Estreia de “Califórnia” reafirma o jovem como foco no cinema brasileiro

04. dezembro 2015 Cinema 0
Estreia de “Califórnia” reafirma o jovem como foco no cinema brasileiro

Foi o cinema que inventou a juventude, ou os jovens quem se (re)inventaram através do cinema? Ao mesmo tempo em que os filmes criam e/ou representam uma imagem da juventude de seu tempo, essa juventude se apropria dessa criação em seu estilo e seu comportamento. Não é difícil lembrar de algum filme de John Hughes (“Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco” etc.) quando pensamos na juventude americana dos anos 80, por exemplo.

Francisco Miguez em "As Melhores Coisas do Mundo"
Francisco Miguez em “As Melhores Coisas do Mundo”

No Brasil, por outro lado, essa representação sempre ficou um pouco de lado. Talvez pela tradição estética e narrativa do cinema nacional, é difícil encontrar diálogos com a juventude ao longo da nossa cinematografia. Filmes com personagens jovens existem, mas e quanto a filmes sobre e para os jovens? Quando “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky, foi lançado em 2008, ele não chegou a inaugurar um gênero nem nada do tipo, mas abriu portas, e os olhos também. Estava lá uma representação honesta do jovem, que a televisão, por exemplo, jamais havia feito com tanta verdade e coragem.

Cenas de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" e "Beira-Mar"
Cenas de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e “Beira-Mar”

Nos anos seguintes, filmes que tratam não somente do jovem como também de outro tema marginalizado pelo nosso cinema – a diversidade sexual – começam a aparecer e, mais importante, a ganhar retorno positivo do público. Um bom exemplo é “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, lançado em 2014 a partir de um curta-metragem que virou sucesso na internet. Mesmo que se defenda que outras produções nacionais da mesma época (“Tatuagem”, “Praia do Futuro”) tratassem do tema da homossexualidade de maneira mais profunda, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” tem sua importância. Afinal, é necessário que existam filmes que dialoguem mais de perto com um maior número de pessoas, principalmente quando o objetivo é chamar a atenção para temáticas dessa importância.

Essa questão surge mais forte em “Beira-Mar”, lançado no mês passado. O filme, que soa mais como um projeto estético e visual, pouco diz sobre a diversidade sexual dos jovens do país, sendo inclusive associado uma produção estrangeira, fria, com atores loiros e branquinhos, problemas da classe média, etc.. Mas o filme atraiu um nicho bastante específico de mercado, e isso é positivo. O público precisa começar de algum lugar.

Clara Gallo e Caio Horowicz em “Califórnia”

Em “Califórnia”, novo longa-metragem da cineasta Marina Person, que estreia essa semana, o tema da diversidade sexual não aparece como centro da narrativa, mas está em seu fio condutor. Ambientado na década de 1980, “Califórnia” acompanha a personagem Estela (interpretada pela ótima Clara Gallo) nas descobertas da sua adolescência, as inseguranças, as primeiras vezes. E além das primeiras experiências, há ainda outro tema relacionado à sexualidade no filme: a AIDS, que surgia naquela década e sobre a qual pouco se sabia. Como tudo no filme, a questão é encarada sob o ponto de vista de Estela, o que adiciona leveza à temática ao mesmo tempo em que cria uma aproximação maior e mais pessoal com a questão.

A espinha dorsal do filme é a relação de Estela com o tio que mora nos Estados Unidos, e com quem ela planeja se encontrar na viagem que sonha fazer para a Califórnia. Essa relação justifica o título do filme, um tanto melancólico e com bastante significado. Afinal, talvez não seja tão importante (e nem tão possível) que Estela realmente vá para a Califórnia. O que não significa que sua vida não está acontecendo. Ela está aqui, neste instante. Está nas festinhas com os amigos do colégio. Está na vontade de ser mais independente. Está na empatia com o JM (Caio Horowicz), o mocinho com visual pós-punk que todo mundo diz que é gay. Já existia bullying nos anos 80, antes de a palavra ser “inventada”.

A diretora Marina Person e o elenco de "Califórnia"
A diretora Marina Person e o elenco de “Califórnia”

E mesmo que toda a ambientação – que vai dos detalhes cuidadosos de cenografia e caracterização até a ótima trilha musical – faça o espectador, mesmo o mais jovem, embarcar direto para os anos 80, há uma certa graça em ver o quanto as coisas talvez não fossem tão diferentes assim lá atrás. Mesmo que os jovens de “Califórnia” não tenham celulares, internet ou perfis em redes sociais, dificilmente algum adolescente de hoje não se identificaria com eles.

Se o audiovisual brasileiro ainda não conseguiu estabelecer um diálogo com o público jovem, ao menos o caminho está aberto. Hoje, mais do que nunca. O que não significa que produções como “Califórnia” sejam filmes apenas direcionados ao público jovem. Basta você ser pego por qualquer diálogo bem construído ou por qualquer faixa da trilha sonora que te traga nostalgia (mesmo que seja pelo que você não viveu) para comprovar isso. Bons filmes serão sempre bons filmes para todo mundo.