Crítica: “Bumblebee” acerta na representação de minorias

27. dezembro 2018 Cinema 0
Crítica: “Bumblebee” acerta na representação de minorias

*Texto escrito por Ana Fernanda

[AVISO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DE “BUMBLEBEE”]

Charlie Watson (Hailee Steinfeld) é uma menina que está prestes a completar 18 anos e, de presente de aniversário, quer um carro. A menina acaba conseguindo através de um tio, mas acaba descobrindo que seu presente não é apenas um carro: é Bumblebee.

O filme não tem apenas Charlie como protagonista, mas também o próprio Bumblebee, com quem divide os holofotes. As vidas dos dois se unem, mesmo que ambos sejam completamente diferentes. Enquanto Charlie é uma típica adolescente que passa por perrengues com a sua família, Bumblebee está em uma missão de proteger o planeta Terra, sendo essa parte do plano de Optimus Prime para derrotar os Decepticons.

“Bumblebee” fala sobre amizade de uma maneira leve encantadora. As piadas diminuíram (apesar de alguns personagens ainda nos fazerem rir algumas vezes) e, pela primeira vez, um filme inteiro da série “Transformers” não faz nenhuma piadas preconceituosa, que ofenda alguma minoria social.

Eu, particularmente, gostei muito dessas mudanças. Em todos os outros filmes da franquia, a relação entre os Autobots e os protagonistas (todos humanos) das tramas, não era explorada, e sim as lutas que pareciam não ter fim. Agora, não apenas um Autobot divide o protagonismo com uma humana, como lado afetivo é aprofundado. E não há um Autobot com instinto de amizade, e que não perca o fio da meada da luta e de suas missões, igual ao Bumblebee.

E para falar um pouco mais sobre os motivos de tal mudança, é preciso olhar para a equipe por trás das câmeras. Diferentemente dos outros filmes da série, quem dirigiu “Bumblebee” não foi Michael Bay (“As Tartarugas Ninja”), mas Travis Knight (“Kubo e as Cordas Mágicas”), que tem muito mais experiência em dirigir animações e stop-motions, enquanto a especialidade de Bay é dirigir filmes de ação e de terror. Por isso, o filme acabou ganhando tendo um olhar para família e amizade. Dessa maneira, a produção atendeu aos desejos dos fãs, que não só pediam mudanças na franquia, como também detalharam quais mudanças queriam.

Não se pode esquecer uma das melhores coisas do filme, que também é bem diferente dos outros: a trilha sonora. Ela dá reforça o clima de anos 80, com The Smith, Rick Astley e muitos outros artistas que marcaram uma geração.

Representatividade de minorias – Já falamos que Charlie constrói uma relação de amizade pura e verdadeira com Bumblebee. Mas sua narrativa passa longe de se resumir a apenas isso. Ela é uma personagem complexa e muito bem explorada na trama (o que é representativo, já que muitas personagens femininas, inclusive em outros filmes da série “Transformers”, são poucos exploradas e com passados pouco desenvolvidos, resumindo-se a apenas a pares românticos do herói masculino). Ela perdeu o seu pai quando era mais jovem e, desde então, sua mãe se casou com outro cara e construiu uma nova família, a qual Charlie não gosta muito. A sociedade (principalmente sua família, o que inclui sua mãe) a obriga a sorrir e lavar a louça, coisas típicas do estereótipo de uma mulher. Mas Charlie quer saber mesmo é de mecânica e de mexer com carros, além de passar longe de guardar seus sentimentos e apenas sorrir diante da situação, agindo como uma típica adolescente de 18 anos.

Apesar disso, o filme falha em um aspecto do feminismo, que é o da união feminina: os inimigos de Charlie são, em sua maioria, mulheres.

Uma delas é a líder dos Decepticons, Shatter, uma personagem que merece uma análise maior. Para começar, quem dá voz a Shatter é uma atriz negra, Angela Bassett (“Pantera Negra”). Já houve mulheres não brancas com papéis de destaque em “Transformers”, porém, nenhuma mulher negra como agora. Angela Bassett, mesmo dando voz a um robô gigante, é a primeira. E já é uma negra retinta.

E já que estamos falando de representatividade negra, temos que falar do Memo (Jorge Lendeborg Jr). Ele não o primeiro personagem negro e latino da série de filmes, mas é o primeiro a ser muito mais do que um alívio cômico. Se comparado a outros personagens de pele escura que apareceram em outros filmes da série dos “Transformers”, Memo é uma evolução e tanto. É mais complexo e tem mais contribuições do que os outros anteriores a ele.

E isso sem falar que ele fala, mesmo que de maneira indireta e incompleta, do relacionamento, da questão do amor para os negros. O roteiro do filme poderia muito bem encaminhar para que Howie, um garoto branco, acabasse namorando Charlie no final. Contudo, ela fica com Memo, o primeiro personagem negro de toda a história da série de filmes a ter um relacionamento amoroso.

Ainda sobre Memo, o roteiro tem um pequeno defeito: ele poderia muito bem ter sido melhor aproveitado, tornando-se, o primeiro protagonista negro de “Transformers”. Sua presença é colocada em segundo lugar em vários momentos na trama. Acredito que não deva demorar para que franquia coloque algum protagonista negro pela primeira vez, já que nesses últimos tempos, as minorias começaram a ter mais voz, principalmente por conta da internet.

Por fim, não tem como não falar dele: Bumblebee. E o que ele teria a ver com representatividade? Simples: ele tem deficiência (na voz). O filme merece uma nota 1.000 quando fala de pessoas (ou melhor, alienígenas robôs gigantes vindos do planeta Cybertron) com deficiência. Diferentemente do que muitos pensam, muitas pessoas com deficiência não nascem com ela, mas a adquirem. É o caso de Bumblebee, que até explica isso de um jeitinho bem legal para aqueles que ainda não entendem. E a maneira com que ele lida com a sua deficiência representa muitos humanos com deficiência (o que pode nos fazer pensar na teoria de que existe capacitismo, preconceito em relação às pessoas com deficiência, em Cybertron).

No começo, ele tem vergonha, se sente triste por perder a voz. Mas, com a acessibilidade dada por Charlie, ele aprende a usar o sistema de rádio para poder se comunicar. Isso sem falar que o filme deixa muito claro que ele não é surdo (apesar de muita gente realmente acreditar que pessoas surdas são mudas também e vice-versa). E outra coisa que a trama deixa bem claro é que ele não é um inútil, e prova que um personagem com deficiência pode ser sim um grande guerreiro.