Cara Gente Branca: a gente precisava ver e ouvir esse seriado

Cara Gente Branca: a gente precisava ver e ouvir esse seriado

Antes mesmo de “Cara Gente Branca” estrear na Netflix, o seriado do diretor e roteirista Justin Simien recebeu várias críticas sem sentido de pessoas (brancas) furiosas com a proposta da atração: discutir racismo e relações negras. Teve quem dissesse que a série estaria promovendo ‘racismo reverso’ e até genocídio da população branca. Nada disso acontece. Aliás, sosseguem pessoas brancas, pois a gente precisava ver e ouvir tudo isso.

A história de “Cara Gente Branca” se passa em uma das melhores universidades americanas, na qual a maioria dos estudantes é branca. O foco do seriado, contudo, é nas vidas dos poucos estudantes negros e até de outras minorias, os quais só queriam estudar e conseguir um diploma, mas têm de lidar com o racismo da instituição e de seus colegas.

Para dar um pontapé nas diversas discussões envolvendo raça dentro da produção, acompanhamos o desenrolar de uma festa com o tema do blackface. Essa prática de pintar os rostos de preto era muito comum nos teatros americanos em séculos passados, tempos em que brancos faziam isso para criar uma caricatura da população negra, não apenas ridicularizando-a, mas também tirando dela a oportunidade de trabalho na artes. Com o tempo, o blackface perdeu um pouco a força, mas ainda é possível ver pessoas brancas com os rostos pintados nos dias de hoje.

A partir daí, cada episódio foca em um diferente personagem – todos negros, obviamente – , mostrando a forma como cada um deles lida com a situação. Mas não é só isso: embora o racismo seja algo que costura as experiências de pessoas negras, elas não se resumem apenas a histórias sobre racismo. “Cara Gente Branca” foca no preconceito, mas explora a individualidade de seus personagens, humanizando-os e mostrando a pluralidade de suas existências.

Existe a militante combativa, Samantha ‘Sam’ White (Logan Browning), que possui um programa de rádio e acredita que mudanças reais só ocorrem quando se vai para a linha de frente. Existe Lionel (DeRon Horton), um rapaz que está se descobrindo gay e percebendo como é viver com duas identidades muito discriminadas socialmente. Há também Troy (Brandon P. Bell), que tenta resolver tudo com base no diálogo e parece mais moderado aos olhos dos brancos da universidade, apesar de que suas ações nem sempre se alinham ao seu discurso. Há também Coco (Antoinette Robertson), que opta não discutir racismo por conta de suas experiências pessoais. Mas não se engane: porque você não fala sobre, não quer dizer que ele não te afeta.

E há ainda Gabe (John Patrick Amedori), namorado de Sam, com o qual muito brancos ‘desconstruídos’, incluindo a mim, podem se identificar: embora tenhamos boas intenções e entendamos o mundo racista em que vivemos, nós nunca saberemos o que é, de fato, o racismo e o quão doloroso e cruel ele é.

“Cara Gente Branca” toca em muitas temáticas, como o estereótipo sobre pessoas negras, a violência policial, a solidão da mulher negra, a relação afetivas inter-raciais e o colorismo (discriminação com pessoas negras de acordo com o tom de sua pele: quanto mais clara ela for, mais aceito o indivíduo é para os brancos). Tudo isso é feito de maneira inteligente, sarcástica, didática e sempre partindo do ponto de vista do negro. Afinal de contas, eles não precisam – e nunca precisaram – de alguém para contar suas histórias.

Apesar do nome, a série não é sobre pessoas brancas. É sobre os negros, suas dores, suas alegrias e suas vivências. Entendo que conversar sobre raça seja muito incômodo para muita gente, mas essa falta de diálogo tem custado o bem estar e a vida de muitas pessoas negras. Nesse sentido, as artes são uma ótima ferramenta para criar pontes, incutir novas formas de pensar e enxergar o outro.

Tire um tempo e veja “Cara Gente Branca”. Em tempos como o de hoje, é fundamental consumir produtos culturais feitos por negros e ouvir o que eles têm a dizer. Temos muito o que aprender. 


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