Brancos são 7 vezes mais representados do que negros na publicidade brasileira, diz estudo

26. outubro 2016 Internet 0
Brancos são 7 vezes mais representados do que negros na publicidade brasileira, diz estudo

Se você não consegue se lembrar de algum negro em algum comercial de televisão, não é culpa sua. A publicidade brasileira ainda é excessivamente branca e masculina, como aponta um estudo feito pela agência de propaganda Heads.

O grupo analisou comerciais de televisão por uma semana, além de monitorar as campanhas das mesmas marcas no Facebook. Foram 3.038 propagandas examinadas, nas quais os brancos foram 7 vezes mais representados do que os negros.

Num recorte de gênero, homens foram protagonistas de 33% das ações, enquanto as mulheres representaram 26% dos personagens centrais. Produtos foram os protagonistas dos demais comerciais. E quando a mulher a mulher é retratada, ela ainda é, na maioria dos casos, branca (84%), jovem (87%), magra (50%) e possui cabelos lisos (62%). Não só isso, a figura da mulher ainda é associada a papéis de gênero, como o cuidado com a casa e a família, diz o levantamento da Heads.

Ou seja, a publicidade brasileira ainda é muito marcada por estereótipos que não acompanharam as transformações sociais dos últimos anos e das últimas décadas. Não só isso, ela também está descolada da realidade brasileira: enquanto negros e mulheres são minorias nas propagandas, esses grupos formam mais da metade da população do país (53% e 51%, respectivamente).

“Uma pessoa recebe, em média, 3.000 mensagens publicitárias por dia, que vão formando nossas referências de mundo, e padrões do que é belo ou certo”, disse Carla Alzamora, diretora de planejamento da agência de publicidade que organizou o estudo, ao jornal Folha de SP. “Quando vemos que a maioria dessas mensagens é muito parecida, percebemos que estamos deixando muita coisa de fora. Ou seja, estamos construindo padrões que pioram a situação de representatividade de raça e gênero”.

Não que seja necessário dizer novamente, mas a representação desses indivíduos (e de tantos outros, como LGBTs e pessoas com deficiência) importa, já que embora eles também consumam, a mensagem enviada pelas empresas quando não os representam é o de que não vê essas pessoas como sujeitos. Além disso, o reforço a estereótipos de raça e gênero cria uma barreira que impede a construção de uma sociedade em que todos são tratados de forma igualitária e justa.

E os resultados obtidos pela Heads não diferem muito dos encontrados na última pesquisa feita pela agência, divulgada em março deste ano. Na época, o grupo analisou 2,3 mil inserções com até meio minuto de duração, exibidos durante os dias 25 e 31 de janeiro, nos intervalos da Rede Globo e do Megapix.

Foi o segundo estudo realizado pela agência, que concluiu que mais de 90% dos protagonistas nas campanhas eram brancos, sendo 93% homens brancos, 90% mulheres brancas, 7% homens negros e apenas 1% mulheres negras. Como o levantamento havia sido feito durante o verão, acredita-se que a estação interfere na forma como as propagandas são feitas, que acabam reforçando ainda mais os estereótipos, especialmente os de gênero.

Para reverter essa situação, é necessário que marcas e agências estejam mais conscientes, e que o público continue cobrando por discursos e práticas melhores por parte das empresas que fazem os produtos que consomem.

Por exemplo, temos a Avon, que tem demonstrado em suas campanhas que é possível fazer publicidade sem apelar para estereótipos, dando espaço, também, para pessoas que antes não eram vistas em propagandas.

“A combinação da mobilização de grupos contra mensagens pouco representativas ou estereotipadas com o fato de algumas marcas mostrarem que dá pra fazer diferente tem forçado as mudanças”, concluiu Carla Alzamora à Folha de SP.

A Heads foi a primeira agência brasileira a aderir aos Princípios de Empoderamento das Mulheres das Nações Unidas. O resultado completo da pesquisa será apresentado na sexta-feira (28), em um evento da ONU Mulheres, no Rio de Janeiro.