Crítica: “A Freira” cria boa ambientação de terror, mas peca no roteiro

08. setembro 2018 Cinema 0
Crítica: “A Freira” cria boa ambientação de terror, mas peca no roteiro

O cinema de terror foi marcado no ano de 2016 pelo filme “Invocação do Mal 2” e pela assustadora freira que perseguia a personagem Lorraine. Caindo nas graças (e no pavor) do público, não demorou para a freira demoníaca ter seu próprio filme de origem confirmado (o que já havia acontecido com a boneca Annabelle antes), expandindo assim franquia “Invocação do Mal”.

Então, com muitas expectativas, o filme “A Freira” estreia nos cinemas. Na história, uma jovem freira de um misterioso convento recluso se suicida e o Vaticano chama o Padre Burke, um especialista em investigações sobrenaturais, e Irene, uma noviça prestes a realizar seus votos finais, a irem até a Romênia para investigar o caso de suicídio. Lá, eles conhecem Frenchie, jovem que encontrou o corpo da jovem freira e, juntos, entram no convento para desvendar seus mistérios.

É importante frisar que essa não é a história de origem da famosa freira (apesar de termos alguns flashbacks mostrando sua origem) como muitos esperavam. Assim como aconteceu no primeiro filme “Annabelle”, somos situados em um momento no qual a entidade já está presente e esse talvez já seja um primeiro incômodo para alguns, que esperavam uma história abordando a origem da personagem.

A direção do filme fica por conta de Corin Hardy, e esse é um dos grandes pontos altos do longa. O diretor sabe como conduzir a câmera, usando bons planos e uma boa movimentação, assim criando uma ótima ambientação de medo e terror. Corin Hardy também faz alguns planos muito bonitos de se ver, destaque para a cena onde as freiras estão todas ao chão da capela rezando com seus hábitos pretos e Irene está ao centro delas, com o hábito branco de noviça. O diretor faz um plano aberto filmado de cima, o que fica interessante e artístico, mas sem perder o ar tenebroso. A direção de arte é outro ponto positivo de “A Freira”. Toda a construção do convento recluso foi muito bem pensada e construída, trabalhando muito bem com os planos do diretor para construir essa ambientação de terror. Em alguns momentos, isso é tão bem construído que você se sente como se estivesse dentro daquele lugar – o que é importante em um filme que se passa quase que em apenas um ambiente, criando essa imersão total do espectador.

Se a direção é feliz no seu trabalho de ambientação, não podemos dizer o mesmo do roteiro. “A Freira” não constrói bem seus personagens principais, conhecemos um pouco do passado dos três protagonistas, mas em nenhum momento nos ficam claras suas verdadeiras motivações. Principalmente quando pensamos na personagem Irene, que seria a grande força feminina da trama: não se entende muito o motivo dela estar ali, qual a sua verdadeira ligação com a entidade demoníaca e o que fez o Vaticano mandá-la para essa missão. Tudo acontece rápido demais e algumas cenas não parecem ter um motivo real para estarem ali, pois nem para assustar elas servem.

Os personagens abusam de todos os clichês ruins dos filmes de terror: se separam quando claramente deveriam permanecer juntos, confiam em pessoas que não deveriam e ficam paralisados quando deveriam correr ou tomar alguma atitude. Talvez, com o sucesso de “It: A Coisa” no ano passado, que misturava bem os gêneros de terror, comédia e aventura, os roteiristas de “A Freira” acharam que seria bom ter um alívio cômico na história, mas diferentemente do filme do palhaço, onde as coisas funcionam e o roteiro sabe diferenciar os tons, aqui isso não acontece. O personagem Frenchie é o responsável pela tentativa de tirar risadas do público, pois o rapaz toda hora solta uma frase “engraçadinha” ou toma alguma atitude que pode gerar risos. Isso é complicado, pois o filme vai criando uma tensão e de repente toda essa construção de suspense não vai para lugar nenhum e ainda é quebrada por uma tentativa de nos fazer rir.

É uma pena que uma personagem com tanto potencial não tenha tido um filme à altura de “Invocação do Mal”. Apesar disso, é bom lembrar que quem interpreta a protagonista de “A Freira” é Taissa Farmiga, irmã de Vera Farmiga, a Lorraine de “Invocação do Mal”. Como as duas são muito parecidas, acaba-se criando uma ligação entre os filmes e entre as personagens mesmo que subjetivamente, o que é um ponto positivo. Mas as boas ligações entre os filmes acabam aí: uma péssima introdução (como aqueles previously no início dos episódios de séries) é usada para relembrar os acontecimentos de “Invocação do Mal 2” e a ligação final entre os dois filmes também é bem mal construída e não convence totalmente.

Se você não está esperando muito de “A Freira” e quer apenas um terror despretensioso e alguns sustos, talvez esse filme seja uma boa opção para você assistir e se divertir no cinema. Mas se você estava esperando uma boa história de origem dessa personagem e algo no nível de “Invocação do Mal”, vai se decepcionar, já que mesmo com os esforços da direção e uma ótima direção de arte, “A Freira” peca em sua construção de roteiro e personagens.