Crítica: Nós não precisávamos de uma sequência de “Mamma Mia”, mas como resistir a ela?

08. agosto 2018 Cinema 0
Crítica: Nós não precisávamos de uma sequência de “Mamma Mia”, mas como resistir a ela?

A busca de Sophie (Amanda Seyfried) por seu pai, que pode ser um dos antigos amores de sua mãe, a aventureira Donna (Meryl Streep), conquistou o mundo em 2008. “Mamma Mia” arrecadou mais de US$ 600 milhões em bilheteria, e fez das salas de cinema (e de casa), um verdadeiro karaokê com os sucessos do grupo ABBA. No final das contas, o musical não respondeu a pergunta da personagem, mas todos ficamos contentes com o fato de que ela tinha agora não um, mas três pais (Pierce Brosnan, Colin Firth e Stellan Skarsgard).

Foi um final feliz que agradou gregos e troianos, mas que ganhou uma continuação 10 anos depois do primeiro filme. Não que nós precisássemos de uma sequência, mas em tempos tão difíceis e conturbados e um cenário político tão entristecedor, uma dose a mais da alegria de “Mamma Mia” não faz mal a ninguém. E lá vamos nós de novo, como o próprio nome da obra diz.

Porém, até mesmo o ensolarado e divertido mundo de Sophie está mais melancólico: é porque Donna, sua mãe, morreu no último ano. Para homenageá-la, a moça decide abrir o sonhado hotel dela em uma ilha grega. Para ajudá-la com essa missão, ela tem ao seu lado o pai Sam (Pierce Brosnan), o gerente do estabelecimento, o senhor Fernando Cienfuegos (Andy García) e as melhores amigas de Donna, Tanya (Christine Baranski) e Rosie (Julie Walters). Já Sky (Dominic Cooper) está na cidade de Nova York, aprendendo tudo sobre hotelaria, para auxiliar sua amada a prosperar nos negócios. 

Contudo, a falta de Donna é muito sentida pela filha, que faz tudo o que pode para realizar o antigo sonho da mãe. Porém, além da saudade, Sophie tem ainda de lidar com uma tempestade repentina, a incerteza de que seus 3 pais comparecerão à abertura do hotel e com o fato de que Sky talvez não volte, pois recebeu uma oferta de trabalho no outro continente.

Enquanto os problemas são bem atuais, “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo” nos transporta para o passado, exatamente para 1979. Naquele ano, Donna (interpretada muito bem por Lily James) estava se formando na faculdade e prestes a embarcar numa jornada com destino a Grécia. Para tal, é preciso se despedir – ou melhor, dizer ‘até logo’ – das melhores amigas Tanya (Jessica Keenan Wynn) e Rosie (Alexa Davies), e partir para o desconhecido. E no meio do caminho, a jovem conhece os três homens que se tornaram figuras centrais no primeiro filme: o cativante Sam (Jeremy Irvine), o certinho Harry (Hugh Skinner) e o sedutor Bill (Josh Dylan). Cada um à sua maneira conquista o coração da protagonista, que no final se vê sozinha, com uma filha no colo e muita vontade de fazer seu sonho se tornar realidade.

“Mamma Mia 2” é, de certa forma, um pouco mais triste, já que a falta de Donna e sua alegria são sentidas a todo momento pelos personagens – e pelo público, o qual a conhece mais fundo com os flashbacks. Dessa vez, as músicas que dão liga ao enredo não são mais os grandes hits do ABBA, mas conseguem trazer cor e fazer parte dessa nova história. Logo de início, temos uma performance divertida e muito animada de “When I Kissed the Teacher”, performada por Lily James, Jessica Keenan Wynn e Alexa Davies. O trio rouba a cena sempre que aparece. E a função de ocupar um papel deixado por Meryl Streep poderia assustar qualquer um, mas Lily faz o trabalho com muito brilho e frescor. Jessica e Alexa também não deixam nada a desejar e são responsáveis por alguns dos momentos mais divertidos da produção. O trio de rapazes e ladrões de corações, Jeremy, Hugh e Josh também estão muito bem, cumprindo os papéis que lhes foram dados. Christine Baranski e Julie Walters continuam ótimas e Pierce Brosnan, o pai mais presente dos três, canta bem menos e fica mais à vontade no papel. Ah, Meryl Streep faz uma ponta no filme, emocionando todo mundo nas poltronas.

Se há alguma injustiça com algum dos personagens, talvez seja com Cher, que surge perto do final. Obviamente, sua entrada é grandiosa, como deveria ser mesmo. Embora não faça muito sentido que ela seja mãe de Meryl Streep (as duas têm pouquíssimos anos de diferença entre elas), nós engolimos a história, afinal, estamos falando de Cher, a diva das divas. E vale dizer, ela enche a tela e protagoniza um dos números musicais mais belos do filme.

Contudo, nem tudo é lindo em “Mamma Mia 2”. Se no primeiro longa-metragem ambas direção e roteiro ficaram a cargo de duas mulheres, aqui temos uma produção assinada por Ol Parker. Embora faça um bom trabalho, uma história protagonizada e criada por mulheres poderia ficar ainda melhor na mão de outra mulher. Além disso, a obra erra ao fazer piadas com gordos e apresentar Alexander Skarsgard vestindo uma roupa de gordo. Estamos brigando por inclusão, logo, piadas que diminuem um grupo de pessoas deveriam ficar em 1979 ou nem sequer ter existido. Não só isso, Harry, que é gay na primeira versão do musical, perdeu seu parceiro e sua sexualidade não é explorada nessa sequência. 

Apesar desses problemas, como resistir a “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo”? Eu estava muito bem com o primeiro, mas o segundo filme traz uma alegria e um escapismo que nós merecemos. Nós não precisávamos da sequência, mas ao final, tudo o que você vai conseguir dizer é: gimme, gimme, gimme.