Crítica: “Estrelas Além do Tempo” é o tipo de filme que precisamos ver mais por aí

03. Fevereiro 2017 Cinema 0
Crítica: “Estrelas Além do Tempo” é o tipo de filme que precisamos ver mais por aí

Não é todo dia que Hollywood produz filmes sobre mulheres cientistas. É como se a arte imitasse a vida, limitando o potencial e as opções de meninas e mulheres no mundo todo. Para se ter uma ideia, somente no Brasil, apenas 19% dos funcionários que trabalham com ciência e tecnologia são do público feminino.

E se não há muitas produções por aí protagonizadas por mulheres, é mais raro ainda vermos mulheres negras nesses papéis. Com esse cenário, “Estrelas Além do Tempo”, que estreou no país no dia 2, vem como um filme necessário e ajuda a preencher essa lacuna. O longa narra a história das três mulheres negras que foram fundamentais para levar o primeiro americano para a órbita da Terra.

Baseado em eventos reais, o filme se passa no começo da década de 60, durante a corrida espacial entre Estados Unidos e a União Soviética. Enquanto os russos conseguem enviar um satélite para o espaço, os americanos lutam para realizar o mesmo feito, porém, sem sucesso. E é aí que nossas três protagonistas entram em cena.

“Estrelas Além do Tempo” começa a criança prodígio que Katherine Goble (Johnson, mais para frente) foi: uma menina negra inteligente e com muita facilidade para números e contas complexas. Em seguida, a vemos já adulta, interpretada pela ótima Taraji P. Henson, parada em uma estrada com o carro quebrado, ao lado de suas amigas e colegas de trabalho Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe). As três trabalham como ‘computadores’ na NASA, quando esses aparelhos eram mulheres negras, responsáveis por fazer os complicados cálculos.

Embora o longa se passe entre os anos de 1961 e 1962, uma época marcada por protestos pelos direitos civis da população negra, não é difícil fazer comparações com os dias de hoje. Um exemplo claro disso ocorre ainda na cena da estrada, quando um policial branco encosta o carro e pede as identidades das três mulheres, as quais congelam ao vê-lo se aproximando. Mais de 50 anos depois, os negros continuam temendo que a polícia tire suas vidas.

Dentro da agência espacial, o trio enfrenta o peso de ser mulher e negra: o salão onde todas as mulheres negras trabalham é afastado dos demais, assim como o banheiro que precisam utilizar, além de não terem acesso a determinadas informações por conta do gênero.

E a nível individual, cada uma precisa lidar com seu próprio obstáculo. Dorothy trabalha como supervisora do grupo de mulheres negras, apesar de não possuir o título oficialmente e sequer ter um salário que acompanhe a função. Katherine é recrutada para atuar no Grupo de Missão Espacial, no qual ela é a única mulher e a única negra (“Eles nunca tiveram uma negra aqui. Não me envergonhe”, diz a coordenadora de RH, Vivian Mitchell, vivida por Kirsten Dunst). E Mary Jackson é chamada para trabalhar no protótipo da nave Mercury, e é incentivada por seu supervisor (Olek Krupa) a participar do Programa de Treinamento de Engenheiros, que até então só era permitido aos brancos. Ou seja, nada será fácil.

Ainda assim, mesmo com os obstáculos do racismo e do machismo, elas decidem seguir em frente. Quando percebe que máquinas chegam à NASA para fazer o seu trabalho e das outras mulheres negras, Dorothy decide aprender a mexer com os aparelhos, a fim de garantir o emprego de todas elas. Para conseguir ser uma engenheira, Mary vai ao tribunal, para conseguir estudar em meio aos brancos para obter seu diploma. E Katherine, que além de enfrentar um ambiente hostil e de muita cobrança, ainda precisa tomar café de uma garrafa térmica separada e precisa andar mais de um quilômetro para usar o banheiro.

Aliás, as cenas em que precisa sair do escritório para ir ao banheiro são emblemáticas: embora elas se repitam, parece que a intenção do diretor Theodore Melfi é fazer com que tenhamos uma noção exata do que é não ser vista como um ser humano. Não só isso, o filme me fez pensar que, há cinco décadas, não era permitido que brancos e negros usassem o mesmo toalete. Hoje, não querem permitir que pessoas trans e cisgêneras façam suas necessidades no mesmo local. Eu me pergunto quem será a próxima vítima no futuro ou quando iremos aprender a não repetir a história.

E é após mais uma ida ao banheiro, dessa vez, embaixo de chuva, que Katherine tem a gota d’água. Ao ser perguntada por seu chefe, Al Harrison (Kevin Costner), aonde vai todos os dias, ela se cansa das humilhações as quais é submetida, o que leva seu superior a acabar com os banheiros separados para negros e brancos. “Aqui, na NASA, nosso xixi tem a mesma cor”, ele diz.

Outra cena que se destaca na fita é quando Dorothy e a senhora Mitchell, a qual não dá o cargo de supervisora a ela, se encontram no mesmo banheiro.

“Apesar do que você talvez pense, eu não tenho nada contra você”, fala a personagem de Kirsten Dunst.

“Eu sei. Sei que você provavelmente acredita nisso”, responde a personagem de Octavia Spencer.

Esse é um diálogo simbólico porque mostra como mulheres brancas, embora sofram com o machismo, nunca entenderão o que é ser uma mulher negra. Além disso, ele mostra como o racismo nem sempre é escancarado, mas pode vir de maneiras sutis, já que está enraizado na sociedade. Em um determinado momento, por exemplo, a senhora Mitchell diz às matemáticas que elas deveriam agradecer “por ter um emprego”.

“Estrelas Além do Tempo” é um filme divertido, mas que também emociona, e nos faz pensar no quanto caminhamos e no quanto ainda precisamos caminhar para construir uma sociedade igualitária.

As três protagonistas fazem um ótimo trabalho e possuem uma grande química juntas. Taraji P. Henson, junto com Amy Adams, foi outra atriz que merecia uma indicação ao Oscar.

Há 50 anos, é bem possível imaginar que Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson não imaginavam o quão longe iriam: a primeira, que ainda é viva, participou da missão que levou o homem à Lua, ganhou um prédio na NASA com seu nome, recebeu uma Medalha da Liberdade e viu um negro ser presidente de seu país. A segunda, tornou-se a primeira supervisora negra da história da NASA e é considerada uma das mentes mais brilhantes que já passaram na agência espacial. E a terceira foi a primeira negra americana a formar-se como engenheira aeronáutica.

A contribuição dessas mulheres para a história dos Estados Unidos não só é importante, como merecia ser contada. E melhor ainda, elas estão inspirando meninas a se interessar em ciência e tecnologia. Isso por si só já é motivo para que esse filme fosse feito.

Com certeza, uma obra para vermos várias vezes.