Casey Affleck, vencedor do Globo de Ouro e possível indicado ao Oscar, já foi acusado de assédio sexual duas vezes

11. janeiro 2017 Cinema 2
Casey Affleck, vencedor do Globo de Ouro e possível indicado ao Oscar, já foi acusado de assédio sexual duas vezes

Meryl Streep, artistas negros e mulheres não foram os únicos celebrados pelo Globo de Ouro, que aconteceu no último domingo (8). Casey Affleck, irmão do também ator Ben Affleck, foi premiado por seu trabalho no filme “Manchester à Beira-Mar”, no qual vive um homem que acaba confrontando seu passado ao voltar para sua cidade natal.

É uma daquelas atuações carregadas de emoção, que o tornam favorito para o Oscar de ‘Melhor Ator’. Contudo, ao mesmo tempo em que se elogia o trabalho do artista, ignora-se as duas acusações de assédio sexual feitas pelas mulheres que trabalharam com ele durante as filmagens do documentário “Eu Ainda Estou Aqui”, de 2010, obra escrita e dirigida pelo próprio Affleck. O projeto traz a tentativa fictícia de seu ex-cunhado, o ator Joaquin Phoenix, em largar as artes visuais para se tornar um rapper.

As acusações (que podem ser lidas aqui e aqui) foram feitas em 2010 por Amanda White, produtora do mesmo documentário, e Magdalena Gorka, diretora de fotografia do filme.

No processo, que foi resolvido por meio de um acordo entre as partes, Amanda alegou que foi vítima de “conduta ofensiva” repetidamente. Ela afirmou que Casey Affleck instruiu um membro da equipe a mostrar a ela seu pênis, mesmo tendo dito que não queria vê-lo.

No documento, a produtora também disse que o diretor referia-se às mulheres como “vacas”, disse a ela que já era hora de ela ter filhos após saber sua idade, sugerindo a ela que tivesse um filho com um dos colegas de trabalho. Em outra situação, White foi impedida de entrar em seu próprio quarto de hotel, porque Affleck e Joaquin Phoenix estavam trancados dentro dele com outras mulheres. Não só isso, o diretor insistiu para que ela e ele dividissem um quarto, o que ela negou, e ele a pegou pelo braço de “maneira hostil”.

Já Magdalena Gorka alegou que viveu a “pior experiência de sua vida” ao trabalhar com Casey. De acordo com o documento, ele e membros da equipe faziam comentários vulgares a ela e teriam discutido transar com a diretora de fotografia. Em 2008, Affleck e Phoenix decidiram não colocar os funcionários em um hotel, mas em um apartamento da dupla em Nova York. Gorka era a única mulher na equipe. Depois de uma longa noite de gravações, Joaquin teria dito a ela para que dormisse em sua cama, enquanto ele dormiria na sala. Ela acordou no meio da noite com Casey abraçado a ela, vestindo apenas uma camiseta e cueca. Seu rosto estava próximo ao dela e seu hálito cheirava a álcool. “Chocada e com nojo por não saber onde havia sido tocada por ele”, Magdalena pediu a ele que saísse de sua cama. “Por que?”, perguntou o diretor. “Porque você é casado e é meu chefe”, respondeu. Ele saiu furioso, batendo a porta.

Ela então abandonou o projeto, mas após meses sem conseguir trabalho, ela retornou ao filme, tendo conversado com Amanda White. Ela se sentiu mais segura tendo outra mulher na equipe. Porém, a diretora de fotografia continuou sendo assediada pelos membros da equipe, na frente de Affleck, que incentivava os ataques. Ela deixou o longa mais uma vez, por conta dos constantes abusos, e como retaliação, Casey não honrou o contrato, o que envolvia o crédito de “diretora de fotografia”.

Magdalena Gorka abriu um processo contra ele uma semana depois de Amanda White. O diretor negou as acusações na época e ameaçou processá-las, mas aceitou fazer um acordo. Porém, não há registro do que foi acertado, apenas os nomes das duas mulheres nos créditos de “Eu Ainda Estou Aqui”.

As acusações foram feitas em 2010, e de lá para cá, Casey Affleck, que sempre viveu de maneira discreta, em oposição ao irmão Ben, continuou trabalhando ano após ano, e as acusações de assédio sexual foram deixadas de lado. Elas só foram lembradas em outubro do ano passado, pela revista Variety, que fez um perfil do ator, ao que ele se limitou a comentar o seguinte:

“As pessoas dizem o que querem. Às vezes, não importa o que você diga. Acho que as pessoas acham que se você é bem conhecido, é perfeitamente aceitável dizer o que quiserem. Não entendo o motivo disso, mas não precisava ser assim, porque todos têm famílias e vidas”.

O caso vem na sequência de outros dois que chamaram a atenção da mídia no último ano: o de Johnny Depp e do diretor e ator Nate Parker. Depp foi acusado de violência doméstica por sua ex-esposa, a atriz Amber Heard, e Parker viu seu passado voltar ao olho público: ele estuprou uma colega de faculdade em 1999, com o roteirista de seu mais recente filme, “O Nascimento de Uma Nação”. A história nunca foi ocultada por ele, mas havia sido esquecida por anos, ganhando força na imprensa com o lançamento do longa, o qual havia sido comprado por valor recorde pela Fox Searchlight no começo de 2016, após uma elogiada estreia no festival de Sundance.

E enquanto Casey Affleck e Johnny Depp continuam trabalhando – e vão continuar por um bom tempo – , a carreira de Nate Parker parece ter acabado. Todas as acusações são alarmantes, obviamente, mas parece que Hollywood e a grande imprensa optam por quais homens elas blindarão contra notícias ruins e rejeição do público.

E enquanto isso acontecer, continuaremos normalizando o abuso contra mulheres, transformando-o em algo menor e sem importância. Enquanto a indústria cinematográfica celebra homens com histórico de violência, há mulheres tendo suas carreiras e vidas interrompidas. É passada a hora de mudar isso.