Como é ter ansiedade em um dia ruim

12. fevereiro 2017 Internet 2
Como é ter ansiedade em um dia ruim

Meus problemas com ansiedade começaram na adolescência, quando precisava fingir para, literalmente, todo mundo à minha volta que eu era alguém que não era. E mesmo depois de sair do armário, a ansiedade continuou aqui.

E eu não acho que ela seja algo necessariamente ruim. De alguma forma, ela nos mantém com os pés no chão e nos prepara para o que pode vir a seguir. Contudo, quando ela começa a te paralisar, é aí que você precisa começar a procurar ajuda profissional.

A minha ansiedade começou a ficar bem ruim a partir de 2015, quando ela começou a me impedir de sair de casa ou fazer coisas que eu gostava de fazer. O que vem a seguir é um relato do que acontece nos dias que eu considero ‘ruins’, ou seja, quando eu não tenho controle sobre a minha ansiedade.

Sabe aquele sentimento de que algo vai acontecer, mas você não sabe bem o que vem por aí? É assim que eu acordo todos os dias, mas nos dias ruins é como se além disso, uma angústia viesse acompanhada. E elas não passam durante o todo dia, apenas começam pequenas e vão apenas crescendo.

E aí começa o enjoo. Nada entra na barriga, apenas água. Eu sinto fome, mas não consigo comer nada, já que o estômago parece revirado do avesso. Chegando à noite, quando fica tudo fica bem pior, a fome é enorme, porém, eu não vejo o sentido em me alimentar, já que nada mais parece fazer sentido. E quando eu digo isso, eu quero dizer que viver já não faz mais sentido.

Eu tento lidar com a ansiedade ao escrever, conversar com alguém ou simplesmente ficar quieto no meu canto até ela passar. Mas ela não vai embora. Então eu tento me distrair assistindo alguma coisa, mas não consigo focar em nada. A minha mente começa a buscar todos os motivos pelos quais as pessoas não gostam de mim ou por que elas deveriam ficar longe de mim. É um pensamento automático nesses dias ruins, e eu tento ao máximo tirá-lo da minha cabeça. Mas não funciona: ele fica martelando o tempo todo.

As minhas mãos começam a transpirar e a formigar, assim como o meu nariz. Eu já conversei sobre isso com a minha psicóloga e nós dois ainda não entendemos como o meu nariz consegue fazer isso, mas ele faz. E aí a respiração começa a ficar difícil, eu tento puxar o ar, mas ele não entra. Eu respiro com a boca, o que deixa a cena um tanto desconcertante para quem está assistindo.

Os pensamentos destrutivos vêm logo nesse momento. Eu começo a falar em voz alta que aquilo vai passar, fico tentando me convencer disso para acalmar a minha mente, mas ela não se dá por vencida. Mil pensamentos vêm na mesma hora, o que faz com que eu comece a chorar por não conseguir me controlar. Eu bato a cabeça na porta, começo a me xingar e a dizer que isso nunca vai passar. Depois, ou eu ando pela casa chorando apertando as minhas mãos, ou vou me deitar chorando muito.

De tanto chorar, a minha cabeça fica cansada e eu durmo, como se eu tivesse resolvido várias questões de matemática por horas a fio. Eu apago mesmo e acordo algumas horas depois, ainda transtornado. O choro volta e eu saio de mim. Em seguida, começo a me machucar: pego a faca da cozinha e começo a cortar meus braços. Eu tenho pavor de ver sangue, mas quando eu me corto, eu preciso vê-lo saindo da minha pele, como se fosse a prova de que eu realmente preciso me punir por todo o caos causado.

Eu corto uma, duas, três quatro vezes. Quando fiz isso pela primeira vez, eu não senti nada, nem tristeza, nem alívio. Nada. Alguns segundos depois que eu me dei conta do que havia feito. Chorei, me senti culpado e prometi que não faria de novo, mas na última sexta-feira, eu fiz tudo de novo. Os braços ficam tomados pelo meu sangue, eles ardem como se estivessem pegando fogo e as lágrimas escorrem por todo meu rosto. Eu preciso me cortar para fazer com que a minha mente pense em outra coisa que não seja todo o furacão que existe dentro dela. Funciona só no momento. Depois, ela continua acelerada e pensando em coisas que eu não precisaria pensar.

Em geral, depois de fazer os cortes, eu tenho sono. Durmo por algumas horas, depois acordo, depois volto a dormir de novo. Somente algumas vezes eu fiquei acordado e perturbado com tudo o que aconteceu. Não sei o que fazer a não ser continuar chorando e me deitar. Certas vezes, alguém da família está por perto e fica comigo até eu pegar no sono. Mas como eu busco ‘poupar’ as pessoas (o que eu não recomendo, apesar de entender o sentimento de não querer preocupar ninguém), sofro sozinho na minha cama.

Quando eu acordo, não estou mais sentindo falta de ar, nem uma grande tristeza, nem nada. Apenas um sentimento de incapacidade. Mais uma vez, a ansiedade conseguiu me fazer sair do eixo. Porém, no dia seguinte, já me sinto um pouco melhor, consigo comer e pensar com mais calma, apesar de passar a maior parte do tempo em silêncio. Preciso ficar no meu canto. E todos respeitam isso.

Depois de tudo isso, preciso dizer que, se você está passando pelas mesmas coisas, procure ajuda e procure ajuda profissional. As coisas não vão se resolver da noite para o dia. É um processo que demanda tempo e paciência, principalmente de você consigo mesmo.

Amanhã a gente começa tudo de novo. E ainda bem que sempre podemos começar de novo.