Crítica: “Corra!” é um dos mais inteligentes filmes indicados ao Oscar

02. Março 2018 Cinema 1
Crítica: “Corra!” é um dos mais inteligentes filmes indicados ao Oscar

Lançado quase na metade do ano passado, “Corra!”, do diretor Jordan Peele, é um dos mais inteligentes dentre os indicados a Melhor Filme no Oscar deste ano. Se “Três Anúncios Para Um Crime” falha ao abordar o racismo, essa produção se debruça sobre o preconceito e demonstra como ele é um verdadeiro filme de terror.

O longa narra o que poderia ser um fim de semana tranquilo para Chris (Daniel Kaluuya), que viaja com sua namorada para conhecer os pais dela. “Eles sabem que eu sou negro”, ele questiona. “Eles deveriam?”, ela rebate. Logo percebemos que Rose (Allison Williams) está animada para esse encontro, enquanto o protagonista está um pouco reticente. Ela tenta tranquilizá-lo, dizendo que se pudesse, seu pai votaria mais uma vez em Obama. Em outras palavras, ela tenta convencê-lo de que eles não são racistas.

E talvez essa seja a impressão que todos têm em um primeiro momento: Chris é recebido por abraços calorosos pelo casal Armitage (Bradley Whitford e Catherine Keener), os quais deixam claro o quão bem-vindo o rapaz é ali. Contudo, eles se esforçam demais e a coisa toda começa a ficar estranha. Especialmente quando os dois únicos negros, além do protagonista, são os empregados da casa (Betty Gabriel e Marcus Henderson) e agem de maneira fria e esquisita.

Conforme “Corra!” vai caminhando, vamos ligando os pontos e, ao final, entendemos o motivo para que o filme receba um nome no imperativo.

O filme de Jordan Peele é esperto e faz uma crítica cheia de sarcasmo à ideia de que viveríamos numa era pós-racial, ou como costumam dizer, numa ‘democracia racial’. Isto é, de que o racismo seria um problema superado, e brancos e negros convivem em paz e todos têm as mesmas oportunidades.

Esse discurso minimiza e apaga as vivências das pessoas negras, as quais lidam com o racismo diariamente, inclusive de brancos que se negam a dizer que são racistas. Esses agem como os pais de Rose, receptivos e contra qualquer tipo de discriminação. Mas é justamente por tentarem demais parecer ‘legais’, que o preconceito deles vai escorrendo. 

Chris vai lidando com uma série de micro-agressões, as quais demonstram como o racismo também pode ser sutil e menos escancarado. Isso confunde o nosso protagonista, o qual começa a duvidar de si mesmo e do que está acontecendo à sua volta. Mas, logo o papo de igualdade do casal Armitage cai por terra e o ódio ganha a cena. 

Por apresentar o racismo nas suas mais diferentes formas, Jordan Peele quis criar uma identificação entre os negros, assim como incomodar os brancos, para que eles também possam mudar sua postura.

“Em qualquer boa história, de quem quer que seja, você deveria ser capaz de se relacionar com o protagonista. Ao mesmo tempo, eu reconheci que as pessoas negras que assistissem ao filme teriam uma experiência diferente das pessoas brancas”, contou Jordan em entrevista ao NPR. “Quando eu pensava em uma cena ou momentos específicos, eu dizia: ‘eu espero que o público negro diga: ‘sabe de uma coisa? Essa é a minha experiência. Eu nunca a vi retratada em filmes dessa maneira. Isso é ótimo’. Mas reconheci, também, que muitas pessoas brancas assistiriam àquela cena e reconheceriam aqueles momentos como algo que eles talvez já tivessem feito, ou reconheceriam alguém que já tenha feito”.

É uma pena que a obra não tenha recebido a devida atenção na temporada de premiações. Talvez, “Corra!” não saia vencedor no Oscar, mas a sua relevância cultural já o tornou um dos filmes mais importantes do ano, especialmente por conta da presidência de Donald Trump. Nessa corrida por prêmios, Jordan Peele já conquistou o maior de todos.