Crítica: Lady Gaga merece todos os aplausos em “Nasce Uma Estrela”

14. outubro 2018 Cinema 0
Crítica: Lady Gaga merece todos os aplausos em “Nasce Uma Estrela”

Neste ano, Lady Gaga comemorou 10 anos de lançamento do seu primeiro álbum “The Fame Monster”, o disco que a levou para o estrelato e mudou a música pop definitivamente. Mas no fim dessa década de enorme sucesso, a cantora tem trocado os palcos pelos sets de filmagem: depois de sua elogiada e premiada atuação no seriado “American Horror Story”, de Ryan Murphy, a artista se aventura nas telonas com o remake de “Nasce Uma Estrela”, filme que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (11). E verdade seja dita: ela está ótima e confortável no papel de Ally, uma ótima cantora, mas cansada de brigar por uma oportunidade na indústria musical.

Em “Nasce Uma Estrela”, Gaga trabalha como garçonete em um restaurante durante o dia, e à noite se apresenta em um bar de drag queens. É onde ela pode liberar sua voz, já que não consegue uma chance para cantar profissionalmente, pois os executivos dos grandes estúdios não gostam da aparência dela, apesar de reconhecerem seu talento. É nesse mesmo bar que ela conhece Jackson Maine (Bradley Cooper), um roqueiro que para ali para beber e fica encantado com ela.

Depois dessa noite, Jack recorda alguns versos que Ally faz para ele e cria a música “Shallow”, que ambos cantam em um show que o músico a convida para assistir e, de surpresa, para dividir o microfone com ele. É um momento fofo, no qual vemos uma estrela nascendo, e que dá o pontapé para o relacionamento conturbado e, por vezes, abusivo, dos dois.

Lady Gaga realmente brilha no longa-metragem, que também marca a estreia de Bradley Cooper na direção, dando profundidade à sua Ally, uma mulher insegura, apaixonada pela carreira que está construindo e pelo homem que a colocou no centro dos holofotes. Mas a relação que desenvolve com Jack requer dela mais do que apenas amor: o cantor é alcoólatra e viciado em drogas e pílulas, o que faz com que Ally viva preocupada com ele, já que os problemas dele pioram no minuto em que o sucesso dela começa a despontar.

E muito se falou do trabalho impecável de Lady Gaga, mas Bradley Cooper também está incrível em seu papel, alterando até mesmo sua voz (e quem diria que ele cantava tão bem?), representando bem um homem lutando contra seus demônios internos. Em uma época em que vemos tantos artistas e pessoas queridas tendo suas carreiras e vidas interrompidas pela dependência de drogas, Jack nos faz caminhar em seus sapatos e entender como é tão difícil largar o vício. É um retrato bem humano e que pode vir a tocar o coração até mesmo de quem diz, sem empatia alguma, que deixar as drogas e o álcool de lado é apenas uma questão de força de vontade. Jack nos mostra que é preciso muito mais do que força de vontade. Nesse sentido específico, “Nasce Uma Estrela” se coloca como um filme atual, ainda que sua história esteja nos cinemas pela quarta vez desde que a primeira versão surgiu em 1937, com Janet Gaynor e Fredric March nos papéis principais.

O vício de Jack, contudo, sufoca, manipula e abusa de Ally, que se vê em constante desespero pelo amado e coloca a todo instante a vida dele acima de tudo que vem construindo. Esse outro lado da dependência em drogas é também muito bem conduzido por Bradley Cooper, que é um dos roteiristas e já enfrentou o vício em álcool, fazendo um poderoso retrato desse mal nas telonas. Porém, o filme peca ao dar pouca agência à personagem de Lady Gaga, que vive na órbita de Jack e de outros homens. Ally não tem nenhuma amizade feminina e pouco interage com outras mulheres, apenas homens, os quais acabam decidindo por ela os movimentos que devem ser feitos em sua carreira e vida amorosa.

Ainda assim, Lady Gaga faz um trabalho impecável em sua estreia no cinema e merece todos os aplausos por ele. Depois de 10 anos de sucesso, é possível afirmar que essa estrela dela já nasceu pronta.