Com o álbum “Lobos”, Jão não corre mais perigo de morrer sozinho

27. agosto 2018 POP 0
Com o álbum “Lobos”, Jão não corre mais perigo de morrer sozinho

“Ai, meu Deus, eu vou morrer sozinho”. É isso o que Jão canta em “Vou Morrer Sozinho”, faixa que abre seu primeiro álbum, chamado “Lobos”, lançado há pouco mais de uma semana. Mas a julgar pelo sucesso que o cantor vem fazendo com o disco, é seguro afirmar que a solidão não será mais um problema para ele.

Foi a internet que deu a Jão a plataforma que ele tem hoje, pois foi ao postar vídeos cantando músicas de outros artistas, que o rapaz começou a conquistar visibilidade e público. Logo vieram as músicas autorais: “Dança Para Mim”, “Álcool” e “Ressaca”, as quais o ajudaram a se tornar ainda mais conhecido – especialmente pela última, que já conta com mais de 7 milhões de visualizações no Youtube e mais de 6 milhões de acessos no Spotify. Mas foi mesmo com “Imaturo”, lançada no começo do ano, que o músico do interior de São Paulo ficou grande demais para ser ignorado.

Agora com um contrato com o estúdio Head Media, parceira da Universal Music, Jão vem com um álbum de estúdio autoral, cantando sobre as dores, confusões e, porque não dizer, as delícias da geração da qual faz parte. “Lobos” traz muitas letras tristes e verdadeiras, que segundo o próprio artista, refletem muitas experiências vivenciadas por ele. Além disso, o trabalho é essencialmente pop e mistura algumas sonoridades diferentes, permitindo que Jão explore sua versatilidade e flerte com outros gêneros musicais.

Boa parte de “Lobos” é sobre o amor, mas diferente daquele amor idealizado e que nos faz suspirar (como faz o primeiro disco do duo Anavitória), aqui vemos e ouvimos o cantor mostrar suas inseguranças, fragilidades e dificuldade em seguir em frente. “Vou Morrer Sozinho”, primeiro single do material, entra nessa pegada mais ‘pessimista’, mas real. E, ao mesmo tempo em que deprime, nos faz dançar.

A música tem uma sonoridade bem brasileira, com versos que podem fazer os mais desanimados com o amor a gritar nos shows o medo que sentem em se envolver com alguém de novo. Amar requer se abrir e ser vulnerável, mas Jão não parece estar preparado para isso ainda e, talvez por uma autossabotagem, prefira “gostar de quem não gosta de mim” (quem nunca?), em vez de se permitir estar com uma pessoa que realmente o queira.

A tristeza e a frustração com os relacionamentos dão o tom ao álbum, o qual traz Jão sofrendo e expressando esses sentimentos de maneira sincera e até natural. Nesse sentido, “Me Beija Com Raiva”, “Ainda Te Amo”, “Eu Quero Ser Como Você” e “Aqui” cumprem bem o seu papel e trazem o cantor em toda sua vulnerabilidade e medo: da solidão, de ser esquecido e de desapegar de algo que já “foi o maior amor do mundo”. 

Mas nem só de melancolia vive o homem: “Lobos” traz algumas faixas mais alegres, como “Lindo Demais”, a qual apresenta o jovem cantor declarando seu amor para todo mundo ouvir. A canção não possui gênero, mas pode facilmente ser considerada um hino à comunidade LGBT, já que Jão evita usar pronomes, e diz nos versos iniciais: “o seu pai me odeia/ e o mundo odeia o nosso amor/ te ver na madrugada tem um gostinho de pavor”. Em tempos em que a homofobia ainda se faz muito presente na vida de gays e lésbicas, por que não pensar que Jão estaria se referindo a um amor ainda tão marginalizado?

O disco também traz músicas sobre liberdade, em “Lobos” e “A Rua”, e de empoderamento, se assim podemos classificar “Monstros”. Nas primeiras, o cantor quer sair sem rumo, sem se prender a nada e a ninguém, como se estivesse tentando se encontrar nessa bagunça que é a vida. Na última, que fecha o seu primeiro álbum, ele resume de maneira bonita o processo de amadurecimento, que envolve o medo de arriscar e de trocar aquilo que já se conhece por algo novo. A insegurança pode bater, mas a mensagem aqui é a de esperança: ninguém evolui se ficar no mesmo lugar.

Com “Lobos”, Jão canta sobre sentimentos e situações muito reais, ainda que se repita um pouco em algumas letras. Porém, nada que diminua o valor do seu trabalho, já que tudo no material parece muito orgânico e até diferente do que o pop brasileiro vem produzindo. Se no começo do disco o artista tem medo de morrer sozinho, na última faixa, “Monstros”, ele sabe que pode correr “com meus lobos” e formar a sua própria alcateia.