Caio Blat é mais um exemplo da ‘broderagem’ masculina

Caio Blat é mais um exemplo da ‘broderagem’ masculina

Nos últimos dias, o assédio sexual se tornou tema de debate dentro e fora das redes sociais, depois da denúncia da figurinista Susllem Meneguzzi Tonani, que revelou ter sido assediada dentro dos estúdios da Rede Globo pelo ator José Mayer, que acabou sendo afastado das novelas da emissora.

Ontem (4), diversas atrizes compartilharam mensagens com os dizeres “mexeu com uma, mexeu com todas”, em um gesto de solidariedade a Susllem e a todas as mulheres que já sofreram algum tipo de agressão no ambiente de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 52% delas já foram vítimas de assédio sexual.

Mas depois de um dia em que mulheres de diferentes idades, classes sociais, tamanhos e cores se uniram contra o machismo, logo apareceram homens para defender José Mayer e diminuir o que ele fez. Caio Blat, que conversou com o site Glamurama, acredita que “não houve intimidação”.

“Não estou sabendo dessa decisão de afastá-lo, mas não acho certa. José Mayer é uma pessoa que a gente conhece. A declaração que ele deu hoje foi brilhante. A forma como ele se colocou foi perfeita. Ele não representa ameaça a ninguém. Fez uma brincadeira fora de tom, e na presença de outras pessoas. Não houve intimidação”, disse o artista.

Da última vez que procurei saber, colocar a mão na vagina de uma mulher sem o consentimento dela não era considerado uma ‘brincadeira’, mas crime. E perguntado como seria sua reação se a situação tivesse acontecido com sua esposa, a atriz Maria Ribeiro, ele respondeu o seguinte.

“A Maria passa por isso diversas vezes, me conta. Ainda faz parte da nossa cultura. Ainda mais quando existe uma relação hierárquica. Existe essa tomada de consciência e a mobilização de hoje foi importante. Uma brincadeira que talvez as pessoas estejam acostumadas porque sempre foi assim. A campanha foi muito legal, todo mundo se engajando. Existe essa questão de outras gerações”.

Além de Caio, o ator Oscar Magrini disse no programa Encontro com Fátima Bernardes que o assédio ainda é muito comum, infelizmente, mas que “a mulher também neste sentido tem que saber se colocar para não instigar o outro”. Thiago Rodrigues, também ator, defendeu José Mayer, afirmando que o colega “está mal com isso tudo”, acrescentando que o conhece e que é contra a crucificação e o ódio.

Diante de tantas falas problemáticas, a gente precisa esclarecer alguns pontos. Primeiro: é positivo que José Mayer tenha se desculpado publicamente, mas vale lembrar que isso só aconteceu depois que ele negou as acusações e da chuva de críticas que recebeu por seu comportamento inadequado e machista, para dizer o mínimo. Homens em posição de poder raramente reconhecem erros ou são penalizados por eles (Donald Trump, Chris Brown e Casey Affleck são casos bem ilustrativos), porém, isso é o mínimo que ele poderia ter feito: pedir desculpas. E ele deveria ter feito isso logo no início (ou quem sabe nem ter assediado sua colega de trabalho, antes de qualquer coisa).

Agora, as falas de Caio, Oscar e Thiago são mais uma demonstração da ‘broderagem’ masculina, a qual inocenta o amigo de qualquer culpa ou tenta diminuir o que ele fez para algo menor, uma brincadeira. Mas essa não é uma brincadeira. Inclusive, é esse tipo de atitude que torna o ambiente de trabalho e espaços públicos campos de batalha para mulheres, as quais precisam sempre lutar para serem vistas como sujeitos, dignas de respeito como qualquer ser humano.

E ao dizer que eles conhecem José Mayer, a mensagem que é transmitida é de que o ator é ‘um cara legal’ e que ‘ele jamais assediaria alguém’. Eis o seguinte: caras legais também assediam, batem e matam mulheres todos os dias. Eles podem ser ótimas pessoas dentro de casa e com os amigos, e ser violento fora dos olhares conhecidos. Ou até vice-versa, afinal, 70% das vítimas de estupro, por exemplo, conhecem seus abusadores. Eles podem ser pais, irmãos, primos, tios e amigos.

Não só isso, em vez de parabenizar um homem que se desculpou por ter agredido uma mulher, é muito mais produtivo parabenizar uma mulher que fez a denúncia, já que muitas não o fazem. Quando uma mulher dá um passo à frente, tantas outras sentem-se fortalecidas para fazer o mesmo.

As declarações do trio de atores reforçam o machismo  e essa cultura de subjugação feminina. Se eles pretendem fazer parte desse movimento de apoio aos direitos das mulheres, é preciso começar a cobrar seus amigos pelos comentários e piadas machistas, e até interferir em caso de assédio e agressões psicológicas e físicas. É preciso responsabilizar os homens pelas suas atitudes, do contrário, continuaremos naturalizando a violência contra a mulher. E como podemos ver, elas não vão mais aceitar ser silenciadas e diminuídas. Não mais.

PS: Caio Blat postou hoje uma imagem no Instagram, com uma legenda em que afirma que suas palavras foram distorcidas pela mídia.

“Gostaria de deixar claro que sou totalmente contra qualquer tipo de assédio e provocação machista, e que apoio e admiro o movimento corajoso das mulheres contra essa covardia. Diferente do que alguns veículos publicaram, distorcendo minha declaração, jamais defendi ou relativizei a violência de uma assédio, apenas elogiei a capacidade de um acusado de se desculpar a assumir seu erro publicamente, que é a única atitude cabível. Espero que esse movimento traga uma nova consciência sobre os resquícios de machismo que ainda existem na nossa sociedade, e que ninguém mais seja constrangido em seu local de trabalho ou em qualquer ambiente”.


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