Crítica: “Lady Bird – A Hora de Voar”

14. Fevereiro 2018 Cinema 0
Crítica: “Lady Bird – A Hora de Voar”

“Eu gosto de coisas que parecem erros”. Quem disse essa frase foi a personagem título de “Frances Ha”, filme de 2013 estrelado por Greta Gerwig. Mas poderia muito bem ter sido a própria Greta, a respeito de seu filme de estreia como diretora, o encantador “Lady Bird – A Hora de Voar”.

Assim como nos dois filmes os quais Greta co-escreveu com o diretor Noah Baumbach – “Frances Ha” e “Mistress America” -, nada em “Lady Bird” é improviso ou fruto do acaso, e ainda assim o longa carrega uma leveza e naturalidade que raramente o cinema consegue alcançar.

Saoirse Ronan em cena de “Lady Bird”

O maior mérito de “Lady Bird” é, talvez, fazer um gênero já muito explorado pelo cinema (o chamado “coming-of-age”, filme sobre a passagem para a vida adulta) parecer novo.

Estão lá todos os seus elementos característicos: os anseios adolescentes; os primeiros romances, quase sempre fracassados; as incertezas sobre o futuro; os conflitos familiares. Aliás, a relação entre Lady Bird e sua mãe é o coração do filme.

Impossível não se apaixonar pelas duas. Saoirse Ronan e Laurie Mefcalf conseguem nos tirar sorrisos e lágrimas com a mesma facilidade, sem nunca forçar emoções. Um mérito também do roteiro e da direção de Greta Gerwig: o filme nunca cai no sentimentalismo fácil. Talvez porque tudo no filme seja verdadeiro a seu modo.

Timothée Chalamet, Saoirse Ronan e Greta Gerwig no set de “Lady Bird”

Embora não seja autobiográfico no sentido mais amplo, Greta Gerwig usou muito de sua própria experiência para escrever o filme. É aquela história de “fale sobre o que você conhece”. Assim como a personagem, Gerwig cresceu em Sacramento, na Califórnia. E ela própria avalia que uma das razões do sucesso do filme é que Lady Bird é 100% ela, e também 100% Saoirse Ronan. Talvez Lady Bird seja também cada espectador que se identifique com ela. É disso que grandes personagens são feitos.

E estamos falando de um tipo de personagem raramente visto no cinema: uma garota adolescente que ama a si mesma. O que não significa, de modo algum, que ela não tenha problemas. Inclusive, a maioria deles vêm exatamente de sua auto-afirmação (ter se batizado “Lady Bird” já indica um pouco dessa sua personalidade) e de suas ambições.

Estudante de um colégio católico de Sacramento, Lady Bird sonha se mudar para a Costa Leste dos EUA, estudar em uma universidade em Nova York e se tornar alguém longe da pacata cidade onde cresceu. Antes disso, ela se aventura nas artes dramáticas, entrando para o grupo de teatro da escola, tem suas primeiras (e embaraçosas) experiências sexuais e desilusões amorosas, arquiteta pequenos planos para conseguir o que quer.

Quando conhecemos Lady Bird e sua mãe, Marion, elas estão nesse momento decisivo de suas vidas. Marion não acredita que a filha precise romper tão drasticamente com sua realidade, e nem tem condições (financeiras, principalmente) de oferecer isso a ela. Mas a determinação de Lady Bird em conseguir o que quer, muitas vezes escondida da mãe, constantemente as coloca em um embate. Já na sequência inicial do filme, Lady Bird se joga do carro em movimento durante uma discussão com a mãe. 

Saoirse Ronan e Laurie Metcalf em cena de “Lady Bird”

“Impossível conseguir uma resposta curta de alguém quando perguntamos como é a sua relação com sua mãe”, brincou Greta Gerwig em uma entrevista. De fato, é muito fácil se identificar de algum modo com a relação entre Lady Bird e sua mãe. E embora o filme seja primordialmente sobre a jovem que ambiciona voar alto e para longe, é também um filme sobre sua mãe, e o paralelo entre as duas é o que “Lady Bird” tem de mais precioso. Mas não para por ai.

A trilha sonora é uma delicia a parte. Enquanto todos os jovens no cinema recente são descolados, garimpam discos de vinil e ouvem indie rock, Lady Bird sofre suas desilusões amorosas ao som de “Crash Into Me”, do Dave Matthews Band. Greta Gerwig escreveu pessoalmente para Dave Matthews pedindo para usar a música no filme. Vale muito a pena conferir essas cartas, divulgadas por ela em uma entrevista quando o filme estreou nos EUA. O mesmo aconteceu com Alanis Morissette e Justin Timberlake, que também tem canções na trilha de “Lady Bird”.

No caminho do Oscar

Se no Globo de Ouro desse ano parecia que o filme tinha se dirigido a si mesmo, uma vez que uma produção com tantas indicações (e que levou dois dos principais prêmios) não colocou Greta Gerwig na lista de diretores indicados. Em outras premiações da temporada o erro foi corrigido, e agora ao que tudo indica Gerwig está entre os favoritos ao Oscar de Melhor Direção.

Laurie Metcalf, Greta Gerwig e Saoirse Ronan no Globo de Ouro desse ano

Se no Globo de Ouro desse ano parecia que o filme tinha se dirigido a si mesmo, uma vez que uma produção com tantas indicações (e que levou dois dos principais prêmios) não colocou Greta Gerwig na lista de diretores indicados. Em outras premiações da temporada o erro foi corrigido, e agora ao que tudo indica Gerwig está entre os favoritos ao Oscar de Melhor Direção.

Merece a torcida? Muito. Em especial em um ano cheio de grandes filmes dirigidos por mulheres, e esnobados pela Academia, como “Mulher Maravilha” de Patty Jenkins e “O Estranho que Nós Amamos” de Sofia Coppola. Um ano onde as mulheres ganharam voz em Hollywood, não só sobre a importante questão do assédio, mas também sobre sua própria representatividade na indústria cinematográfica.

Mas o filme vale a torcida também por ser essa linda carta de amor à Sacramento, e a todos os lugares que alguém pode chamar de lar. Pela sensibilidade com a qual nos apresenta aquelas personagens, de quem nos tornamos velhos amigos. Quem não iria querer dar um abraço apertado em Danny (Lucas Hedges) ou ir a um baile de formatura com Julie (Beanie Feldstein)? E também pelo trabalho tocante de Laurie Metcalf. Pela delicia que sempre é assistir Saoirse Ronan, grande atriz de sua geração. E pela própria Greta Gerwig. O filme é todo ela, ao mesmo tempo em que é absolutamente universal.