Crítica: “O Animal Cordial” é um belo filme de terror nacional com um forte personagem LGBT

14. agosto 2018 Cinema 0
Crítica: “O Animal Cordial” é um belo filme de terror nacional com um forte personagem LGBT

“O Animal Cordial” marca a estreia de Gabriela Amaral Almeida na direção de um longa-metragem. A diretora e roteirista, porém, já é veterana em produções de terror: além de roteirizar o longa-metragem “Quando Eu Era Vivo”, ela já havia dirigido os curtas “Uma Primavera”, “A Mão que Afaga” e “Estátua”. Além disso, Gabriela Amaral de Almeida tem mestrado em cinema de horror, e todo esse estudo e experiência na área estão refletidos em seu primeiro longa-metragem. A diretora consegue pegar todas suas referências (que vão desde o slasher até ao cinema de terror italiano) e colocá-las em um contexto brasileiro super atual.

O filme se passa todo em uma ambientação e em um curto período de tempo: uma noite em um restaurante de classe média em São Paulo, o qual é invadido por dois assaltantes. A partir daí, várias reviravoltas acontecem, mostrando o lado mais animalesco e primitivo de cada personagem. Eles são: Inácio (Murilo Benício), o dono do restaurante, que poderia ser descrito como o famoso ‘cidadão de bem’ da sociedade brasileira, homem casado, que quer apenas a ascensão de seu restaurante e não mais ser assaltado por ‘vagabundos’, e que demonstra um preconceito ‘velado’ pelo chef de cozinha gay e faz seus funcionários trabalharem até tarde da noite; Sara (Luciana Paes), a típica funcionária puxa-saco do patrão, moça cordial e educada com os clientes, parece que quer fazer tudo para agradar a todos; Djair (Irandhir Santos), chef de cozinha competente, não gosta da forma como o patrão trata os funcionários e o confronta por isso, é gay, tem cabelo comprido e trejeitos femininos; Amadeu (Ernani Moraes), cliente sozinho e educado, parece ser uma pessoa pacífica e tem algum problema na perna; Verônica (Camila Morgado) e Bruno (Jiddu Pinheiro), casal aparentemente apaixonado de classe alta, não hesitam em humilhar os funcionários e o dono do restaurante; Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), a dupla de assaltantes.

O roteiro é competente em colocar os mais diferentes tipos de pessoas presentes no Brasil atual em um ambiente de vida ou morte e nos faz refletir sobre quem as pessoas realmente são. É interessante notar como todos os personagens mudam e, assim, demonstram seu verdadeiro eu apenas quando numa situação calamitosa e extrema. O único personagem que continua sendo fiel à sua personalidade é Djair.

Talvez por nunca ter se escondido, o chef de cozinha sempre se colocou, se vestiu e se portou de forma verdadeira, mesmo que tivesse que sofrer preconceito e não agradar a todos, ou seja, a sua verdadeira face sempre foi conhecida. Irandhir Santos merece todos os elogios ao construir um personagem LGBT que nos faz torcer e nos identificarmos como minoria em um filme de gênero. Djair, com certeza, tem alguns dos mais emblemáticos momentos do filme, como quando diz: “A culpa é sempre do preto né? Do paraíba, do viadinho”. Luciana Paes e Murilo Benício também merecem grande reconhecimento ao se entregarem a dois personagens tão cheios de camadas e saberem ir convencendo o público ao decorrer que cada uma dessas facetas é revelada. O casal de atores e a diretora também merecem ser parabenizados pela cena de sexo mais bonita, gore e bizarra do cinema nacional.

Apesar de uma ótima direção, personagens bem construídos e bem representados, ótima direção de arte (que abusa muito bem do vermelho) e maravilhosa trilha sonora (que vai da música clássica ao rock), “O Animal Cordial” peca ao tomar algumas decisões de roteiro um pouco preguiçosas no ato final do filme, justamente quando esperávamos certo confronto na resolução principal da trama, é tudo fácil demais e chega a parecer que perdemos alguma cena que deveria estar ali!

“O Animal Cordial” é mais uma excelente estreia em um ótimo ano para o cinema nacional, traz o gênero horror para o âmago da sociedade brasileira e acerta ao trazer olhares para a representatividade LGBT e feminina. Acaba escorregando rapidamente no confronto final mas não deixa de perder todo o seu mérito e ser um filme necessário para os dias tão urgentes que vivemos no Brasil.