Crítica: “Bohemian Rhapsody” sacode você, mas evita se aprofundar na vida de Freddie Mercury

04. novembro 2018 Cinema 0
Crítica: “Bohemian Rhapsody” sacode você, mas evita se aprofundar na vida de Freddie Mercury

Freddie Mercury, vocalista da banda Queen, é um ícone adorado por pessoas no mundo todo, e cuja trajetória é muito bem conhecida – pelo menos por aqueles que cresceram entre as décadas de 70 e 80. Assim, recontar a vida do ícone, que morreu em 1991, e do grupo musical não seria uma tarefa fácil, e “Bohemian Rhapsody” o faz de maneira superficial, ainda que emocione bastante em diversos momentos.

O filme tem início com um flashback: Freddie Mercury (Rami Malek) se prepara para a grande performance do Queen no evento Live Aid, de 1985. Enquanto caminha entre os gatos de sua casa até o backstage da apresentação no estádio de Wembley, o hit “Somebody to Love”, um música sobre a procura de um amor para curar a solidão, acaba tornando-se a questão central para o longa-metragem e para o artista, que busca incessantemente uma forma de aliviar o medo do abandono.

Em seguida, vemos o jovem Farrokh Bulsara, nome verdadeiro do cantor, trabalhando como carregador de bagagens em um aeroporto. E se o trabalho não o satisfaz, a relação com a família também não parece ser das melhores, já que o rapaz não  curte tanto as regras do seu rigoroso pai, de origem pársi. Em uma de suas noites fora de casa, ele conhece a doce Mary Austin (Lucy Boynton), com quem se casaria posteriormente, e seus colegas de banda, Brian May, Roger Taylor e John Deacon, com quem formaria o Queen. Daí em diante, o filme cobre o sucesso meteórico da banda e o que acontecia quando as luzes do palco se apagavam.

Na verdade, dizer que “Bohemian Rhapsody” faz uma cobertura da vida de Freddie Mercury e do Queen seria injusto, já que a obra apenas faz uma pincelada por alguns dos momentos que marcaram a existência da banda. Aliás, com uma certa liberdade do roteiro, que erra a data da apresentação do grupo no Rock in Rio no Brasil, além da data de diagnóstico de HIV no músico (no filme, ele é diagnosticado em 1985, quando a doença só foi detectada em 1987). Nem mesmo a relação de Mercury com Mary é muito aprofundada: eles se conhecem, começam a namorar e ele a pede em casamento porque, segundo ele diz, é a única pessoa que o conhece de verdade. Porém, isso nunca fica visível na tela, nós somos apenas convidados a acreditar no que Freddie diz.

Quanto às músicas, para quem queria conhecer mais sobre como elas surgiram, talvez fique frustrado. O roteiro de Anthony McCarten não se preocupa tanto em mostrar o processo de produção e composição das músicas do Queen. Apenas a faixa que dá nome ao filme, que rende uma divertida sequência na película, é que ganha um tratamento especial. “Love of My Life”, música que vocalista fez para Mary, “We Will Rock You” e “Another Bites the Dust” ganham pouquíssimas explicações. No geral, as canções não funcionam como ‘personagens’ da narrativa, apenas estão ali, pois, afinal de contas, se trata de um musical do Queen.

Mas um aspecto muito mal trabalhado em “Bohemian Rhapsody” é a sexualidade de Freddie Mercury. Se ele é gay ou bissexual, não se sabe, e parece que não há muito interesse em responder a essa pergunta. Os casos do músico com outros homens eram muito conhecidos, mas na telona, isso é retratado de forma bem superficial e implícita. Há pouquíssimos momentos em que ele se confronta com a sua sexualidade, como quando vê um homem entrando em um banheiro masculino e o persegue com o olhar. Se ele o seguiu, fica por conta do telespectador decidir. Em outro momento, Freddie e Mary estão prestes a terminar o casamento, quando ele diz a ela que é bissexual e Mary responde que ele é gay. E assim fica definida a orientação sexual dele, muito embora o artista nunca tenha se rotulado de nenhuma maneira.

Os encontros com outros homens, e a relação com um membro de sua equipe, Paul Prenter (Allen Leech), nunca são explicitados. Nem mesmo a relação com Jim Hutton (Aaron McCusker), com quem Freddie viveu os últimos anos de sua vida, ganha tempo muito tempo de cena. É como se “Bohemian Rhapsody” evitasse abordar essa parte da vida do cantor, para que o longa-metragem fosse ‘palatável’ a um número maior de pessoas. É um movimento muito decepcionante do diretor Bryan Singer (“X-Men”), que foi substituído por Dexter Fletcher (“Voando Alto”), pouco antes do fim da produção (Singer foi demitido por conta do seu comportamento errático) e do roteirista Anthony McCarten.

Apesar desses problemas, Rami Malek dá o seu melhor no papel principal, fazendo uma ótima interpretação de Freddie Mercury e seus maneirismos e postura chamativa. O ator ofusca seus colegas de elenco, que também se saem bem na pele de Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello). Aliás, a caracterização de Gwilym Lee do guitarrista Brian May está impecável.

E, ao final, “Bohemian Rhapsody” emociona. Embora não se aprofunde na história de Freddie Mercury, o filme permite uma conexão com o personagem principal – méritos ao trabalho de Malek – , uma estrela que buscava de todas as formas um antídoto para a solidão que sentia. É quando finalmente gosta de si, que ele se redime e se liberta dos demônios que o aterrorizavam. E vale dizer: é impossível ficar com os pés parados ao ouvir os hits que marcaram época e seguem imortais, graças ao talento e ousadia dessa banda que vai viver para sempre.