Crítica: “Mulher-Maravilha” é a heroína que precisávamos hoje

07. junho 2017 Cinema 0
Crítica: “Mulher-Maravilha” é a heroína que precisávamos hoje

[O TEXTO POSSUI SPOILER DE “MULHER-MARAVILHA”]

Levou 76 anos para que um filme solo da “Mulher-Maravilha” chegasse aos cinemas. Mas como dizem, antes tarde do que nunca. E toda essa espera valeu a pena, e dá à nova geração de crianças uma super-heroína com valores muito bem estabelecidos e um exemplo de mulher e ser humano a se espelhar.

Dirigido por Patty Jenkins (“Monster – Desejo Assassino”), o longa se propõe a contar a origem da personagem, muito bem interpretada por Gal Gadot, que consegue transmitir todas as nuances da heroína e cativar o público. O nome verdadeiro da Mulher-Maravilha é Diana, filha de Hipólita (Connie Nielsen) e de Zeus. Ela vive em Temiscira, uma ilha apenas habitada por mulheres guerreiras, as amazonas.

Apesar de uma certa resistência de sua mãe à princípio, Diana recebe um treino árduo de sua tia Antíope (Robin Wright), que a prepara para ser uma grande guerreira. Sua vida muda quando um avião cai próximo à ilha. Dentro dele está Steve Trevor (Chris Pine), o primeiro homem com quem nossa heroína tem contato, e que a levará para o mundo dos homens para ajudar a acabar com a “guerra de todas as guerras”.

Desse ponto em diante, o filme cresce junto com a protagonista, que ao chegar em Londres, não se conforma com as regras sociais da época, como não ser permitido que mulheres estivessem no Parlamento, ou com as roupas femininas (“como uma mulher luta usando isso”, ela questiona em um momento).

Em nenhum momento a inocência de Diana é utilizada para diminuir a personagem. Pelo contrário, ela é utilizada com inteligência, levando o público a refletir sobre o papel das mulheres na sociedade. Se na época em que a produção é ambientada, a 1ª Guerra Mundial, as mulheres ainda não podiam votar e participar do Parlamento, um século depois, elas ainda precisam brigar por leis e espaço nos Congressos (só no Brasil, elas ocupam 10,7% das cadeiras da Câmara e 14,8% do Senado).

Não apenas nessa situação, é possível perceber que a heroína é um tanto subestimada pelos homens ao seu redor, assim como as mulheres de 2017 também o são. Mas incansável como é, ela prova que não precisa de proteção, e que sabe se defender sozinha com sua própria força e as armas que possui.

E vale aqui o destaque para uma das armas mais valiosas da Mulher-Maravilha: a empatia. Diferente dos super-heróis que estamos acostumados a ver no cinema, Diana possui uma preocupação genuína com o outro. Quando está na ‘Terra de Ninguém’, ela para sua caminhada para ouvir uma pobre mulher com uma criança no colo, a qual lhe diz os problemas que a população está enfrentando com a guerra. Enquanto seus companheiros insistem em continuar andando, ela decide que não pode e não vai deixar ninguém para trás.

A todo instante, ela se mostra preocupada com a vida de todos, inclusive dos soldados que estão nas batalhas. Ou seja: embora ela tenha visto e sentido o lado ruim dos humanos, ela não desiste da humanidade, e poupa a vida até quem poderia ser morto em qualquer outra produção de super-herói. Em tempos tão conturbados como os atuais, a empatia é uma poderosa arma para a construção de uma sociedade e um mundo mais justos.

Outro ponto que funciona bem em “MM” é a fotografia: enquanto a ilha de Temiscira possui cores vibrantes, Londres possui um aspecto cinza e sujo, demonstrando a dura transição na vida de Diana. Além disso, o corpo da personagem nunca é hiper sexualizado, nem mesmo nas belas cenas de luta (muito bem coreografadas, por sinal), o que mostra a importância de se ter mulheres trabalhando atrás das câmeras. As atuações de Gal Gadot, Connie Nielsen, Robin Wright e Chris Pine são muito bem construídas.

Porém, nem tudo é perfeito no filme: poderia haver mais cenas em Temiscira e com as amazonas, as quais são majoritariamente brancas e magras. É bem possível que existam guerreiras com outros tipos de corpos, o que poderia ter sido melhor explorado na obra de Patty Jenkins. Diversidade precisa ir além de gênero, afinal de contas.

Ainda assim, “Mulher-Maravilha” é um respiro de alívio para as produções de super-heróis. O sucesso que o longa tem feito é reflexo do bom trabalho de toda equipe responsável por ele. E fica aqui a esperança que a personagem inspire meninas no mundo todo a encontrar a ‘mulher-maravilha’ que existe dentro de cada uma delas.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *