Crítica: “Homem-Aranha: No Aranhaverso” é o filme mais engraçado da Marvel

12. janeiro 2019 Cinema 0
Crítica: “Homem-Aranha: No Aranhaverso” é o filme mais engraçado da Marvel

[ATENÇÃO: ESTE POST CONTÉM SPOILERS DE “HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO”]

Miles Morales (Shameik Moore) é um garoto que vive uma vida normal no Brooklyn, até que, pouco tempo depois de mudar de escola, é picado por uma aranha radioativa, que lhe concede poderes iguais aos de Peter Parker (Jake Johnson). Como se não fosse o bastante (é um choque de terror ganhar poderes especiais, né?), Morales vê Parker morrer que, antes disso, dá a ele o posto de novo Homem-Aranha.

Em meio ao caos todo, Wilson Fisk (Liev Schreiber), o Rei do Crime, acaba abrindo uma brecha entre as dimensões do Aranhaverso, o que permite que várias versões alternativas do Homem-Aranha acabem parando no Brooklyn de Miles Morales (inclusive uma outra versão do Peter Parker, mais velho, também interpretada por Jake Johnson), que se torna o mentor de Morales. Juntos, eles devem deter Wilson Fisk e sua gangue, salvando, assim, as dimensões do Aranhaverso.

O roteiro, que parece ser muito bom segundo os parágrafos anteriores, na verdade, é o que mais peca. Eu acho legal eles focarem nas relações interpessoais entre os Homens-Aranhas, além dos os sentimentos de Miles em seu processo de se tornar um super-herói. Ficou bem diferente da maioria dos filmes da Marvel, que não tem um foco tão grande nos sentimentos dos heróis diante das situações enfrentadas por eles, tampouco em suas relações com outras pessoas. O problema é que acabou deixando de lado a parte da ação. Sendo assim, essa parte em específico ficou muito confusa e deixou muitos detalhes fundamentais no ar.

Mas se peca na aventura, ficou ótimo na risada. O filme é MUITO, MAS MUITO MESMO, engraçado. O legal é que o Homem-Aranha Noir, que a princípio seria o último a se tornar engraçado, acaba fazendo as pessoas rirem. O HOMEM-ARANHA NOIR!

E as referências? Quem é fã de carteirinha da Marvel Comics, principalmente os das antigas, vai se maravilhar com as referências a coisas antigas das histórias do Homem-Aranha. Como quando aparecem as capas dos primeiros quadrinhos do Homem-Aranha, feitos por ninguém menos que Stan Lee e Jack Kirby (isso mesmo! Os da década de 60! Relíquias que encantam os fãs!), ou quando aparecem os pensamentos dos personagens, de um jeito quase que idêntico aos quadrinhos da grande Marvel Comics. Ou quando toca a icônica abertura do primeiro seriado de animação do Homem-Aranha (a primeira vez que o Homem-Aranha saiu dos quadrinhos foi em 1967).

Veja se você consegue lembrar.

E lógico que eu não poderia deixar de falar de uma coisa marcante no filme: o design. Ele é incrível e sensacional. O filme faz uma mistura excelente de um trio maravilhoso: comics, grafite e rap/hip-hop. Tudo em um tom certo, com destaque a uma arte vislumbrante que te deixa maravilhado, principalmente no começo do filme. Você vai ter vontade de assistir várias e várias vezes só por causa do design.

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA — As nossas amigas do Preta, Nerd e Burning Hell já nos disseram como a questão do Aranhaverso (ou seja, Terras alternativas em espaço-tempo diferentes umas das outras (a original é a Terra-616, onde encontramos aquele Peter Parker mais famoso). E elas estão corretas. O Aranhaverso tira a centralidade deste tal Peter Parker, não só dando a impressão de que existem outras aranhas com status de liderança do nível do Peter Parker da Terra-616, incluindo negros, mulheres, latinos. Enfim, minorias em geral; como também dá protagonismo, visibilidade a essas aranhas que não são vistas como padrão pela sociedade. E o filme tem uma representação até que boa em relação a isso. Temos, além de Miles, duas mulheres Spider Gwen (Hailee Steinfeld) e Peni Parker (Kimiko Glenn). E, já falando de representatividade, temos coisas que chamam atenção no lado dos vilões também, que trabalham para Wilson Fisk. Temos um vilão latino, o Scorpion (Joaquín Cosio), uma Doutora Opticus (Kathryn Hahn) e o Gatuno (Mahershala Ali), um personagem negro bem desenvolvido durante a trama. E mais: a mãe de Miles, Rio Morales (Lauren Vélez), é uma personagem mulher, negra e latina (apesar disso, bem estereotipada, fazendo o papel da mama latina e que aparece muito pouco). Outro ponto é que a masculinidade tóxica é tratada como normal no filme. Poderia ser melhor? Poderia. Mas as mudanças vão se ajustando.

Na verdade, “Homem-Aranha no Aranhaverso” não focou muito em questões sociais, como o “Pantera Negra”, por exemplo, mas foi mais uma apresentação do Aranhaverso e toda sua fantasia.

Há algumas exceções em relação à abordagem de questões raciais, principalmente no começo do filme. Miles se muda de escola no início do longa-metragem, passando a estudar em um colégio elitista, e depois é picado pela aranha radioativa. Porém, ele quer viver a sua cultura, uma cultura negra fazendo grafites ouvindo rap/ hip-hop, coisa que não conseguiria em um colégio de elite, já que estes não valorizam a cultura negra. O choque de cultura, de condições de vida, entre um aluno vindo da classe trabalhadora e os outros da nova escola, que vieram de famílias abastadas, tudo isso é muito bem representado ao longo da trama.

Além disso, seu aprender a lidar com poderes é algo que pode ser chamado de “Jornada do herói negro periférico”. As nossas companheiras do MinasNerds já explicaram de uma maneira bem legal o que é a “Jornada da heroína” (teoria da autora Maureen Murdock), que é diferente da “Jornada do herói” (teoria do do antropólogo Joseph Campbell). Eu sei que a questão aqui não é o feminismo, mas a questão da pessoa negra periférica, porém, a questão é que o processo do surgimento de um herói padrão é diferente de um herói negro rico, hétero, etc. E ambos são diferentes do processo aplicado em uma mulher gorda, por exemplo. E assim vai. Miles, nesse sentido, representa bem a “Jornada do herói negro periférico”, ainda que de uma maneira sutil.

Outra questão que o filme não deixa passar é a dos artistas em uma sociedade do capital. Miles quer se aventurar em algo que, em uma sociedade capitalista, em que o pensar, desenvolver opiniões e pensamentos críticos sobre diversos aspectos da sociedade são vistos como uma ameaça à ordem social, onde poucos ganham muito e muitos ganham pouco. E fazer uma boa arte é ajudar a desenvolver o tal pensamento crítico nas pessoas. Como resultado, é óbvio que a profissão de artista é completamente desvalorizada. Quem faz isso é que não quer ganhar milhões, mas realmente ama o que faz.

É o caso de Miles, que cresceu com humildade no coração, mas é não foi incentivado o tempo todo a fazer o que realmente ama: arte (grafite, mais especificamente).