“Confederate”, nova série dos criadores de “Game of Thrones”, parece uma má ideia

“Confederate”, nova série dos criadores de “Game of Thrones”, parece uma má ideia

A este ponto, você provavelmente ouviu falar em “Confederate”, nova série da HBO, criada por David Benioff e D.B. Weiss, os mesmos de “Game of Thrones”. Mal ela foi anunciada, as críticas ganharam a internet –  e com razão. Segundo informações fornecidas pelo próprio canal, a produção se passa nos Estados Unidos, mas em uma época em que a “escravidão continua legal e evoluiu para uma moderna instituição”.

“‘Confederate’ conta os eventos que levaram à Terceira Guerra Civil Americana”, diz a sinopse. “O seriado tem lugar em um futuro alternativo, no qual os estados do sul tiveram sucesso contra os estados da União, criando uma nação onde a escravidão permanece legal e evoluiu para uma moderna instituição. A história segue personagens de ambos os lados da zona desmilitarizada de Mason-Dixon – combatentes livres, caçadores de escravos, políticos, abolicionistas, jornalistas, os executivos de uma empresa de escravos e das fafmílias das pessoas de escravos”.

Não parece uma boa ideia, parece? Quantas produções sobre escravidão nós já não vimos por aí? Por que precisamos de mais uma história sobre um período da história que nunca deveria ter existido. Pior ainda, uma que é estendida aos tempos de hoje. Até quando a dor negra será transformada em produto de entretenimento? 

São críticas válidas. E ao pensarmos em quem está por trás de “Confederate”, é possível imaginar o quão problemática a série deve ser. David Benioff e D.B. Weiss, as mentes por trás de “Game of Thrones”, receberam inúmeras críticas pela falta de diversidade na atração que vai ao ar nos domingos. Isso é motivo para que a gente fique bem temerosa quanto à forma que a escravidão deve ser abordada.

Há quem sugerisse que, em vez de criar um show onde a escravidão continua, era melhor assistir ao documentário “A 13ª Emenda”, da diretora Ava DuVernay, que fala sobre o encarceramento em massa da população negra, e como ele é uma continuação da escravidão nos tempos de hoje.

A recepção foi tão negativa, que durante a exibição do último episódio de “Game of Thrones”, foi feita uma ação coletiva no Twitter com a hashtag #NoConfederate, na tentativa de chamar a atenção da HBO para cancelar a série antes mesmo que ela seja, enfim, produzida. A campanha foi uma ideia de 5 mulheres negras, entre elas, April Reign, criadora da #OscarsSoWhite, iniciativa que criticava a falta de diversidade no Oscar.

“O principal objetivo da campanha #NoConfederate é dizer à HBO que nós não acreditamos que eles devem gastar mais tempo, dinheiro ou energia nessa ideia”, disse April ao Mashable. “É melhor que eles cancelem o show agora, enquanto ainda está bem no começo, do que gastar, potencialmente, milhões de dólares por episódio e enfrentar críticas ainda maiores durante a estreia, porque nós não vamos embora”.

Tradução: “Terceira Guerra Civil. Negros ainda são escravos no Sul. Criação de dois caras brancos. Nós não perdemos nada”.

A iniciativa não tinha como objetivo pedir um boicote à HBO ou cancelamento de assinaturas, apenas que o canal cancelasse o seriado.

“Eles fazem ótimos trabalhos, como ‘Insecure’, o projeto novo do Nnedis [Okorafor, escritora nigeriana que terá seu livro transformado em uma série] e mais. #NoConfederate é restrita a um programa”, esclareceu April no Twitter. Para ela, David Benioff e D.B. Weiss e a HBO deveriam era usar o prestígio que possuem para trazer produções mais diversas para a televisão. E a gente adoraria ver isso, com certeza.

Para o presidente do canal de TV a cabo, Casey Bloys, o único erro foi a forma como o anúncio do seriado foi feito. Em um evento realizado durante a semana passada, ele saiu em defesa da produção.

“Se eu pudesse fazer tudo de novo, eu faria. O erro foi da HBO e não dos produtores. Nossa proposta era anunciar uma ideia que é extremamente sensível e que demandada sutilezas e cuidado e o release de imprensa não fez isso. Nós da emissora tivemos a oportunidade de conversar com esses quatros produtores, ouvimos suas motivações, expectativas e porque esse projeto era importante”, afirmou Bloys. “Com este contexto em mãos, nós confiamos neles, mas também entendemos que uma pessoa lendo um simples texto de assessoria não teria essa dimensão e compreensão”, continuou. “A minha esperança é que o público avalie o material analisando como tudo poderia ter sido, como deveria ou deve ser. Não se trata de chicotadas e plantações. Em ‘Confederate’ eles estão imaginando a era contemporânea em meio a uma escravidão institucionalizada e como seriam seus atributos”.

Ainda não estou convencido. Aliás, muita gente não se convenceu. Tanto é, que a hashtag #NoConfederate ficou em primeiro lugar nos Estados Unidos durante a exibição de “Game of Thrones” e uma das mais comentadas no mundo todo no Twitter.

Claro, “Confederate” pode vir a ser uma boa série e que explora as implicações da escravidão e o racismo de forma apurada (o show tem dois produtores negros, Nichelle Tramble Spellman e Malcolm Spellman, o que pode ajudar o seriado a fazer um retrato sensível da escravidão), mas é difícil acreditar nisso, dado o que foi dito anteriormente e ao contexto atual.

Como lembra o Collant, desde a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, “houve uma escalada da xenofobia, dos crimes de ódios”, o que torna “as chances dessa série virar um hino para grupos racistas dos EUA gigante”.

Não só isso, assim como acontece no Brasil, ainda há muita desinformação sobre a escravidão e racismo nos Estados Unidos. Pode ser prejudicial criar uma série sobre escravidão em tempos atuais, quando os efeitos dela ainda são sentidos pela população negra hoje. Por que não informar o que realmente aconteceu e como isso ainda afeta pessoas em pleno ano de 2017?

Aparentemente, a HBO está mesmo decidida a dar continuidade ao projeto, segundo um comunicado feito ontem (30). Se ele vai mesmo vingar, teremos de aguardar os próximos episódios de uma ideia que ninguém pediu para ver.


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