está quando não nos manifestamos e combatemos discursos e ações baseadas no ódio.

Eddie Redmayne está muito bem na pele do simpático e tímido magizoologista Newt Scamander, que se vê obrigado a escolher um lado nesse tenebroso período. Jude Law também está ótimo como o vaidoso Dumbledore: mesmo com pouco tempo de tela, o ator britânico se destaca e enche a tela. Katherine Waterston, se sai muito bem, mas sua personagem, a auror Tina, não tem o mesmo destaque de Newt, apesar do ótimo entrosamento entre os dois bruxos.

Zoe Kravitz faz uma segura Leta Lestrange, marcada por uma dolorosa tragédia, cujo peso a acompanha durante toda a vida. Alison Sudol e Dan Fogler, que interpretam o casal Queenie e Jacob, estão ali apenas para fazer rir, e suas cenas não acrescentam em nada para a trama. Ezra Miller e Claudia Kim, que vivem Credence e Nagini, respectivamente, pouco falam e pouco aparecem e pouco acrescentam à história, apesar da busca incessante de Grindelwald, Newt e Tina por Credence. Por fim, Johnny Depp, para mim, continua não trazendo nada de novo, repetindo-se no papel de um ‘esquisitão’ e cuja escalação, diga-se de passagem, não deveria ter sido cogitada para a franquia de “Animais Fantásticos”.

Como é possível perceber, “Crimes de Grindelwald” possui muitos personagens (e há outros não mencionados), o que torna difícil o desenvolvimento dos personagens (como é o caso de Queenie, Jacob, Nagini e Credence) e de acompanhar tantas narrativas, as quais nem sempre se encontram. Ou seja, é tanta informação e coisa rolando, que o roteiro não dá conta de apresentar e contar direito. O excesso acabou prejudicando a obra, que é incapaz de dizer e realizar muita coisa, pois a sensação é que, ao final, pouca coisa evoluiu e ficamos parados no mesmo lugar.

Outro ponto negativo foi a falta de exploração na relação entre Dumbledore e Grindelwald. J.K. Rowling já disse, há mais de 10 anos, que Dumbledore havia namorado Grindelwald no passado, o que gerou uma grande expectativa para ver esse relacionamento das telonas. Infelizmente, a produção optou por seguir um caminho conservador e evitou mostrar um envolvimento maior entre os dois bruxos, o que acabou ficando para o próximo filme (se é que isso vai acontecer). Mais uma vez, a saga Harry Potter falha na representação LGBT.

O ponto positivo fica mesmo com o design de produção, efeitos visuais e figurinos, os quais estão impecáveis. Porém além disso, “Os Crimes de Grindelwald” é confuso, cansativo e, por vezes, sem magia.