Crítica: “A Barraca do Beijo” é mesmo um filme machista

10. junho 2018 Cinema 0
Crítica: “A Barraca do Beijo” é mesmo um filme machista

Já faz um tempo que eu tenho entrado no Twitter e perdido a conta de quantos comentários eu já li sobre “A Barraca do Beijo”. A julgar pelas mensagens, parecia mais um daqueles filmes ruins que você não consegue se desligar. E ao assisti-lo na noite passada, pude perceber que esse é mesmo o caso. A produção da Netflix é ruim e machista, mas de alguma maneira nos prende até o final.

Eis aqui dois melhores amigos de uma vida toda: Elle (Joey King) e Lee (Joel Courtney). A menina e o menino são amigos desde que nasceram, já que as mães deles também eram melhores amigas e deram à luz, inclusive, no mesmo dia. A dupla cresce unida e com uma grande paixão por aqueles jogos de dança em parques de shopping. Para manter a amizade funcionando, eles têm uma série de regras, como não contar seus segredos para outras pessoas e não namorar pessoas da família do outro.

Essa última regra cai por terra, pois Elle acaba se apaixonando pelo irmão mais velho de Lee, Noah (Jacob Elordi). Para piorar as coisas, Noah acaba se apaixonando por ela e precisam esconder o relacionamento para não ferir os sentimentos de Lee. E aí você já consegue imaginar o drama.

Mas como Elle e Noah descobrem que gostam um do outro? Por conta da tal barraca do beijo que dá nome ao filme. Eles se beijam e, daí para frente, é dado o início aos dramas comuns da adolescência e de filmes do gênero. Porém, antes disso, o longa se mostra ruim por cair em vários clichês e ainda reforçar várias ideias machistas.

A começar pela tal regra dos melhores amigos não se apaixonarem pelo parentes um do outro. Ela foi feita especificamente para Elle, já que essa norma surgiu quando eles tinham 6 anos e Noah tinha 8. Porém, a garota convive bem com essa regra e tem uma relação muito próxima com o amigo. Eles dividem tudo e, ao contrário do que se espera em filmes assim, os dois nunca desenvolvem um relacionamento amoroso ou têm sentimentos secretos um pelo outro. É a mais pura amizade, ainda que a diretriz torne o laço entre eles um pouco tóxico.

E tem mais: Noah é problemático em muitos níveis. A começar por ser o típico bad boy, mas sem uma causa. O garoto vive se metendo em brigas, inclusive por Elle, ainda que ela diga que pode lidar com as situações sozinha. Em determinado momento, ele diz à menina que os pais já tentaram buscar ajuda para ele, mas nunca foi descoberto o motivo para a raiva dele. E fica por isso mesmo.

Além disso, a forma como ele demonstra seu interesse pela garota acende todos os sinais vermelhos de cilada. Mas por ser uma comédia romântica adolescente, somente Elle não percebe que era melhor ficar longe do rapaz. Noah ameaça, basicamente, todos os meninos da escola onde estuda para que não saiam com a menina. E porque ele é rico, bonito e tem uma moto (afinal de contas ele é um bad boy), o filme quer nos levar a acreditar que esse gesto é aceitável ou até mesmo fofo. Não é. É manipulação e posse. E quem se atrever a chegar perto da menina, já sabe: vai acabar apanhando.

E se isso não fosse quase o bastante, praticamente todas as decisões que Elle toma são pautadas em Noah (ou Lee), como quando entra por acidente no vestiário masculino, acreditando que era o feminino, e o garoto pede a ela que saia dali. Ele ouve um bom “você não manda em mim”, para em seguida ver a menina dançando sem camisa com os meninos. Você pode até achar que isso representa Elle tomando controle sobre sua sexualidade, mas ela só faz o que faz para deixar o crush com ciúme. 

Para finalizar, “A Barraca do Beijo” tem uma cena enfurecedora e machista logo no início. Antes de ir para a escola, a calça de Elle rasga e, coincidentemente, a outra calça está para lavar, o que a deixa com uma única opção: uma saia pequena, mas que ainda faz parte do uniforme. Ao chegar no colégio, os meninos começam a cantar a menina, que fica visivelmente desconfortável com o assédio, o qual é piorado quando um dos garotos aperta a bunda dela. SIM. UM. GAROTO. APERTA. A BUNDA. DELA. Corte para o super-herói Noah que aparece pronto para socar quem assediou a nossa protagonista. Como resultado, os três vão parar na sala da direção e Elle recebe a mesma punição que seu agressor. Noah chega a dizer para ela que ao se vestir uma saia como aquela, ela estava “pedindo para que aquilo acontecesse”. Slut-shaming da maneira mais fácil de entender.

Porém, o que não faz sentido é Elle aceitar sair com o mesmo garoto que apertou sua bunda, depois de um pedido de desculpas muito bobo. Aliás, o filme todo é bobo, mas termina de uma maneira um tanto reconfortante, dando a Elle uma possibilidade que talvez não inclua Noah. Depois do nervoso (e até algumas risadas, confesso) é possível chegar ao final. Joey King e Joel Courtney formam uma boa dupla. Já Jacob Elordi ainda precisa desenvolver muito sua atuação.

“A Barraca do Beijo” é ruim, mas consegue fazer você assisti-lo até o final. Está tudo bem gostar do filme, apesar das mensagens negativas que ele apresenta. Mas o sentimento que fica é que ele poderia ser muito melhor. E cá entre nós: tomara que não haja uma continuação.