“Halloween” honra o filme clássico de 78 e traz força feminina para a franquia

06. novembro 2018 Cinema 0
“Halloween” honra o filme clássico de 78 e traz força feminina para a franquia

Essa já é a 10ª vez que uma história protagonizada pelo vilão Michael Myers chega às telonas, mas a proposta aqui é diferente: o novo filme “Halloween” se propõe a ser uma continuação do clássico de 1978 “Halloween – A Noite do Terror”, de John Carpenter (ele também atua como roteirista no filme de 2018). Ou seja, todos os filmes que vieram depois do primeiro são ignorados nessa nova história, iniciando um grande reboot na franquia.

“Halloween” se passa exatamente 40 anos após a fatídica noite de Dia das Bruxas na qual Michael Myers matou jovens babás na cidade de Haddonfield. Laurie Strode (interpretada por Jamie Lee Curtis), a única sobrevivente do massacre, passou sua vida se preparando para a volta do monstro, conhecido como Bogeyman, o que a levou a cortar os laços familiares com a filha, se afundar no alcoolismo e a ter dois casamentos fracassados. Acontece que, na véspera do Halloween, Michael consegue escapar da prisão psiquiátrica que está internado há quatro décadas e volta à cidade atrás de novas vítimas e para o confronto com a única sobrevivente dos assassinatos de 78.

Para conseguirmos entender o que faz desse novo “Halloween” um bom filme, precisamos olhar para o clássico de John Carpenter: se no longa-metragem original acertos aconteceram e o ajudaram a transformá-lo em uma história lembrada até hoje, alguns erros também ocorreram, já que o filme é bem datado e repete vários erros comuns em filmes de terror da época. O novo “Halloween” pega esses acertos e os reutiliza ou usa-os como referência e repara alguns problemas, como a falta de construção de personagens, a protagonista “burra” e o machismo.

“Halloween – A Noite do Terror” não apresentava uma Laurie muito inteligente, ela mais parecia uma mocinha despreparada, frágil e que toma algumas atitudes bem questionáveis. Nenhum personagem tem uma construção bem feita no filme de 78, as mulheres em sua maioria são meros estereótipos que mostram os seios e morrem. Em “Halloween” tudo isso muda: Laurie é uma mulher forte e preparada para lutar frente a frente com Michael e sua filha e neta são personagens femininas bem construídas. Ao final do filme, claramente percebe-se a mensagem de sororidade que a nova história quer passar.

Os acertos do filme de 78 estão de volta: a música tema marcante é usada nos momentos certos, o clima de tensão é novamente muito bem construído, a ambientação de terror na noite de Halloween é facilmente instaurada pelo diretor David Gordon Green, com direito a um excelente e eficaz plano sequência que acompanha Michael Myers pela vizinhança.

O novo filme tem um roteiro bem construído e uma questão a tratar: quais os traumas deixados em um sobrevivente de massacre? A história nos questiona o tempo todo se Laurie se tornou um monstro por ter sido sobrevivido a Michael Myers. Sua vida inteira foi para se preparar para um novo confronto, até mesmo treinando sua filha desde criança para qualquer ameaça. A protagonista praticamente não tem sossego em sua conturbada mente e anseia pela caça ao assassino. “Halloween” brinca o tempo todo com o jogo de ‘gato e rato’ de uma forma exemplar, até mesmo usando cenas clássicas do primeiro filme, mas com Laurie no lugar de Michael. O ato final coloca a protagonista e o Bogeyman como caça e caçador invertendo seus papéis em sequências de tirar o fôlego.

Ótima construção de personagens, referência ao filme clássico, representatividade feminina, boa fotografia e montagem, uma direção de arte que acerta ao construir um Dia das Bruxas e a uma Haddonfield que remetem muito ao longa-metragem de 78, sustos na medida certa, trilha sonora bem usada: tudo isso se soma para que “Halloween” seja um dos melhores filmes de terror do ano. O diretor David Gordon Green mostra que dá, sim, para ressuscitar o gênero slasher (que já parecia desgastado e batido) de uma forma clássica mas ao mesmo tempo moderna.