Crítica: “A Favorita” é uma obra-prima moderna protagonizada por três fortes mulheres

18. outubro 2018 Cinema 0
Crítica: “A Favorita” é uma obra-prima moderna protagonizada por três fortes mulheres

O diretor grego Yorgos Lanthimos nunca agradou a todos: seja a crítica ou o público, seus trabalhos anteriores, como “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” sempre dividiram opiniões. O mesmo, porém, não vem acontecendo com seu mais novo longa-metragem, “A Favorita”. Exibido com elogios no Festival de Veneza, ele já vem recebendo críticas positivas quase unânimes, sendo um dos grandes candidatos a indicações ao Oscar 2019 – e pode ser considerado uma obra-prima moderna do cinema.

Em “A Favorita”, vemos marcas já conhecidas de Lanthimos, como a violência, cenas absurdas, a comédia mais pesada, mas tudo com um tom de moderação acertada. Parece que o diretor conseguiu dosar bem esses elementos em um tom perfeito. Outro grande acerto é a escalação e direção das atrizes Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

Olivia Colman é a grande protagonista do filme, interpretando a Rainha Anne (curiosamente, também veremos a atriz em breve nas telinhas como uma grande monarca, já que ela irá substituir Claire Foy como a Rainha Elizabeth na 3ª temporada de “The Crown”), no fim do século XVIII, com a Inglaterra em guerra com a França. A rainha tem dificuldades em governar e tomar decisões sozinha, e se mostra bem fragilizada e dependente de sua fiel escudeira Lady Sarah (papel de Rachel Weisz). Tudo muda com a chegada da prima dessa personagem, Abgail (interpretada por Emma Stone): a garota começa a descobrir segredos e não mede esforços para se aproximar da rainha, iniciando uma disputa para decidir quem será a favorita de Anne.

O filme é totalmente conduzido por essas três personagens femininas e os homens na história são propositalmente fantoches conduzidos por essas mulheres. O personagem masculino que chega a ter maior destaque é Robert Harley (interpretado por Nicholas Hoult), mas em nenhum momento ele conduz a trama, como fazem as protagonistas. Nem para satisfação sexual essas mulheres precisam deles, já que a disputa e o desejo sexual (que vem acompanhado do desejo pelo poder) entre elas é muito maior do que pelos homens.

A misancene construída por Lanthimos é perfeita para refletir todo esse jogo de desejo e poder situado no século XVIII. A trilha sonora clássica e forte, comum nos trabalhos do diretor, está aqui presente, casando com uma montagem que beira à perfeição. A trama é dividida em capítulos, o que facilita a condução das duas horas de duração do longa-metragem. No ato final, quando parece que a maioria dos conflitos já está resolvida, passa-se uma sensação de quebra de ritmo, que é contornada com uma cena final pesada e marcante.

Sendo quase certeza nas principais categorias do Oscar 2019, o diretor Yorgos Lanthimos se afirma como um dos grandes nomes da indústria cinematográfica atual com “A Favorita”. Ainda utilizando de suas características tão singulares vistas em seus filmes anteriores, mas com uma dosagem precisa, moderada e acertada em um filme que consegue ser cômico e trágico ao mesmo tempo.

O Prosa Livre assistiu “A Favorita” a convite da 42ª Mostra Internacional de Cinema e da Fox Film. O filme está em exibição na Mostra, que ocorre dos dias 18 a 31 de outubro em São Paulo. Ainda não há data de lançamento oficial definida para os cinemas brasileiros.