Crítica: “A Cabana”

19. Abril 2017 Cinema 0
Crítica: “A Cabana”

Lançado há 10 anos, “A Cabana” foi um livro que fez muito sucesso, narrando a jornada de cura de um homem que perdeu sua pequena filha de maneira brutal. Em 2017, a obra finalmente ganha uma adaptação cinematográfica, dirigida por Stuart Hazeldine (“Exame”).

Para quem não está familiarizado com a história, o longa-metragem acompanha Mack Phillips (Sam Worthington) em sua luta contra a depressão (a ‘grande tristeza’) depois da morte de sua filha mais nova, Missy (Amélie Eve). Diferente de sua esposa Nan (Radha Mitchell), ele tem dificuldade em acreditar em Deus, ou “Papai”, como ela costuma chamar o Todo Poderoso. Isso acontece por conta de eventos traumáticos envolvendo seu abusivo pai.

Em uma dessas viagens de família para um acampamento, Missy é sequestrada e morta por um homem que vinha sendo procurado pela polícia há anos. Tomado pela culpa, raiva e dor, Mack se fecha em sua mente, o que o torna cego para a dor da família, que também sofre com a perda da garotinha, especialmente Kate (Megan Charpentier), a filha do meio do casal.

Tempos depois, o homem recebe uma carta sem remetente, aparentemente escrita por Deus, convidando-o para ir à mesma cabana onde sua filha foi encontrada morta. Sem nada a perder ou acreditar, Mack decide ir até o local, que embora seja onde sua grande tristeza começou, também será o local onde irá encontrar com a Divina Trindade e finalmente permitir que a dor vá embora.

Dito isso, “A Cabana” é um filme com cara de “Sessão da Tarde”, e que insiste em fazer com que o público acredite em Deus, o que acaba tirando o peso dramático da história. Porém, as mensagens mais bonitas do filme são aquelas em que não se trata de uma figura divina, mas sobre a importância de se perdoar e a perdoar o próximo, por mais difícil que seja essa tarefa.

Outro recado muito bonito na obra acontece quando conhecemos Deus (uma divina Octavia Spencer), Jesus (Avraham Aviv Alush) e Sarayu (Sumire Matsubara), que se apresentam em figuras diferentes daquelas que fazem parte do imaginário coletivo: uma mulher negra, um homem com traços árabes e uma japonesa. Desde o começo da jornada de Mack, somos todos convidados a abandonar preconceitos e aceitar o próximo pelo que ele é, ou seja, diferente de nós mesmos.

A caminhada de Mack pela cura não é fácil. Para tal, ele precisa abandonar suas crenças, sua raiva e sua dor, e aceitar Deus em toda sua plenitude. Sam Worthington não entrega uma de suas melhores atuações, tornando difícil para que a audiência se conecte com sua tristeza. Seu personagem, contudo, faz boas perguntas, como por que Deus não evita grandes tragédias, já que Ele é onipresente e onipotente?

“A Cabana” parece fugir da questão, parecendo mais preocupado em reforçar que Deus nunca abandona Seus filhos, mesmo em situações de total desespero. Octavia Spencer realiza o melhor trabalho no longa, interpretando um Deus maternal e carinhoso. Avraham Aviv Alush faz um Jesus bem moderno e divertido, o que garante um alívio cômico para a trama.

Para quem não acredita em Deus, o filme pode parecer longo demais e com uma mensagem que não satisfaz suas dúvidas. Para quem acredita na figura divina, talvez encontre um certo conforto. Porém, “A Cabana” possui um ritmo narrativo inconstante, é visualmente cansativo (as cores são fortes o tempo todo) e efeitos especiais pouco inspiradores.

Mas, como dito anteriormente, a mensagem mais bonita da produção não envolve Deus, mas como é fundamental aprender a se perdoar para que a vida possa seguir em frente. Muitas vezes, nos vemos presos em eventos do passado, que acreditamos ter responsabilidade por eles, e não nos permitimos viver a vida.

Quando nos perdoamos e aceitamos que nem tudo pode ser controlado, é aí que a vida finalmente pode (re)começar. E é isso o que todos deveriam guardar de “A Cabana”.


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