Cinema brasileiro não dá espaço para mulheres negras, aponta estudo

31. janeiro 2018 Cinema 0
Cinema brasileiro não dá espaço para mulheres negras, aponta estudo

Não é exatamente uma surpresa que o cinema brasileiro seja masculino, já que uma pesquisa mostrou que homens dirigiram 83,5% dos filmes lançados entre 1995 e 2015. Contudo, o que choca é o quanto ele é masculino E branco, de acordo com os resultados apresentados por um levantamento feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Segundo o relatório “Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016”, dos 142 filmes nacionais que saíram no período da pesquisa, 75,4% (107) foram dirigidos por homens brancos. As mulheres ficaram responsáveis pela direção de 19,4% (28) deles, sendo todas elas brancas. Homens negros comandaram 2,1% (3) das obras. 

O gênero cinematográfico com mais oportunidades para as mulheres foi o documentário, o qual teve 29,5% das produções dirigidas por mulheres. 6,8% deles foram dirigidos por homens e mulheres. Todas as animações brasileiras foram dirigidas por homens, enquanto 84,5% das ficções tiveram assinaturas masculinas

No geral, todos os três gêneros foram dirigidos quase que exclusivamente por pessoas brancas. Documentários tiveram 2,3% de diretores negros, as ficções tiveram 2,1% e as animações foram 100% comandadas por brancos.

Em questão de roteiro, homens brancos saíram na frente mais uma vez, assinando 59,9% (85) das produções. Equipes de gêneros mistos vieram em seguida, com 16,9% (24), acompanhadas de perto por mulheres brancas, as quais registraram 16,2% (23). Homens negros foram apenas 2,1% (3) dos roteiristas, enquanto mulheres negras também foram excluídas dessa categoria. Equipes com raças mistas chegaram a 3,5% (5).

Mais uma vez, os documentários deram mais espaço para as mulheres, as quais assinaram o roteiro de 25% deles. Já homens negros escreveram somente 2,3% dessas obras. As animações seguiram 100% masculinas e brancas, seguidas pelas ficções, escritas por 68% de homens e 91,8% de pessoas brancas

Na produção executiva, há uma mudança: são as mulheres brancas que ocupam a liderança, com 36,9% (52) dos cargos ocupados por elas, contra 26,2% (37) dos homens. Mas assim como mostraram dados anteriores, a raça continua sendo uma barreira para negros: apenas 2,1% (3) eram homens negros, enquanto mulheres negras apareceram apenas em equipes mistas.

As direções de fotografia e de arte também são majoritariamente masculinas, sendo as funções ocupadas, respectivamente, por 85,2% e 59,2% dos homens

O gênero e a raça dos atores também foram verificados – e os resultados são decepcionantes. A maioria da população brasileira é composta por mulheres (51,5%), mas elas foram 40% das personagens do cinema em 2016. A disparidade é ainda maior quando levamos em conta a raça: enquanto 54% dos brasileiros são negros, eles formaram apenas 13,3% dos elencos. Em 42,3% das obras de ficção, não houve nenhum negro escalado nos papéis principais.

“Uma vez que você entra no mercado de trabalho, encontra uma estrutura muito racista. O cinema é uma área muito fechada que funciona por indicação e quando você consegue quebrar essa estrutura, enfrenta muitos julgamentos”, comentou a cineasta Gabriela Watson, em entrevista ao El País. “Nossa potência é sempre subestimada. Já ouvi tantas vezes esse ‘aí, será que você vai dar conta?”.

Com os dados, é possível perceber o quanto o audiovisual brasileiro ainda é machista e muito racista, oferecendo quase nenhuma oportunidade para negros, especialmente mulheres negras. E não é como se elas não tivessem formação ou capacidade para liderar na frente ou atrás das câmeras: a elas não são concedidas as mesmas chances dadas aos homens brancos.

Hollywood tem tentado, em tempos recentes, reverter o quadro, pois a situação para mulheres e minorias étnicas é igualmente problemática por lá. Seria ótimo que a indústria cinematográfica brasileira começasse a reparar os erros por aqui também.

Você pode conferir os resultados do estudo da Ancine aqui.