Como “Orange Is The New Black” e “UnREAL” erraram ao tentar retratar a violência policial

Como “Orange Is The New Black” e “UnREAL” erraram ao tentar retratar a violência policial

[ESTE TEXTO CONTÉM SPOILER DE “ORANGE IS THE NEW BLACK” E “UNREAL”]

Antes de mais nada, gostaria de dizer que sou fã, tanto de “Orange Is The new Black”, quanto “UnREAL”. E isso fica claro com a quantidade de posts que já fiz sobre ambas as séries, que possuem personagens femininas complexas e tão humanas quanto as mulheres que vemos no mundo real.

Porém, reconheço que os dois seriados erram. E eles erraram a mão quando decidiram lidar com um tema muito relevante, seja nos Estados Unidos ou no Brasil: a violência policial contra a população negra. Mas para explicar como as atrações não acertaram ao abordar um problema social que tem feito muitas vítimas, vou dividir o post em duas partes.

“Orange Is The New Black”:

No penúltimo episódio da quarta temporada de “OITNB”, as detentas de Litchfield decidem fazer um protesto pacífico contra Piscatella (Brad William Henke), chefe dos guardas da prisão. Elas ficam cansadas dos constantes abusos e das violações de seus direitos, e se unem na lanchonete com um único objetivo: que ele se demita. Autoritário como é, o policial não cede e chama os outros guardas para ajudar a controlar a situação. 

Logo que eles começam a retirá-las de cima das mesas, Crazy Eyes (Uzo Aduba) tem um ataque nervoso e o guarda Bayley (Alan Aisenberg) tenta controlá-la. Poussey (Samira Wiley) tenta ajudar sua amiga, mas o policial acredita que ela está tentando atacá-lo e a imobiliza no chão, sem perceber que está sufocando-a. Minutos depois, ela morre sem ar, não sem antes dizer “eu não consigo respirar” várias vezes, uma alusão à morte de Eric Garner, um homem negro que disse o mesmo antes de ser morto por policiais, em 2014.

Entre 2015 e 2016, houve um boom de mortes de personagens lésbicas e mulheres bissexuais, o que nos deixa uma dúvida sobre o motivo pelo qual Poussey, que é abertamente lésbica, foi a escolhida para perder sua vida em uma atração cheia de personagens que não são heterossexuais. Mas esse não é o único problema no seriado: a forma como Poussey morre também não foi bem executada.

Veja bem, durante a quarta temporada, Bayley é introduzido como um guarda diferente dos demais: ele sente pena das detentas, não gosta de exercer autoridade, as escuta e é visto o tempo todo como um cara legal. Em certo momento, Caputo (Nick Sandow, diretor da prisão) diz a ele para sair logo dali, pois aquele não é lugar para alguém com um coração tão bom. É difícil não simpatizar com o rapaz. E esse é o objetivo de “Orange”: fazer com que o público tenha empatia com o moço, a ponto de que, quando ele mata Poussey, todos também tenham pena dele, pois tudo não passou de um acidente. Ele não tinha a intenção de matar ninguém, apenas queria fazer seu trabalho.

Porém, ao colocar Bayley, o guarda gente boa, como assassino de Poussey, a escolha se torna bem problemática, pois ele não é nem de longe como os policiais de verdade, que acabam matando negros no mundo real. Pelo contrário, essas pessoas que detém o poder, optam por matar, no melhor estilo “atirar primeiro, perguntar depois”. Isto é: eles não matam por acidente.

Somente nos Estados Unidos, em 2017, 523 pessoas foram mortas pela polícia americana, 120 delas sendo negras. Embora elas não sejam a maioria das vítimas, vale lembrar que elas correspondem a somente 13% da população daquele país. Não só isso, homens negros têm 3 vezes mais chances de morrer pelas mãos da polícia do que pessoas de outras raças. Ou seja, essas pessoas estão sendo exterminadas desproporcionalmente. Olhando para esses números, não dá para negar que o racismo está tirando a vida de um grupo bem específico de indivíduos.

Portanto, quando uma série retrata a morte de uma mulher negra por um homem branco como um acidente, para o grande público que não se identifica com aquela situação, aquela é a realidade das ruas: apenas casualidades. E de que seria preciso ouvir os dois lados, mesmo que uma pessoa tenha acabado de perder sua vida. Dessa maneira, a violência policial continua sendo ignorada, junto com a vida dos negros. E os policias que cometeram, de fato, um crime, seguem sem punição. É decepcionante que um seriado como “OITNB” tenha escolhido esse caminho ao retratar um tema muito sensível à população negra de maneira tão irresponsável. Eu não nego que algumas mortes possam ter sido acidentes, mas a realidade mostra muito bem que a grande maioria não é.

E para não dizer que a realidade brasileira é melhor que a americana, segundo um levantamento de 2016 do 10º Anuário de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nove pessoas são mortas diariamente pela força policial no país. Não fosse esse um dado preocupante por si só, de que o Estado têm colaborado para um número de grande homicídios, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), das 644 pessoas mortas pela polícia no Rio de Janeiro em 2015, 497 delas (77,2%) eram de negros e pardos. Ou seja, os alvos das mortes também têm uma cor bem definida.

 

“UnREAL”:

“UnREAL” lida com os bastidores de reality shows de relacionamentos, mais especificamente como tudo é armado pelos produtores, a fim de criar uma história que o público possa acompanhar e torcer. Em muitos momentos, é enfurecedor que muitas situações sejam tratadas da forma como são apenas para conseguir audiência.

É um show muito bom, como já escrevi aqui, e que na segunda temporada, também resolveu lidar com racismo e violência policial. Spoiler alert: não deu certo.

Primeiramente, Quinn (Constance Zimmer) e Rachel (Shiri Appleby) optam por um pretendente negro, Darius Beck (B.J. Britt), na nova temporada de “Everlasting”, o reality que produzem. Ele é o quarterback em um time da NFL e o primeiro negro da história do programa, mas que só topa participar da atração, para que possa limpar sua imagem depois de um comentário ofensivo sobre uma mulher e seu comportamento errático fora dos gramados.

Durante um momento de fúria nos bastidores do programa, Darius pega um carro com um de seus amigos, e leva algumas das participantes com ele para fugir da mansão onde estão confinados. Rachel chama a polícia, que para o veículo em que está o jogador de futebol americano, enquanto filma tudo de longe. Seu objetivo é de mostrar a brutalidade policial, para mostrar que ela sempre se preocupou com causas sociais. Caso você não tenha percebido, o desejo dela em fazer o que sempre quis é maior do que colocar em risco uma pessoa que ela sabe que poderia morrer naquela situação.

E quando as coisas entre a polícia, Darius e seu amigo ficam muito tensas, a produtora resolve sair correndo para avisar que eles fazem parte do show. Um dos guardas se assusta e atira no amigo de Darius. Pronto. Mais uma vítima acidental. A segunda desde que programas de televisão decidiram retratar a violência policial. Mais uma vez, vemos um policial que não queria atirar ou matar alguém sendo “perdoado” em frente às câmeras.

Eu acho ótimo que as atrações de televisão estejam dispostas a abordar esse tema. “Cara Gente Branca” fez um retrato da violência policial de forma perturbadora, mas ainda muito real, mostrando um policial apontando uma arma na cara de um jovem negro deliberadamente, apenas pelo fato de que ele é negro. É uma cena difícil de assistir, mas que joga na cara do público uma situação que é muito mais comum do que se imagina.

“Orange Is The New Black” e “UnREAL” continuam sendo ótimos seriados e tinham boas intenções, mas quando decidiram tratar de violência policial, poderiam ter feito isso de maneira mais responsável e apurada. Afinal de contas, nunca é tarde para lembrar: as vidas dos negros importam.


1 thought on “Como “Orange Is The New Black” e “UnREAL” erraram ao tentar retratar a violência policial”

  • 1
    Luíza on 17/07/2017 Responder

    Eu acho que entendi a intenção de OITNB colocando o Bailey como o assassino da Poussey. Eles queriam mostrar que o problema não é só alguns policiais individualmente, mas sim o sistema. Como na ditadura no Brasil que botavam a culpa da tortura em alguns homens sádicos que a executavam e na verdade aquilo era uma coisa imposta pelo governo, institucionalizada. Se em OITNB o Humps fosse o assassino de Poussey a ideia que ficaria é que ele é um homem ruim e ponto, não o sistema.
    Apesar de eu concordar com a intenção deles, também acho que a execução da cena acabou sendo ruim e realmente a ideia passada foi de um acidente. Acho que eles poderia ter sido o Bailey, mas em outra situação, com ele a matando voluntariamente. Talvez se eles tivessem feito um trabalho anterior pra mostrar a profissão corrompendo seu “coração bom”.
    Acho que o motivo de terem escolhido a Poussey pra morrer era pq ela era uma das personagens mais amadas da série, seria a personagem que causaria mais indignação no público.

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