Crítica: “Com Amor, Simon” é um filme fofo, que diverte e consegue emocionar

23. Março 2018 Cinema 0
Crítica: “Com Amor, Simon” é um filme fofo, que diverte e consegue emocionar

“Com Amor, Simon” chega aos cinemas nesse final de semana, trazendo uma história de amor adolescente diferente. E diferente, pois mesmo possuindo elementos conhecidos em filmes de comédia romântica, na obra dirigida por Greg Berlanti (“O Clube dos Corações Partidos”) o protagonista é um menino gay. O quão raro é vermos um longa-metragem com a perspectiva de um homossexual?

Simon (Nick Robinson), que dá nome ao filme, faz questão de deixar claro que ele é exatamente como todo adolescente da sua idade: vai ao colégio, tem ótimos amigos e pais normais. A única coisa “diferente” nele é o fato de ser gay, algo que ele mantém em segredo de todo mundo. Mesmo com 17 anos, o garoto entende e aceita sua orientação sexual, mas evita revelá-la por não saber exatamente como as pessoas à sua volta receberiam essa informação.

E se você faz parte de alguma identidade LGBT, esse questionamento provavelmente também passou pela sua cabeça em algum momento. Além disso, Simon também se pergunta: por que ele precisa assumir sua sexualidade, quando todos seus amigos não precisam fazer o mesmo?

O garoto convive bem com esse segredo até começar a trocar emails com outro menino, o qual usa o apelido de “Blue”, que escreveu no blog da escola um desabafo sobre ser gay e não poder contar a ninguém. Simon lê esse post e decide entrar em contato com o garoto, também de forma anônima. E o que era para ser uma troca entre duas pessoas que se entendem, acaba se tornando uma bonita amizade e, em seguida, um romance.

Contudo, esse espaço seguro é ameaçado quando um colega de Simon, Martin (Logan Miller), pega as conversas dos dois meninos e começa a chantagear o protagonista, ameaçando tornar a sexualidade dele pública, caso ele não o ajude a conquistar Abby (Alexandra Shipp). E daí para frente, começa a jornada de Simon por escolhas erradas e tentativas de descobrir quem é o garoto por quem se apaixonou.

“Com Amor, Simon” é fofo e sabe divertir. Para audiências LGBT, ele é ainda mais especial, justamente por oferecer um olhar para muitas questões que esse público já enfrentou e ainda enfrenta. Algumas das angústias do protagonista são muito parecidas com a de muitos gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans, como seu medo em relação à forma que seus amigos e familiares vão reagir quando ele revelar sua identidade. As coisas permanecerão iguais ou vão mudar? E se mudarem, serão boas? E um pouco além, ele ainda calcula quando, como e onde essa revelação acontecerá (todos nós já passamos por isso).

A seu favor, o menino tem uma mãe (Jennifer Garner) e um pai (Josh Duhamel) amorosos, com os quais ele têm uma ótima relação e tem certeza de que eles não teriam qualquer atitude negativa sobre sua sexualidade. Seus amigos, Leah (Katherine Langford), Nick (Jorge Lendeborg Jr.) e Abby também demonstram ser parceiros de verdade, e não parecem que vão se incomodar quando a verdade finalmente for dita.

Porém, a história de Simon pode deixar alguns incrédulos, afinal, nem todo LGBT vive em meios tão acolhedores e tranquilos, tampouco vive em casas enormes e confortáveis. Não só isso, é possível pensar que o personagem também preenche todos os requisitos para agradar o público heterossexual, pois Simon é um personagem muito heteronormativo, isto é, se parece com um garoto hétero. Será que o filme seria feito ou teria o mesmo apelo caso o personagem fugisse dessa caracterização? 

Ainda assim, “Com Amor, Simon” cumpre o seu papel de entreter e oferecer uma nova perspectiva a um gênero cinematográfico que carece de renovações. E o filme surge depois de grandes produções, como “Me Chame Pelo Seu Nome”, “Moonlight” e “Carol”, com a diferença de chegar a mais pessoas que os anteriores, os quais são obras consideradas “mais artísticas”. E assim como seus antecessores, a obra da 20th Century Fox dá um final feliz ao protagonista, algo que nós realmente precisamos ver: histórias de LGBTs que não terminam em morte ou violência. Outro ponto positivo é a diversidade racial do elenco principal, que me fez gritar de felicidade na poltrona do cinema. 

Do ponto de vista pessoal, apesar de certa distância do personagem principal, Simon me emocionou e me fez chorar. Em algumas passagens, vi muito da minha própria vida e de mim naquele garoto. Com certeza, o meu “eu” teria adorado ver essa obra no cinema aos 16, 17 anos. Mas agora aos 27, fico feliz de ver as transformações, ainda que lentas, acontecerem. É ótimo que jovens LGBT possam ter um filme para se inspirar e ver que todos temos direito a um final feliz e uma grande história de amor.

Tomara que mais filmes como esse apareçam, trazendo histórias também protagonizadas por lésbicas, bissexuais e pessoas trans. A arte tem poder de transformar e, por isso, espero que ela siga transformando o mundo. 

“Com Amor, Simon” já está em cartaz no cinema.