Crítica: “Aniquilação” e a autodestruição

15. abril 2018 Cinema 0
Crítica: “Aniquilação” e a autodestruição

Feito para o cinema, “Aniquilação” viu sua estreia acontecer apenas nas pequenas telas fora dos Estados Unidos. Depois de fazer testes com o público, a Paramount decidiu vender os direitos internacionais do filme para a Netflix, pois achou a obra do cineasta Alex Garland “muito intelectual”.

De fato, “Aniquilação” não é um filme fácil de entender. Depois de assisti-lo, é normal ficar com o sentimento de “o que eu acabei de ver?” e buscar respostas na internet. Contudo, o longa-metragem traz mais perguntas do que conclusões: afinal, o que é o “Brilho”? O que realmente acontece no final?

Na obra, Natalie Portman é a bióloga e professora Lena, uma mulher que luta para aceitar o desaparecimento do marido, o soldado Kane (Oscar Isaac). Já se passou um ano desde que ele sumiu e dado como morto pelo governo americano. Misteriosamente, Kane retorna, mas muito diferente: além de debilitado, ele não parece se lembrar de nada e é evasivo em suas respostas para Lena, que busca entender o que aconteceu no período em que esteve longe.

Em seguida, os dois são levados para uma espécie de quartel perto da Área X, também chamada de “Brilho”, onde o soldado realizou sua última missão. No local, Lena conhece a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh), uma psicóloga que explica a ela que drones e expedições foram enviadas para dentro do “Brilho”, mas nada sai de lá ou volta com vida. A única exceção foi o marido dela.

Lena sente que deve algo a Kane e se voluntaria para adentrar o lugar que é revestido por uma parede colorida e brilhante. Ao lado dela está a Dra. Ventress e outras três mulheres: a paramédica Anya (Gina Rodriguez), a física Josie (Tessa Thompson) e a geologista Cass (Tuva Novotny). Apenas equipes compostas por homens se arriscaram a entrar no local, por que não um time só de mulheres, não é mesmo?

“Aniquilação” tem um ritmo lento, que apenas acelera em cenas de terror, como naquela sequência “do urso”. Por vezes, a experiência se torna um pouco cansativa, mas Alex Garland consegue capturar nossa atenção e nos fazer questionar o tempo todo, já que o filme não apresenta respostas fáceis, como disse anteriormente.

O elenco principal faz boas atuações, embora eu tenha sentido que Jennifer Jason Leigh e Tessa Thompson foram pouco aproveitadas pelo diretor. Natalie Portman é quem se destaca, nos guiando para dentro de sua cabeça e em sua busca por entender aquele pedaço de mundo tão complexo.

Ainda sobre a personagem de Natalie, Lena decide entrar no “Brilho”, pois sente que deve algo ao marido, que passa mal e fica desacordado por quase toda a película. A narrativa não-linear nos permite entender melhor sua motivação: ela traiu seu marido, que vivia em constantes viagens por conta de suas missões. Sentindo-se sozinha por um homem que colocou a carreira acima do casamento, a bióloga vive um affair com um colega de trabalho, mas logo se arrepende. O que leva Lena a arriscar sua vida é a culpa que sente por tentar destruir seu próprio casamento.

Aliás, a autodestruição é o tema central de “Aniquilação”, que desde o começo toca no assunto. Quando Lena questiona a Ventress sobre o motivo para seu marido participar de uma ‘missão suicida’, a psicóloga rebate:

“Quase ninguém comete suicídio, mas quase todos nos autodestruímos”, diz a Dra. Ventress em certo momento. “De alguma maneira. Em alguma parte de nossas vidas. Nós bebemos, usamos drogas, desestabilizamos um emprego bom ou mesmo um casamento feliz”.

Outros exemplos estão nas cientistas que acompanham Lena: Anya é uma mulher sobrevivente ao vício, enquanto Josie carrega várias cicatrizes em seus braços, resultado de sua luta contra uma possível depressão. Cass é uma mulher sem nada a perder depois da morte de sua única filha. Ou seja, a ida até o “Brilho”, é uma tentativa de sentir algo, ainda que ela não sobreviva à experiência. E a Dra. Ventress possui câncer, portanto, ela é mais uma que não tem nada a perder com a tarefa.

Ao que parece, o filme parece tentar nos convencer que a autodestruição é algo inerente aos humanos, e que estaríamos todos, em maior ou menor grau, buscando uma forma de nos autodestruirmos. A forma como as mulheres vão morrendo, uma a uma, ao longo da trama, também nos faz refletir sobre a consequência de nossos atos (ou falta deles) enquanto vamos nos destruindo.

Soa deprimente, pois somos obrigados a nos questionar se estamos todos buscando uma maneira de nos destruirmos? E indo além: fazemos isso para quê? Para fugir da vida ou para sentirmos qualquer coisa? Em um sentido mais amplo, também vamos nos destruindo com todas as guerras e poluição do nosso planeta, não estamos?

“Aniquilação” não traz respostas, mas faz você piscar e se questionar o tempo todo. Nesse sentido, é uma ficção-científica que faz jus ao seu título. Qual a sua teoria sobre ele?