Crítica: “Moonlight: Sob a Luz do Luar”

29. janeiro 2017 Cinema 0
Crítica: “Moonlight: Sob a Luz do Luar”

Nos últimos anos, a representação LGBT cresceu bastante no cinema. Contudo, embora vejamos mais personagens lésbicas, gays, bissexuais e trans, a maioria dos personagens ainda são gays brancos e cisgêneros. Por isso, um filme como “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, é um respiro de alívio em meio a uma indústria que se esforça em apagar as demais minorias.

Elogiado pela crítica, o filme do diretor Barry Jenkins é uma obra sensível, que não apenas explora o que é ser gay, negro e da periferia, como também escancara os efeitos tóxicos da masculinidade sobre os próprios homens, especialmente homens negros.

“Moonlight” é dividido em três atos. O primeiro mostra a infância complicada de Chiron, que é chamado de Little por todos à sua volta. Ele é interpretado pelo jovem Alex R. Hibbert, que consegue expressar com seu olhar e poucas palavras o quão perdido o menino está por não se encaixar e por viver com uma mãe abusiva, vivida pela ótima Naomie Harris.

Já no início, ele é perseguido por um grupo de garotos que o chamam de ‘viadinho’. Ele se esconde em um quarto de um conjunto habitacional e, em seguida, é encontrado pelo traficante de drogas Juan (Mahershala Ali), que o leva para sua casa, o apresenta para sua esposa, a compreensiva Teresa (Janelle Monáe), e lhe dá comida e uma cama para dormir. O homem se torna uma espécie de pai para Chiron, incentivando o menino a ter coragem e a não seguir o mesmo caminho da criminalidade. Com Juan e Teresa, o rapaz sente que pode ser ele mesmo, diferente de quando está em casa com sua mãe, Paula, uma viciada em crack e que se envolve com outros homens para poder pagar por seus vícios.

E durante toda essa primeira parte, é nítido como o menino, que além de não ter o afeto de sua mãe, também não se encaixa com os outros garotos de sua idade. Ele não gosta de futebol e é cobrado o tempo todo para ser ‘durão’, mesmo que não consiga. Em um dos momentos mais sensíveis, Chiron pergunta aos seus ‘pais postiços’ o que é ser ‘viado’.

“Viado é uma palavra que as pessoas usam para fazer com os gays se sentirem mal”, responde Juan.
“Eu sou viado?”, pergunta o menino.
“Não. Você pode ser gay, mas não pode deixar ninguém te chamar de viado”, diz o homem.
“Como vou saber?”, indaga Chiron
“Você apenas sabe. Eu acho”.

Em seguida, vem o segundo ato. Nele, os problemas de Chiron (Ashton Sanders) só pioraram: agora ele é um adolescente que é constantemente alvo de bullying na escola e faz o máximo de esforço para reprimir suas emoções e sua sexualidade. Não só isso, sua mãe rouba o dinheiro que recebe de Teresa para continuar comprando drogas. Seu único amigo é Kevin (Jharrel Jerome), o qual fica se gabando o tempo todo de ‘pegar’ meninas. Porém, em uma noite sentados na praia, juntos, as muralhas da masculinidade vão cedendo, enquanto os dois começam a falar sobre suas subjetividades.

“Você chora?”, pergunta Chiron.
“Não, só me dá vontade. O que te faz chorar?”, responde Kevin.
“Às vezes eu choro tanto que eu acho que vou secar por dentro”, diz o garoto.

E é ali que ambos se descobrem e vivem um momento de afeto que acompanhará Chiron por toda sua vida. O capítulo se encerra, contudo, de maneira violenta entre os dois e os rapazes que sempre atormentaram o protagonista com o bullying, o que leva o protagonista a tomar uma medida drástica contra o líder do grupo.

Perto do fim, temos Chiron adulto (Trevante Rhodes), o qual seguiu os passos de Juan e se tornou um vendedor de drogas. Ele, porém, não é mais um menino magro e assustado. Musculoso e durão, ele em nada lembra o garoto que um dia foi, mostrando como teve de aprender a reprimir quem era para poder sobreviver em um meio que não o aceitava como ele era.

Dez anos se passaram entre a adolescência e a vida adulta, e o personagem recebe o telefonema de Kevin (André Holland), que pede a ele para vê-lo novamente e pedir desculpas pelo que fez seu amigo passar. O encontro dos dois é tenso, marcado pela dificuldade de ambos de se reconectarem após anos de distância. E é agora que Chiron tem a oportunidade de colocar para fora quem sempre foi, mas nunca se permitiu ser. A pergunta que fica com o final do filme é se ele conseguirá sair do casulo no qual se aprisionou.

“Moonlight” é um filme sensível e que faz jus a todas as críticas positivas que recebeu da imprensa especializada e é um retrato fiel do que é crescer LGBT. Boto fé que muitos se identificarão com o protagonista, o qual precisa reprimir o que sente e quem é e não se encaixa em lugar algum durante toda a sua vida. O filme é sobre essa violência, mas também sobre a violência do racismo e a violência que os homens causam a si mesmos quando não podem expressar suas subjetividades. No final, percebemos como o ambiente em que vivemos podem moldar as pessoas que seremos no futuro.

Não é à toa que o longa concorre a oito categorias no Oscar, incluindo ‘Melhor Filme’ e ‘Diretor’. Vamos acompanhar como terminará a jornada da obra de Barry Jenkins, que com certeza, fez uma das melhores produções de 2016.