Crítica: “Carmen & Lola” retrata a descoberta do amor e da sexualidade entre duas garotas ciganas

24. outubro 2018 Cinema 0
Crítica: “Carmen & Lola” retrata a descoberta do amor e da sexualidade entre duas garotas ciganas

Não é incomum filmes que retratem a descoberta da homossexualidade de garotas, mas, com certeza, ao pensarmos nos exemplos mais conhecidos, logo virão às nossas mentes histórias protagonizadas por personagens brancas e, na maioria das vezes, com finais infelizes. “Carmem & Lola” muda esse cenário ao levar o protagonismo para duas ciganas. Carmem e Lola têm 17 e 16 anos, são de famílias humildes, e vivem na Espanha ajudando seus pais, também de origem cigana, que trabalham como feirantes.

Carmen vai ficar noiva e parou de estudar, já que não precisa aprender mais que o básico para ser uma boa dona de casa, e quer trabalhar como cabeleireira. Lola já tem sonhos mais altos: ela não quer se casar, mas continuar estudando (mesmo indo contra os desejos de seu pai) e se tornar professora. Ela já notou que sente desejo por garotas e vai a lan houses para entrar em sites pornôs lésbicos e em chats para conversar com outras garotas. Até então, ela nunca teve coragem de consumar seus desejos, muito provavelmente por ainda ter a ideia da homossexualidade ligada ao pecado, já que frequenta assiduamente a igreja com sua família.

Carmen e Lola se conhecem na feira onde trabalham ajudando seus pais e constroem uma cumplicidade em escapadas para fumarem escondidas. Depois, acabam descobrindo que Carmen está ficando noiva do primo de Lola e estreitam ainda mais essa amizade, tornando-se inseparáveis. Lola se apaixona por Carmen quase que instantaneamente, já a futura cabeleireira não demonstra a princípio sinais homoeróticos ou de bissexualidade, mas se sente encantada pelo que a amiga representa: a emancipação feminina. Apesar de estar prestes a se tornar uma dona de casa, ela não esconde sua insatisfação com os trabalhos domésticos e com as regras machistas impostas pela sociedade. Lola é o contraponto a tudo isso, talvez sendo quem ela queria ser e nunca teve a oportunidade.

É muito importante termos nesse tipo de história o olhar de uma mulher por trás das câmeras, e isso acontece em “Carmen & Lola”. A diretora Arantxa Echevarría é eficiente em dar um olhar feminino e não sexualizado para a narrativa. Toda a história das duas meninas é conduzida com muito cuidado. Arantxa dá atenção aos pequenos detalhes na construção desse amor proibido. Os primeiros toques, os primeiros olhares, as primeiras demonstrações de afeto – tudo isso é evidenciado de forma muito delicada pela câmera conduzida pela diretora. Destaque para a cena do noivado de Carmen, na qual a noiva chama Lola para dançar: cada detalhe e cada toque são transmitidos para o espectador de uma forma a entender muito bem o sentimento das garotas.

Apesar de ir pelo caminho da delicadeza em grande parte da narrativa, o filme fica mais pesado em seu ato final, com a descoberta de outras pessoas sobre o amor entre as protagonistas. O roteiro aborda a homofobia ainda tão presente em comunidades muito tradicionais. Cenas pesadas vêm à tela, como uma tortura psicológica sofrida por uma das protagonistas na tentativa de uma ‘cura gay’ na igreja.

Muito mais do que um filme sobre o crescimento do amor entre duas garotas, “Carmen & Lola” é uma história sobre libertação feminina dentro de cenários tão tradicionais. Carmen e Lola não queriam apenas amar, mas sim o direito de liberdade para serem o que quiserem e não ter o destino traçado por homens ou tradições.

 O Prosa Livre assistiu “Carmen & Lola” na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”. O filme ainda não tem data de estreia definida nos cinemas brasileiros.