Como Hollywood vem falhando com a representação de asiáticos

19. agosto 2016 Cinema 2
Como Hollywood vem falhando com a representação de asiáticos

Há poucas semanas, saiu o trailer de “A Grande Muralha”, filme protagonizado por Matt Damon, o qual vive uma espécie de guerreiro na China antiga, defendendo a famosa construção do país de um monstro. Enquanto muitos elogiaram a prévia, outros tantos aproveitaram para criticar, mais uma vez, a forma como a indústria cinematográfica vem apagando asiáticos de suas próprias narrativas.

Não foi o primeiro caso em 2016: a escolha da Marvel por Tilda Swinton no papel de Ancião em “Doutor Estranho”, também recebeu reclamações, já que o personagem é de origem tibetana nos quadrinhos originais. Scarlett Johanson também se viu em meio ao fogo cruzado, após a primeira imagem de seu mais novo filme, “Ghost In The Shell”, ser divulgada na internet. Para quem não sabe, o filme é uma adaptação de um mangá, um quadrinho japonês.

Na televisão, a série da Netflix, “Unbreakable Kimmy”, foi outra produção criticada ao colocar o personagem Titus vestido como uma gueixa e ridicularizar o grupo de ativistas que reclama da representação do ator, os quais se encantam por sua voz e desistem de levar adiante suas reclamações. “Punho de Ferro”, outro seriado da Netflix e em parceria com a Marvel, nem estreou, mas já recebeu protestos de orientalização por conta da escalação do protagonista, o ator Finn Jones.

Só mais um exemplo: no Oscar deste ano, marcado por discussões acerca da falta de diversidade entre os indicados ao prêmio, Chris Rock, apresentador da cerimônia, fez uma “piada” com crianças asiáticas, reforçando o estereótipo dos asiáticos inteligentes. A brincadeira de mau gosto não passou despercebida pela comunidade de artistas asiáticos, os quais escreveram uma carta à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas condenando o quadro ofensivo.

Isso tudo aconteceu somente neste ano, mas Hollywood falha na representação deste grupo há tempos. Como não se lembrar, por exemplo, do personagem Yunioshi, no clássico “Bonequinha de Luxo” (1961)? No filme, o já falecido Mickey Rooney esticou seus olhos, usou dentadura e criou um sotaque falso, numa caricatura terrível de como asiáticos seriam. A própria Paramount, estúdio responsável pelo longa, e Rooney reconheceram a problemática de sua performance.

Ainda assim, mais de 50 anos depois do lançamento de “Bonequinha de Luxo”, o cinema e a televisão continuam ignorando a população asiática em suas produções. Na televisão, por exemplo, um levantamento sobre séries televisivas feito pelo site de notícias Mic constatou que menos de 10% de todos os papéis vão para asiáticos. Aliás, um outro estudo realizado Escola Annenberg de Jornalismo e Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia (USC), averiguou que metade dos seriados não dão nomes ou falas para os personagens asiáticos. Nas plataformas de streaming é ainda pior: 63% das atrações sequer possuem um personagem asiático.

No cinema, a figura não melhora. De acordo com a mesma pesquisa da Escola Annenberg, a eles são dados apenas 6,3% dos papéis. O mesmo instituto realizou um outro estudo, analisando quem trabalhou atrás das câmeras entre as 700 maiores produções lançadas entre os anos de 2007 e 2014. Apenas 19 diretores asiáticos assinaram filmes, sendo apenas uma mulher creditada como co-diretora no período avaliado.

E a invisibilidade não é o único problema: quando papéis são finalmente dados a eles, muitas vezes são visões estereotipadas de um determinado grupo. Isso quando a própria cultura e o povo não são utilizados como acessórios para o personagem branco que salva a todos ao final do filme, talvez até aprendendo algo com aquelas “pessoas exóticas”.

Obviamente, Hollywood possui um problema de diversidade, seja quando falamos de gênero, raça, orientação sexual ou identidade de gênero. Não há uma forma simples que vai fazer com que uma mudança necessária aconteça de uma hora para outra. É preciso um esforço para mudar essa cultura que valoriza apenas os homens brancos e subjuga todos os outros indivíduos.

É triste ver como a indústria vem apagando os asiáticos, mas isso não tem acontecido sem críticas. É importante que os donos do dinheiro saibam que o público está mais consciente e não vai mais se contentar com qualquer filme ou com a desculpa de que não há muitos talentos. Ou ainda concordar com a visão ultrapassada de que diversidade não dá dinheiro, quando há estudos que apontam o exato oposto.

Como bem lembrou April Reign, criadora da hashtag #OscarsSoWhite, que começou um movimento de críticas online contra a falta de diversidade no Oscar, é importante que nós, enquanto público, protestemos sobre o assunto, bem como façamos a escolha de gastar nosso dinheiro em obras que nos representem de verdade, afinal, é uma forma de sinalizar aos estúdios o que realmente queremos ver.

E nós queremos cinema e televisão que se pareçam como o mundo realmente é: plural e que dê oportunidades para todos.