Por que a camiseta promocional do filme “Suffragette” causou a ira nas redes sociais

07. outubro 2015 Cinema 3
Por que a camiseta promocional do filme “Suffragette” causou a ira nas redes sociais

Uma semana após sua entrevista para a revista Time Out London, Meryl Streep volta a fazer manchetes, mas de novo, não por bons motivos. É que a a atriz veterana, que prefere ser considerada “humanista” e não “feminista”, assim como suas colegas de elenco do filme “Suffragette”, aparecem vestindo uma camiseta promocional do longa com os dizeres “Prefiro ser rebelde a uma escrava”.

Camiseta promocional de Meryl Streep para o filme "Suffragette" causa ir nas redes sociais

A frase foi dita por Emmeline Pankhurst, personagem de Meryl na produção, que foi líder do movimento sufragista na Inglaterra, lutando pelo direito das mulheres ao voto. E embora a citação seja considerada empoderadora, é preciso levar em consideração a época em que foi utilizada.

Durante um discurso, em 1913, um momento em que os direitos das mulheres estavam bem mais atrasados do que estão hoje, Pankhurst declarou o seguinte:

“Sei que as mulheres, uma vez convencidas de que estão fazendo o que é certo, que sua rebelião é justa, elas seguirão em frente, não importando as dificuldades, não importando os perigos, enquanto houver uma mulher viva para levantar a bandeira da rebelião. Eu prefiro ser rebelde a uma escrava”.

“Provavelmente foi animador e inspirador e totalmente OK dentro daquele contexto da época”, escreve Zeba Blay em artigo para o Huffington Post. “Contudo, esse não é mais um comício do século 20 pedindo o direito ao voto – é um ensaio fotográfico caro protagonizado por lindas e famosas mulheres brancas, promovendo um filme com uma frase que referencia a escravidão”.

Muitas ativistas foram ao Twitter protestar contra as imagens, lembrando do racismo e exclusão das mulheres negras na luta das mulheres pelo direito ao voto. O movimento sufragista foi majoritariamente composto por mulheres brancas, mas isso não quer dizer que mulheres de outras raças e etnias não participaram dele.

“Uma figura importante que aliou os discursos de direito ao voto e de abolicionismo foi Sojourner Truth“, lembra Bárbara Carneiro, em texto para a revista Capitolina. “[Uma] Ex-escrava estadunidense, que de improviso fez um discurso conhecido como “Eu não sou uma mulher?” defendendo o direito das mulheres e dos negros ao voto nos Estados Unidos”.

Outra figura importante foi Harriet Tubman, mulher negra, nascida escrava nos Estados Unidos, e que lutou pela abolição da escravatura em seu país. É dela a citação utilizada pela atriz Viola Davis, em seu discurso no Emmy Awards deste ano, quando tornou-se a primeira mulher negra a levar o prêmio de atuação em série dramática, a primeira em 67 anos da premiação. Frances Harper, outra mulher negra, também lutou pelo direito ao voto e pela abolição da escravatura.

Na internet, várias pessoas lembraram da luta de tantas outras mulheres e figuras importantes na história dessa importante conquista feminina.

Camiseta promocional de Meryl Streep para o filme "Suffragette" causa ir nas redes sociais

Tweet: “Essas são sufragistas indianas, em Londres. A foto é de 1911. Elas estão inclusas no filme?”

Vale lembrar que o movimento sufragista foi muito importante, mas é preciso oferecer outros pontos de vista sobre ele, como lembra a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em sua palestra chamada “O perigo de uma única história”. “A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história”.

A revista Time Out London, depois das diversas críticas recebidas pelo ensaio, manifestou-se dizendo:

“Essa é uma frase de um discurso dado, em 1913, por Emmeline Pankhurst, uma das históricas sufragistas britânicas, cuja luta por igualdade é representada no filme. A citação original tinha a intenção de fazer com que as mulheres levantem-se contra a opressão – é um lema e não tinha a menor intenção de criticar aqueles que não tiveram opção, a não ser submeter-se à opressão, ou referenciar a Confederação*, como algumas pessoas que viram a imagem fora de contexto supuseram… A Time Out publicou a imagem original online e impressa no Reino Unido há uma semana. O contexto do ensaio e da imagem foram absolutamente claros aos leitores que leram a matéria. Foi lida por pelo menos meio milhão de pessoas no Reino Unido e não recebeu reclamações”.

*A Confederação diz respeito aos seis estados do sul dos Estados Unidos, agrários e escravistas, que formaram um Estado, após a vitória de Abraham Lincoln nas eleições presidenciais naquele país.

Para ficar claro, a ideia de marketing para promover “Suffragette” pode ter sido bem-intencionada, mas isso não quer dizer que não deva ser criticada, ainda mais quando se trata de mais um filme que “pinta de branco” uma parte importante da história e apaga personagens que deveriam ser contadas e reconhecidas por suas ações. “Sim, a opressão por gênero é tóxica e terrível, mas não é o mesmo que escravidão”, conclui Zeba Blay em seu artigo.

Camiseta promocional de Meryl Streep para o filme "Suffragette" causa ir nas redes sociais

Tweet: “Eu prefiro exagerar a minha opressão ao invés de reconhecer a sua” #FeminismoBranco.

Por que a camiseta promocional do filme "Suffragette" causou a ira nas redes sociais

Tweet: “Prefiro ser rebelde a uma escrava”.

Por que a camiseta promocional do filme "Suffragette" causou a ira nas redes sociais

Tweet: “Você sabe que tinha uma estagiária sentada no fundo da sala durante o ensaio apenas balançando sua cabeça”.

Por que a camiseta promocional do filme "Suffragette" causou a ira nas redes sociais

Tweet: “Sabe quem mais preferiria ser rebeldes? Escravos de verdade”.