Cineasta e negra, Camila de Moraes afirma que é preciso mudar as “regras do jogo” no cinema brasileiro

28. dezembro 2018 Cinema 0
Cineasta e negra, Camila de Moraes afirma que  é preciso mudar as “regras do jogo” no cinema brasileiro

É possível afirmar que cineastas negros romperam barreiras em 2018. Jordan Peele, diretor do aclamado “Corra!”, saiu do Oscar com uma estatueta dourada de Melhor Roteiro Original; Ryan Coogler viu seu filme “Pantera Negra” arrecadar mais de US$ 1,3 bilhões em bilheteria; e Ava DuVernay fez história com o doce “Uma Dobra no Tempo”, primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra com um orçamento de mais de US$ 100 milhões de dólares.

No Brasil, a cineasta Camila de Moraes também moveu estruturas, tornando-se a segunda mulher negra a ter um filme no circuito nacional, com o documentário “O Caso do Homem Errado”, selecionado em 2017 no Festival de Cinema de Gramado e ganhador do prêmio de melhor longa-metragem no 9º Festival Internacional de Cine Latino – Latinuy. Antes dela, Adélia Sampaio, diretora de “Amor Maldito”, tornava-se a primeira diretora negra a realizar tal feito, há 34 anos.

“O Caso do Homem Errado” reconta a história de Júlio César de Melo Pinto, morto pela polícia em 1987, em Porto Alegre (RS). O tema da obra, embora olhe para um caso de 30 anos, continua atual: o extermínio da população negra brasileira.

“Para falar sobre esta questão do genocídio do povo negro no Brasil, abordamos esse episódio emblemático, que ocorreu na década de 1980 e salientamos os dados atuais”, conta Camila em entrevista ao Prosa Livre. “Precisamos dar um basta nesta situação que é tão dura para nós, pessoas negras, que tentamos a todo o instante sobreviver, pois ainda não temos o direto de apenas viver”.

Abaixo, você confere uma entrevista realizada em novembro passado, por email, com a cineasta e jornalista Camila de Moraes, que fala sobre seu documentário, o audiovisual brasileiro e perspectivas futuras. 

Prosa Livre: Depois de 34 anos, uma diretora negra esteve em cartaz com um filme no Brasil. Quais foram os desafios para levar “O Caso do Homem Errado” para as telas do cinema?

Camila de Moraes: Nessa semana, em um evento, escutei a frase “distraídas, venceremos”. O nosso longa-metragem passa por um processo árduo e de amadurecimento. O tempo é o dono desse caminho.  A trajetória do filme aconteceu no tempo que deveria acontecer e não necessariamente no tempo em que tínhamos previsto ou planejado. Então, passamos por diversos processos até chegar no circuito comercial, e lhe afirmo que só chegamos “tão cedo”, em março de 2018 nas salas comerciais – e digo “tão cedo”, pois após o documentário ser lançado nacionalmente (agosto de 2017), a nossa proposta era fazer pelo menos um ano de circuito de festivais. Porém, a não aceitação e aprovação do nosso filme nestes eventos é oriunda de questões racistas, de não verificar nesta obra fílmica uma ferramenta importante para discutir o racismo estrutural do país por meio da arte do audiovisual, [o que] fez com que nós buscássemos outras estratégias para poder exibir o filme para o grande público.

O que tenho a dizer é que todas as portas fechadas, desde o momento da elaboração do projeto até agora, nos fizeram chegar até aqui. E aí, no “pensar que não”, lá estávamos nós, “renascendo das cinzas” e voltando cada vez com mais aliados. “O Caso do Homem Errado” tem o apoio da comunidade negra, principalmente, que vai ao cinema e faz com que fiquemos sempre mais de uma semana em cartaz em cada uma salas de cinema que já percorremos em 9 Estados brasileiros diferentes. Chegar em circuito comercial de forma independente é um desafio surreal. São muitas etapas para serem cumpridas; é preciso sair da parte de criação e ir para a parte burocrática da parada; é preciso conhecer os trâmites, os caminhos – e muitas vezes isso não lhe é dito – e aí a gente faz um trajeto um pouco mais longo, mas muito gratificante, pois em cada ponto, cada parada, aparece alguém ali ao seu lado para lhe oferecer uma água. Igual as maratonas, sabe? E aí você tem mais gás para chegar à linha final, se é que tem uma linha final. 

PL: Você comentou em entrevistas que “O Caso do Homem Errado” foi considerado “fora do perfil” para uma distribuidora. O que você acha que isso quer dizer? 

CM: Vivemos em um país racista,  que diz que nós e o que produzimos, no nosso caso, um filme com temática racial, não se encaixa em determinados locais. Porém, do lado de cá, o que queremos é um país sem racismo, uma sociedade mais justa e igualitária, com as mesmas oportunidades para todas as pessoas, independente da cor da pele delas. E aí, com esse pensamento, buscamos achar medidas e soluções para acabar com o racismo.

Se um dia esse mal será extinguido da face da Terra, não sei lhe dizer, mas não podemos ficar paradas sem fazer nada, e consideramos importante o debate. Só o fato de estar aqui concedendo esta entrevista, dialogando com milhares de leitores, já estamos fazendo algo; nos movimentando, pois existem pessoas que estão na mesma sintonia e querendo um mundo melhor, acreditando que “outro mundo é possível”, como era o lema do Fórum Social Mundial. Um filme não vai mudar o mundo, o que muda o mundo são as pessoas. E ainda acreditamos nos seres humanos. 

PL: O que levou você a querer trabalhar a história do Júlio César de Melo Pinto?  

CM: Esse caso ficou muito conhecido no Rio Grande do Sul e, infelizmente, em 2018, as estatísticas de jovens negros assassinados só aumenta. Dados nos revelam que a cada 23 minutos um cidadão negro é executado no país. Então, para falar sobre esta questão do genocídio do povo negro no Brasil, abordamos esse episódio emblemático, que ocorreu na década de 1980, e salientamos os dados atuais. Precisamos dar um basta nesta situação que é tão dura para nós, pessoas negras, que tentamos a todo o instante no país sobreviver, pois ainda não temos o direto de apenas viver.  

PL: Como surgiu a vontade de trabalhar com cinema?

CM: Acho que existem dois pilares. Um é a família e o outro é quando estou na graduação de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo.

Sou cria de uma família de artistas e militantes do movimento negro. Minha mãe, Vera Lopes, é atriz, e o meu pai, Paulo Ricardo de Moraes, é jornalista, escritor e roteirista. Eu e meus irmãos fomos criados neste meio de lutar pelos nossos diretos, sensibilizando o próximo por meio da arte e chamando ele para lutar conosco. Vivíamos com muitos intelectuais e artistas que sempre nos muniam de informação a todo momento, um simples almoço ou jantar na casa de minha mãe contava com presenças ilustres, que hoje eu penso: “Nossa, essas pessoas frequentavam a nossa casa e eu pensava que eram apenas os amigos de meus pais”. Nós viajávamos muito, pelo menos uma vez por ano, no verão, e sempre recebíamos viajantes em casa, então, era uma riqueza cultural muito grande que recebíamos a todo instante. Para nós, era apenas diversão – e que bom que essa diversão agora vem se transformando em algo profissional. 

Nessa trajetória, ainda na graduação de Jornalismo, fiz com alguns colegas um documentário chamado “Mãe de Gay”, com o qual ganhamos dois prêmios: Melhor Documentário e Júri Popular no Festival Universitário de Gramado. Acredito que essa experiência fez com que eu percebesse que com o audiovisual é possível chegar a outros locais e outras pessoas. Depois, comecei a trabalhar com assessoria de comunicação e vídeos institucionais, e aí fiz algumas produções de filmes de amigos, alguns cursos na área do cinema, até chegar na segunda graduação (ainda em curso) que tem ênfase no audiovisual. 

PL: Seu documentário foi apenas o segundo filme dirigido por uma mulher negra a entrar no circuito comercial do país. Essa ausência de perspectivas negras e femininas não contribui para a manutenção de uma cultura excludente e racista?

CM: Quando estamos tratando de circuito comercial, com certeza, pois verificamos o quão difícil é chegar nesse patamar sendo uma produção independente. É preciso mudar as regras do jogo, repartir o bolo com fatias iguais. Produções negras também necessitam de recursos financeiros justos, e após o seu desenvolvimento concluído, necessitamos de recursos financeiros, para também fazer essa distribuição nacional justa, como as demais produções já existentes no país.

Então, verificamos que há muitas barreiras até chegar no circuito comercial. Isso faz com que outras narrativas, por exemplo, narrativas negras e femininas, cheguem pouco ao grande público e aí, essa falta de acesso faz com que não consigamos mudar o nosso cenário atual, que é racista bem como a nossa sociedade brasileira. 

PL: Segundo dados da Ancine, nenhuma mulher negra dirigiu algum dos 142 filmes de 2016. A que você deve essa falta de espaço e oportunidade para mulheres negras no audiovisual brasileiro?

CM: Precisamos deixar nítido que estamos falando de filmes em circuito comercial, pois nós mulheres e homens negros estamos produzindo a todo o momento, porém, sem as mesmas condições. Vivemos numa sociedade que é estruturada num sistema racista, no qual algumas pessoas não estão dispostas a abrir mão de seus privilégios, mesmo que saibam que isso beneficiará uma parcela mais ampla da população. Então, se este espaço for aberto para produções de pessoas negras, sabemos que mais pessoas negras entrarão também, pois há um trabalho coletivo. Por exemplo, quando uma roteirista é negra, há mais chances de ter atrizes e atores negros trabalhando; quando temos uma direção negra, há mais chances de ter mais técnicos negros na equipe. A falta de espaço e oportunidades é porque muitas pessoas perderão os seus privilégios, porém, compreendemos que se formos multiplicadores, todos saem ganhando. E é nesta linha que trilhamos o nosso caminhar. 

PL: O quão importante é, para você, que histórias negras sejam contadas nas salas de cinema? Por quê?

CM: Porque sabemos o real significado das palavras “representatividade importa, sim”. Porque precisamos ter espelhos positivos para seguir em frente, nos reconhecer no outro e é fundamental que saibamos que podemos ser o que quisermos. Por meio do audiovisual, é possível reconhecer a história de uma nação, e ajudar a construir a sua identidade, buscar suas raízes e tantas outras infinitas possibilidades de crescimento e amadurecimento. Esses ensinamentos transmitidos, por meio do audiovisual, não se restringem a um público determinado, e sim a toda a sociedade.

PL: Por que produções assinadas por pessoas negras precisam ganhar mais espaço no audiovisual?

CM: Vivemos num país diverso e precisamos ter essa diversidade refletida também no audiovisual. Precisamos reconhecer nossas origens, precisamos ver outras narrativas, precisamos dialogar com outros mundos, precisamos ter pessoas negras ocupando estes espaços, que também são nossos por direito, mas sempre lembrando que necessitamos das mesmas condições. Cada vez mais, precisamos mudar as regras do jogo, para que todos tenham as mesmas oportunidades e as demais pessoas possam ter acesso a essas produções de qualidades também. 

PL: Você acha que, a partir do seu exemplo, pode abrir porta para que mais pessoas negras – especialmente mulheres – possam entrar no audiovisual?

CM: Espero que sim, pois somos muitas e queremos ocupar os espaços. Se em um momento as portas foram fechadas para nós, buscamos outras estratégias para entrar. Porém, percebemos que essa trajetória não seria legal se estivéssemos sozinhas, então, estamos vindo em bando/coletivo. Como nos ensina o Movimento Negro (“nenhum passo atrás”), pode ter certeza que agora, ano após ano, teremos uma produção negra em circuito comercial, até chegar ao momento de não conseguirmos mais contar nos dedos quantas produções estarão em cartaz ao mesmo tempo no Brasil. 

PL: Já possui outros trabalhos em vista? Quais são seus próximos passos?

CM: Projetos é o que mais temos na gaveta, mas tirá-los de lá é que é difícil. Com esse nosso primeiro longa-metragem, aprendemos que não é possível fazer uma produção sem recursos financeiros. Então, para que o próximo projeto possa ser desenvolvido, precisamos primeiro conseguir vencer essa etapa de financiamento/patrocínios, mas lhe garanto que quero muito continuar trabalhando nesta área do audiovisual, e espero conseguir por mais alguns anos. Desejo muito desenvolver uma ficção.

PL: O que você acha que precisa ser feito para garantir que as vozes negras ganhem espaço e protagonismo no audiovisual?

CM: Precisamos ter ações afirmativas em todos os setores do audiovisual. Precisamos ter pessoas negras atuando e sendo remuneradas em todos os espaços e, assim, garantir que essas outras narrativas também possam ser contadas e assistidas pelas demais pessoas.