Crítica: “Okja” faz você pensar no que come e no mundo à sua volta

28. julho 2017 Cinema 0
Crítica: “Okja” faz você pensar no que come e no mundo à sua volta

“Okja” era um filme que não me deixou ansioso para assisti-lo. As polêmicas em torno dele no Festival de Cannes não me deixaram tão curioso para correr para a Netflix quando ele estreou há um mês. Na verdade, o que me fez mudar de ideia foram as centenas de comentários no Twitter sobre o longa ter feito muita gente repensar seu consumo de carne.

A julgar pelo trailer e pela sinopse, esse tipo de reação era até esperado: uma grande empresa americana cria em laboratório superporcos, os quais são “grandes e lindos”, deixam “um impacto mínimo no meio-ambiente”, consomem “menos alimento” e produzem “menos excrementos”. Obviamente, esses animais estão sendo feitos para depois serem mortos e consumidos pelos humanos. É a salvação da nossa espécie e da Mirando, uma corporação liderada pela competitiva, gananciosa e pouco adorável Lucy Mirando (Tilda Swinton).

Ela envia vários superporcos para diferentes partes do mundo, a fim de que sejam cuidados e cresçam bastante. Um deles, Okja, vai parar na fazenda de Mija (An Seo Hyun) e seu avô, em algum canto da Coréia do Sul. A menina cresce ao lado do bicho, que come, dorme e é dócil como um cachorro, apesar de aparentar uma mistura de porco com hipopótamo e ser um animal enorme. Ao ver a relação de Mija com Okja, fica difícil não simpatizar com ambas e com  a luta da garotinha para salvar seu bichinho de estimação. 

“Okja” não é um filme revolucionário e nem tem a pretensão de ser. Embora o roteiro não seja surpreendente – filmes que fazem críticas ao capitalismo, meios de produção e a indústria alimentícia não são novidade – , a execução da obra é muito bem feita, emocionando e provocando uma necessária reflexão sobre o que estamos comendo.

Parece justo, pelo menos é isso o que Lucy quer nos fazer acreditar, que os animais estão sendo criados para ajudar a alimentar o planeta. Porém, a produção de comida no mundo é suficiente, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês). O que torna a fome uma realidade é a falta de vontade política de muitos governos, a concentração de produção e o desperdício. Tendo isso em mente, fica difícil acreditar que uma empresa queira realmente ajudar a combater a fome no mundo, em vez de criar animais em laboratório apenas para lucrar mais e mais.

E ainda nessa linha de pensamento, precisamos mesmo consumir mais carne? Algumas pesquisas apontam alguns benefícios para a saúde com a diminuição do consumo de carne, bem como a redução do aquecimento global ao ingerirmos menos carne. Essa não é crítica a quem gosta de comer carne ou a novas maneiras de acabar com a fome no mundo, mas à forma como a indústria alimentícia está estruturada. E vale acrescentar: eu não sou especialista no assunto, mas esses pontos realmente chamaram minha atenção e me fizeram pensar, o que pode acontecer com outras pessoas também.

Como eu disse anteriormente, “Okja” faz mesmo você pensar na sua alimentação e sobre a nossa relação com o meio-ambiente e os animais. A obra do diretor coreano Joon-ho Bong possui um final fácil, mas não deixa de ser tocante, cujo conteúdo é relevante e tem criado conversas importantes por todos os cantos. O filme tem ritmo e encontra um equilíbrio entre a comédia, o drama e profundidade. Com certeza, ele merece uma chance na sua próxima “passeada” pelo catálogo da Netflix.


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