Crítica: “Alex Strangelove” é uma doce história sobre ‘sair do armário’

01. julho 2018 Cinema 0
Crítica: “Alex Strangelove” é uma doce história sobre ‘sair do armário’

Filmes adolescentes raramente acertam ao retratar essa fase da vida em que tudo parece mais urgente e confuso. E se você é LGBTQ, há pouquíssimas chances de encontrar alguma produção que converse com quem você é. “Com Amor, Simon” veio para ajudar a preencher essa lacuna. E, agora, também temos “Alex Strangelove”, da Netflix para ocupar esse espaço.

Alex Truelove (Daniel Doheny) é o protagonista que dá nome ao filme, e é um menino que facilmente poderia ser um de seus amigos. O garoto é fofo, nerd, tem uma grande paixão por animais, possui várias neuras e sabe conversar, o que fez dele representante dos alunos no colégio onde estuda. Ah, e ele tem uma namorada, a doce, inteligente e divertida Claire (Madeline Weinstein), com quem grava uma websérie no Youtube e divide todos os bons e maus momentos. Tudo parece bem em sua vida, exceto pelo fato de que ele ainda não transou com a menina.

Aliás, o fato de não ter feito sexo com a namorada ainda é o menor dos problemas para o casal, embora Claire admita que os dois não tenham conseguido ser íntimos a esse ponto por uma relutância dele. E porque esse é um mundo que diz que meninos que não transam são gays, logo começam as suspeitas acerca da sexualidade de Alex. Assim, o menino internaliza uma grande pressão para perder sua virgindade, tornando-se paranoico sobre a questão, chegando até a questionar o motivo pelo qual tudo precisa ser resumido a sexo hoje em dia.

O garoto, então, decide que vai dormir com a namorada. Ele faz planos, cria expectativas, fica aterrorizado, mas continua firme em seu propósito de perder a virgindade com Claire, afinal, é natural, não? Eles estão juntos há algum tempo, por isso, seria normal que esse fosse o próximo passo. Porém, Alex não consegue ficar confortável com a ideia. E no meio dessa ansiedade toda, os sentimentos começam a ficar confusos quando ele conhece Elliot (Antonio Marziale), um menino que é um ano mais velho e que está muito bem com o fato de ser gay. Conforme se aproxima de Elliot, Alex percebe que seu desejo não está direcionado à Claire, mas ao novo amigo. E é aí que tudo se complica na cabeça do nosso protagonista.

“Alex Strangelove” captura de forma doce e bem humorada a confusão da adolescência e de um menino que trava uma luta interna para entender seu desejo e ficar em paz com ele. Seria ele hétero? Gay? Bissexual? Não dá para saber a princípio, pois Alex não se permite experimentar,  apesar de sua evidente curiosidade sobre Elliot. Infelizmente, o filme também não oferece muitos momentos entre os dois para que os sentimentos entre eles sejam desenvolvidos de maneira mais aprofundada.

Porém, pelo pouco tempo que passa com Elliot, Alex começa a considerar que seja bissexual, uma vez que ele ainda tem sentimentos por Claire. O menino vai até seu melhor amigo Dell (Daniel Zolghadri) em busca de conselhos e contar o que vem sentindo, mas ele não não é grande ajuda. “Ninguém mais é hétero hoje em dia?”, pergunta Dell, como se fosse um desses comentaristas de portal de notícias. Seu personagem recai no estereótipo do melhor amigo que serve como alívio cômico e que pouco acrescenta à trama. Aliás, quase todos os personagens secundários não têm muita história para contar, com exceção de Claire.

Claire é muito bem interpretada por Madeline Weinstein, que consegue transmitir muita emoção e verdade com a personagem. Especialmente nos momentos em que é mais vulnerável e no final do filme, quando tem uma conversa franca com o (ex) namorado sobre o que tem acontecido com ele, já que eles já não conseguem mais ter uma relação. O diretor Craig Johnson aproveita a menina para mostrar o outro lado da moeda: sim, Alex está sofrendo, mas aqui também está uma menina com o coração partido por ter de abrir mão de um amor que nunca poderá ter. É uma cena sensível e que funciona bem, graças à boa atuação da dupla de protagonistas (principalmente Madeline).

“Alex Strangelove” ganha pontos, também, por retratar adolescentes mais próximos da realidade: eles xingam muito, bebem álcool, fumam maconha, transam e se metem em enrascadas muito mais frequentemente do que um adulto gostaria de admitir. 

Porém, o filme peca um pouco em não responder algumas perguntas que ele mesmo faz: como fica a relação de Alex com seus pais? Ele vai contar ou não para eles que é gay? Ele vai ou não para a universidade com Claire? O que acontece com a mãe da menina, que tem câncer, mas depois é esquecida? Além disso, seria interessante ver uma obra cinematográfica apresentar um personagem bissexual ou de outra orientação sexual/identidade de gênero. Depois de “Me Chame Pelo Seu Nome” e “Com Amor, Simon”, aqui temos mais um filme sobre a experiência de um homem gay branco. Todas são boas produções, mas existem mais identidades a serem abordadas por Hollywood.

Dito tudo isso, se você for LGBTQ, é possível que você crie uma conexão com Alex, pois todos vivemos em uma sociedade em que a heterossexualidade é a norma, e quando você foge disso, tudo fica muito confuso e complicado. Descobrir e aceitar sua própria sexualidade nem sempre é fácil. Às vezes, você acaba em diversas situações em que Alex se coloca e tenta muito ser algo que não é. E isso acontece até você entender que ser diferente, embora difícil, não é algo errado.  

Ao final, temos Alex e vários youtubers gravando suas próprias histórias sobre ‘sair do armário’, mostrando que essa é apenas uma história no meio de tantas. E a grande lição talvez seja essa: escreva você a sua própria história.