Crítica: “O Estranho que Nós Amamos”

26. agosto 2017 Cinema 0
Crítica: “O Estranho que Nós Amamos”

Premiada como Melhor Diretora no Festival de Cannes desse ano, Sofia Coppola fez história como a segunda mulher a levar o prêmio em 70 anos de festival. Não é para menos. “O Estranho que Nós Amamos”, sexto longa da carreira da diretora, é obra de uma artista, e deve muito ao olhar feminino de Coppola.

Adaptado de um romance (“The Beguiled”, de Thomas P. Cullinan) que já havia sido filmado em 1971, com Clint Eastwood no elenco, o filme traz uma perspectiva diferente da mesma história, com foco nas personagens femininas. Algo que Sofia Coppola sempre faz em seus filmes, mas que aqui é elemento fundamental para dar o tom da trama.

O cenário é a Guerra Civil norte-americana. Um pequeno grupo de mulheres, a maioria delas crianças, que não tiveram para onde ir quando a guerra começou, está confinado em um internato para garotas sob os cuidados de Miss Martha (Nicole Kidman). A chegada de um soldado inimigo, encontrado ferido no bosque próximo ao colégio, modifica radicalmente a rotina tediosa do lugar, uma vez que todas as personagens, de uma forma ou de outra, se veem seduzidas pela presença masculina.

Pouco a pouco, as mulheres se envolvem com o cabo John McBurney (Colin Farrell), o que cria uma espécie de competição entre elas. Enquanto as garotas mais jovens (entre elas Amy, interpretada pela ótima Oona Laurence) se aproximam dele com uma curiosidade inocente, a adolescente Alicia (Elle Fanning) tenta seduzi-lo usando sua sexualidade recém-aflorada. Até Miss Martha parece, de forma mais discreta, se deixar seduzir por McBurney. Mas talvez a personagem que mais se envolva com o novo hóspede seja a romântica Edwina (Kirsten Dunst), que enxerga no soldado a possibilidade de abandonar o tédio de sua vida.

A questão do tédio e da inadequação está presente em outros trabalhos da diretora, e para exemplificar basta pensarmos nas personagens de Kirsten Dunst nas três parcerias com Sofia Coppola: além de Edwina, a adolescente Lux Lisbon de “As Virgens Suicidas”, e a personagem título de “Maria Antonieta”. Três personagens que anseiam por uma fuga de suas vidas tediosas.

Mas “O Estranho que Nós Amamos” vai além dessa temática. O jogo de sedução criado a partir da presença do soldado em meio àquelas mulheres é o gatilho para momentos de suspense e humor, sempre com um toque de sarcasmo que dá o tom da narrativa, assim como o ótimo elenco.

Nicole Kidman brilha, numa interpretação envolvente e carismática na medida certa. Kirsten Dunst, já habituada ao estilo da diretora, está à vontade numa interpretação mais contida, enquanto Elle Fanning, mesmo tendo menos destaque que as outras duas atrizes, nos encanta com seu humor meio cínico de sua personagem. Há quem tenha torcido o nariz para a escalação de Colin Farrell, mas não deixa de ser genial que Sofia Coppola tenha escolhido um ator um tanto “canastrão” para o papel.

Longe dos clichês que possam envolver um filme cujo mote é essa dualidade entre a frágil força da masculinidade e o poder de sedução feminino (entre outras armas, expostas na medida em que a trama ganha fôlego e caminha para o clímax), “O Estranho que Nós Amamos” não se preocupa em ser radical sobre essas questões. A perspectiva feminina já fala por si só, não há nenhum discurso feminista evidente, embora o desfecho da história seja inevitável, o único possível, e bastante envolvente e satisfatório.

Ainda sobre o talento da diretora, vale notar a fotografia muito bem cuidada (alguns planos se parecem com pinturas ou antigas fotografias), e o ritmo do roteiro e dos ótimos diálogos, essenciais para a ambientação da narrativa. Há passagens especialmente notáveis, como as sequências externas, onde ouvimos o som dos canhões e vemos a fumaça dos campos de batalha por entre as árvores. A guerra acontece do lado de fora, mas o olhar de Sofia Coppola está interessado naquele espaço de isolamento, o casarão do internato envolvido em neblina. Destaque também para o plano final do filme. Se tem uma coisa (entre tantas) que Sofia Coppola sabe fazer, é uma boa sequência de encerramento.

Apesar de ter estreado em poucas salas (o problema da distribuição nos cinemas brasileiros é ainda uma questão a ser discutida, infelizmente), “O Estranho que Nós Amamos” vale muito ser visto. Sofia Coppola se reafirma como uma grande artista, e o longa agora integra a lista de produções bastante variadas que compõem seu currículo impecável.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *