Crítica: Karine Teles brilha em “Benzinho”, filme sobre família e maternidade

23. agosto 2018 Cinema 0
Crítica: Karine Teles brilha em “Benzinho”, filme sobre família e maternidade

A Síndrome do Ninho Vazio foi poucas vezes retratada de forma tão delicada no cinema como em “Benzinho”, filme nacional dirigido por Gustavo Pizzi. A protagonista da história é Irene (interpretada por Karine Teles, conhecida no cinema principalmente por sua interpretação de Dona Bárbara em “Que Horas Ela Volta?”), casada e mãe de 4 filhos, e que recebe a notícia de que seu filho mais velho foi convidado para jogar handebol na Alemanha e irá se mudar em 20 dias. Ou seja, ela terá de enfrentar a partida de seu primogênito antes de estar preparado para isso.

As mudanças fazem parte da evolução natural de uma família: os filhos crescem e acabam saindo do lar e indo formar suas próprias famílias. Nesse momento, é muito comum que os pais se sintam sozinhos e tristes, e é maior do que imaginamos o número de casos de pais que entram em depressão nessa parte da vida ao verem suas casas vazias, no que é conhecido como Síndrome do Ninho Vazio. Em “Benzinho”, vemos Irene precisando lidar pela primeira vez com esses sentimentos e se acostumar com a partida do filho durante o curto período de 20 dias. Pega de súbito, a personagem não estava preparada para ver seu filho adolescente, Fernando, seu benzinho, sair de casa (e do país) tão cedo. Ela precisa lidar com esse vulcão de sentimentos e tristezas, ao mesmo tempo em que precisa cuidar de uma casa e mais três filhos e ajudar sua irmã que sofreu violência doméstica.

Não há dúvidas de que Karine Teles é o grande destaque da trama: a atriz brilha ao mostrar para o público em pequenas expressões e gestos tudo que Irene está sentindo, mas não quer demonstrar. Karine Teles não brilha apenas na frente das câmeras atuando, ela também assina o roteiro do filme, junto com o diretor (que é seu marido na vida real). A presença de Karine no envolvimento do filme como um todo é sentida pelo telespectador, sendo um filme sobre o universo feminino, sobre a maternidade, e mesmo sendo dirigido por um homem, nota-se que foi tudo muito bem construído e retratado, já que Karine Teles é a alma do filme e nota-se sua mão e sua perspectiva feminina em tudo ali.

Mas os elogios para o elenco não devem ficar apenas para a protagonista, pois toda a família está muito bem e você consegue se identificar com cada membro dela. Parte disso vem do acerto da direção em colocar os filhos gêmeos da própria atriz e diretor para fazerem os filhos mais novos de Irene na ficção e por seu filho do meio, Rodrigo, ser interpretado pelo sobrinho de Karine, Luan Teles. Adriana Esteves, mesmo sem ser a protagonista da história, tem espaço para brilhar, e sua personagem, Sônia, tem uma trama interessante e necessária de violência doméstica. A sintonia e cumplicidade entre as irmãs é linda de ser assistida e necessária num momento em que falamos tanto sobre união entre mulheres. Otávio Muller também está muito bem como Klaus, um pai e marido dedicado e amoroso, e a gente consegue comprar com facilidade seus sonhos de dar uma vida melhor para a família.

O roteiro é certeiro em mostrar os medos de Irene em desapegar das coisas, retratando como ela está se sentindo em relação à partida do filho. A casa está quebrada, mas ela não quer sair de lá; eles precisam de dinheiro, mas ela não quer vender a casa de praia que é pouco usada; a construção de uma nova casa vai sair mais cara fazendo um quarto para o filho que não estará mais lá, mas ela quer manter o projeto inicial e fazer quatro quartos; a mudança vai ficar mais difícil, mas ela não quer se desfazer de nada e levar tudo para o novo imóvel. É como se no momento que ela aceitar as mudanças e os desapegos estivesse também aceitando a saída do filho do lar e abraçando a sensação do abandono do seu primogênito.

“Benzinho”, mesmo com uma direção masculina, acerta em fazer um retrato com leveza do sentimento de abandono que uma mãe sente ao ver seu filho sair de casa, muito graças ao talento de Karine Teles, presente desde o roteiro. É um filme para você chamar sua mãe para assistir junto com você no cinema. Ao final, ficam as nossas lágrimas junto com as de Irene e o pensamento que a personagem ainda passará pelo mesmo vulcão de sentimento de ver um filho saindo do lar mais três vezes futuramente!