Campanha da Vogue Brasil coloca atores globais para “representar” atletas paralímpicos; eis o pior da semana

24. agosto 2016 Estilo 0
Campanha da Vogue Brasil coloca atores globais para “representar” atletas paralímpicos; eis o pior da semana

Nos últimos dias, uma campanha para que as pessoas comprem ingressos para os Jogos Paralímpicos ganhou força na internet. Atualmente, das 2,4 milhões de entradas disponíveis para a competição, somente 500 mil foram vendidas (20%); uma quantidade ainda pequena, mas que é quase o dobro do que foi vendido na semana passada. Acredita-se que o sucesso da Olimpíada do Rio motivou as pessoas a demonstrarem desejo em comparecer às Paralimpíadas, que acontecem na Cidade Maravilhosa entre os dias 7 e 18 de setembro.

Os paratletas são de altíssimo nível e sempre garantem várias medalhas para o Brasil. Vale a pena acompanhá-los de perto, como é igualmente bacana ver uma movimentação para incentivar as pessoas a comprar os ingressos. Até mesmo a revista Vogue brasileira resolveu demonstrar seu apoio, o que seria uma atitude louvável, não fosse a péssima execução da campanha que tem como mote “Somos Todos Paralímpicos”. A publicação trouxe os atores Cléo Pires e Paulo Vilhena “representando” Bruna Alexandre e Renato Leite, paratletas do tênis de mesa e do vôlei sentado, respectivamente. Para fazer tal “representação”, um dos braços de Cléo e uma das pernas de Vilhena foram retirados no Photoshop.

Sim, duas pessoas sem qualquer deficiência são os rostos de uma iniciativa sobre as Paralimpíadas.

Se a ideia era dar visibilidade à competição, por que não dar visibilidade aos paratletas, de fato? Quero dizer, eu entendo a repercussão que Cléo Pires e Paulo Vilhena podem trazer (nesse caso, negativa), mas ainda assim, por que não aproveitar a oportunidade para destacar os paratletas? Essa foi a mesma reclamação de muitos nas redes sociais:

A campanha é uma sucessão de erros. Primeiro de tudo, é preciso deixar bem claro: não, nós não somos todos paralímpicos. Pessoas com deficiência compõe 6,2% da população brasileira, segundo dados do IBGE, e eu tenho certeza de que nenhuma delas pendura a deficiência em um cabide após um ensaio fotográfico. Pessoas com deficiência  enfrentam diversas barreiras, que vão desde a falta de acessibilidade nas ruas, em prédios públicos e privados, abandono familiar, até invisibilidade em uma campanha que, em teoria, seria sobre elas.

É como se quem está por trás da campanha afirmasse que nem mesmo para serem quem são aquelas pessoas servem. A repercussão negativa (óbvia) é similar àquela recebida no ano passado pela revista americana Interview, que colocou Kylie Jenner sentada em uma cadeira de rodas em sua capa. O uso do item é utilizado pela moda há anos, e pode parecer “artístico”, mas para muita gente, esse é a forma que possuem para se locomover.

E toda essa polêmica em torno da iniciativa lembra como a mídia falha na representação das pessoas com deficiência. Se por um lado são apagadas de suas próprias narrativas, em outras elas são lembradas apenas por suas “histórias de superação”.

Embora as histórias de pessoas com deficiência possam parecer “otimistas” e até “motivadoras” para muitos, para quem tem algum tipo de deficiência, a experiência pode ser bem ofensiva. “O propósito dessas imagens é inspirar você, motivar você, para então podermos olhar para elas e pensar: ‘Bem, por pior que seja a minha vida, poderia ser pior. Eu poderia ser aquela pessoa’. Mas e se você for aquela pessoa?”, indagou a falecida jornalista e comediante australiana Stella Young em uma palestra para o TED Talks.

Quanto à campanha “Somos Todos Paralímpicos”, como reporta o site B9, a Vogue tenta se desvincilhar ao máximo dela. Segundo o texto, o diretor de arte da revista, Clayton Carneiro, afirmou que “a ideia toda da campanha foi da embaixadora das Paralimpíadas, Cléo Pires. A gente sabia que seria um soco no estômago, mas estávamos lá por uma boa causa”.

E de acordo com o Comitê Paralímpico Brasileiro, “a campanha com a participação dos embaixadores do movimento paralímpico brasileiro Cléo Pires e Paulo Vilhena tem o apoio do CPB. O objetivo da campanha é chamar atenção para as pessoas com deficiência num momento em que o Brasil se aproxima dos Jogos Paralímpicos. De acordo com as estatísticas oficiais, um em cada quatro brasileiros tem algum tipo de deficiência. Mas essas pessoas ainda são, em grande maioria, invisíveis na nossa sociedade. Os atletas estão presentes em outras fotos e ficaram muito felizes em participar da campanha”.

Mas, de novo: se essas pessoas são invisíveis na sociedade brasileira, então por que não destacá-las?

Esse triste episódio serve não apenas para falarmos sobre representação de pessoas com deficiência, mas também para melhorarmos a forma como os representamos. E um bom passo para isso seria vê-los e escutá-los mais.

Para quem deseja comprar ingresso para os Jogos Paralímpicos, é preciso entrar no site https://ingressos.rio2016.com/, e realizar um cadastro e escolher alguma partida entre as 23 modalidades. Também é possível comprar entradas para a competição nas bilheterias físicas no Rio de Janeiro.