Carolina Ferraz é uma travesti no trailer de “A Glória e a Graça”

11. fevereiro 2017 Cinema 0
Carolina Ferraz é uma travesti no trailer de “A Glória e a Graça”

Pessoas cisgêneras* atuando como pessoas trans sempre será um assunto para debate: isso seria certo, enquanto 90% dessa população está na prostituição? Por que não dar uma chance para um ator ou atriz que é realmente trans para o papel? Embora a resposta, na maioria das vezes, recaia sobre o argumento de que é preciso um ‘rosto conhecido para que o filme possa vender’, essa lógica continua impedindo que pessoas trans sejam vistas pela sociedade pelo que são: pessoas.

(uma pessoa cisgênera é aquela que se identifica com o gênero atribuído no nascimento)

E depois do anúncio de que uma haveria um homem trans na nova novela de Glória Perez, interpretado por uma atriz cisgênera, agora um filme nacional segue a mesma linha e traz outra atriz cis na pele de uma travesti.

Carolina Ferraz é Glória, em “A Glória e a Graça”, cujo trailer foi liberado durante a semana pela H2O Films. Ela é dona de um restaurante no Rio de Janeiro e irmã de Graça (Sandra Corveloni), com quem não conversa há 15 anos. Elas se reencontram após a segunda contar que tem um aneurisma e pode morrer a qualquer momento. Ela pede a Glória, então, para que tome conta de seus filhos.

“Meu rosto carregava quilos de maquiagem, coisa que mal uso. Vesti uma peruca que derretia minha cabeça e meu cérebro, por conta do calor”, disse Carolina sobre as gravações, ao jornal O Globo. “Eu queria ter a oportunidade de interpretar alguém muito diferente de mim, apresentar ao público a complexidade de ser ator, o quanto é difícil se comprometer”.

Segundo a reportagem da publicação, a atriz leu o roteiro do filme, assinado por Mikael Albuquerque e Lusa Silvestre, há quase uma década e ela mesma comprou os direitos da obra. A artista também contou ter entrevistado cerca de “60 travestis para absorver a visão de mundo de quem é frequentemente marginalizado pela sociedade”. As filmagens aconteceram no ano passado.

A equipe contou ao Globo que a principal preocupação era trazer uma representação apurada de travestis. Para tal tarefa, ativistas e organizações que apoiam pessoas transgêneras foram consultadas.

“A representação do transgênero no audiovisual quase nunca é realista. Ou é cômica, ou muito caricata. A gente se preocupou em construir uma pessoa”, disse Carolina Ferraz.

“Pesquisei muito. Existem mais de 40 tipos de travestis e transexuais”, acrescentou o diretor do longa-metragem, Flávio Ramos Tambellini (“O passageiro: Segredos de adulto”). “É claro que existe uma ligação forte entre travestis e prostituição, mas não é só isso. Hoje há um movimento mundial na arte para humanizar essas pessoas, como vimos em ‘Transparent’ e no filme ‘A Garota Dinamarquesa”.

Contudo, em ambas as produções citadas por Tambellini, dois homens cis interpretam as mulheres trans que estão no centro das narrativas. Então, por que a escolha de Carolina Ferraz para o papel?

“Foi simplesmente uma questão de ela ser compatível com a personagem e experiente na área”, defendeu o diretor. “E foi uma escolha perfeita, não consigo imaginar ninguém mais nesse papel”.

“A Glória e Graça” chega aos cinemas no dia 30 de março.